Almerindo Lessa

Não fui aluno de Almerindo Lessa. Nem sequer tive a honra de ser um dos seus íntimos. Também não me ligaram a ele, em termos quantitativos, longas páginas daquelas agendas onde alguns têm a ilusão proteica de medir o tempo, nesta era da quantidade. Do mesmo modo, nunca nada lhe pedi, nem ele nada me deu, em termos da contabilidade de favores e serviços feudais, nesta sociedade de barganha corporativa feita de gentlemen’s agreements, mas sem gentry nem trust. Dele apenas tive o muito da intensividade e do qualitativo. Sobretudo, a intuição da essência, de ambos fazermos parte daquela corrente que nasce da mesma ciência de princípios e da mesma communitas amoris, que tenta cumprir idênticos sonhos. Se calhar aproximámo-nos por causa de Oliveira Martins. Por causa de Leonardo Coimbra. Por causa de Teilhard de Chardin. De certeza que por causa de Portugal. E desse sonho de Portugal que é o de cumprir Portugal, cumprindo. E de um sonho maior: o da unidade do género humano, daquilo que o mestre qualificou como abraço armilar, expressão que intercedi junto do Professor Carvalho Rodrigues para ser levada no primeiro satélite português, e que fisicamente foi lançada como semente de logos nesse quase supraceleste da estratosfera. Não estranhem, pois, que, muito politologicamente, comece por invocar um médico. Como médicos foram Aristóteles ou John Locke. Desses verdadeiros médicos, tão especialistas na análise que nunca acreditaram na pretensa ciência dos excelsos especialistas em cascas de árvore; desses que, sabendo tudo das ínfimas parcelas, recusam compreender o todo da floresta. Almerindo Lessa, discípulo de positivistas, ditos naturalistas da matéria, sempre andou à procura da metafísica, porque, ao bisturizar, nas entranhas do pormenor, o corpo do homem, chegou à conclusão que não havia conclusão, que só sabia que nada se sabia e que, portanto, importava procurar o mais além. Porque no fundo do corpo do homem, não deixa de existir o mais profundo dos mistérios da condição humana, o acaso e a necessidade do gene, do DNA. Por dentro das nossas coisas mais coisas até há o mistério do cosmos, o sistema geral feito para procurarmos sem o conforto das respostas, mas fazendo ainda mais perguntas. A matéria encerra a abertura à liberdade do espírito. Eis o porquê de Almerindo, aqui e agora, neste sítio de ciência política. Porque o homem não é apenas a soma dos rácios com a vontade. É também imaginação, simbólico, poesia mais verdadeira do que a história, história que vamos escrevendo sem saber que história vamos efectivamente fazendo, onde as acções superam sempre as intenções. Porque por dentro das coisas é que as coisas realmente são, esse um pouco de mais além que nos dá asa. Onde o eu nas circunstâncias pode mudar o determinismo das circunstâncias. Porque Almerindo ficou felizmente por cumprir, em nome desse sonho, queremos dizer Presente. Há os que da lei da morte se libertam. Porque, ousando olhar a morte de frente, isto é vivendo, tratam de procurar o impossível, acabando por semear eternidade nos outros que os vão vivendo. Ei-lo, portuense de raiz, desse burgo donde houve nome Portugal. Ei-lo descendo para o cais de Lisboa, praia de todas as partidas, mas para andar sempre a partir, vaga-mundo, das Franças e Brasílias, dos matos da América, às ruelas de Macau, da encruzilhada de Cabo Verde a sítios sem lugar, mas presos ao aqui e agora. Ei-lo, portuguesmente estrangeirado, sempre a nacionalizar as tendências importadas e a revivificar do passado mortos que nunca morrem, misturando cientificismo com o ardor da beleza, o estampido do extâse com a serenidade da palavra. Ei-lo, ensinando-nos muito epistemologicamente que não vale a pena descobrir o que já está descoberto nem inventar o que já está inventado. Ei-lo profundamente político, profundamente repúblico, a desprezar os maquiavéizinhos do essencial do Poder se configurar como o procurar manter-se. Entre monárquicos era republicano, entre republicanos, monárquico, quando havia monárquicos e republicanos, antes de certos republicanos se tornarem monárquicos de conveniências, antes dos monárquicos autênticos terem de ser republicanos. Ei-lo, conservador para revolucionários e revolucionário para conservadores. Porque não conseguia separar a honra da inteligência e o pragmatismo da aventura. Por iso preferiu ensinar filosofia a médicos, poesia a contabilistas e medicina a burocratas. Sempre sem o pretenso desleixo dos que pensam ser génios, ousou o perfeccionismo dos que consideram que a inspiração é feita de muita expiração. Porque o ora sem labora é tão impotente quanto o labora sem ora. Por todas as escolas onde professou, sempre semeou a heterodoxia a que ousamos continuar fiéis. E noutras escolas semeou o sonho de escola que outros hão-de continuar a tentar. Esse sonho de universidade como universitas scientiarum, onde o saber pelo saber tem de integrar e mobilizar o saber fazer, sem pôr o superior ao serviço do inferior. Perdoem-me um pequeno testemunho, de um simples e complexo episódio, um meorialismo sem literatura de justificação. Era nos idos do ano 1987, pouco antes da maioria absoluta de Cavaco Silva, ainda na era Delors, dos bons alunos. Na política portuguesa havia então a ilusão de um partido meio heterodoxo, ao que parece discípulo de Bartolomeu Dias. Um partido antipartido que a opinião publicada, sob o rigoroso controlo de uma central que apenas pretendia uma direita conveniente à esquerda e que taxava como ortodoxa uma entidade que tinha a coragem de esquerda de então se dizer de direita. Na altura havia fortes hipóteses desse grupo alinhar num governo de coligação, o que até era verdade, diga-se, mas essa minha gente de cépticos entusiastas parecia efectivamente mais entusiasmada em discutir a mais prática das teorias, a de procurar saber se Portugal valia a pena. Encarregado de dar corpo ao projecto ficou este que vos escreve, então muito jovem e hoje ainda com a mesma idade da ilusão. E lá se deu corpo a um colóquio com a pessoana invocação do cumprir Portugal. E por lá passaram, poucos dias antes de uma desastrosa campanha eleitoral, figuras tão apartidárias como António Quadros, Luís Forjaz Trigueiros, Lima de Freitas, João Maia, Agostinho da Silva e Almerindo Lessa, para só falarmos nos que já deixaram esta vida. Pois fiquem sabendo que, na imprensa, nem uma linha, quase. A excepção de Fernando Dacosta, honra lhe seja, apenas confirmou a regra. Enquanto outros do mesmo partido se ministerializavam, deputavam ou presidencializavam, este grupo de sensatos lunáticos tratava de procurar descobrir como podíamos cumprir o sonho de Portugal. Claro está que esse esboço de partido desapareceu no fragor de um derrota eleitoral e até acabou por ser dirigido por quem na altura era propagandista ao serviço do partido adversário. Apesar dos que se queriam ministerializar terem sido ministros. Dos que se queriam deputar terem sido deputados. Dos que se queriam presidencializar chegarem a candidatos a presidente. Evidentemente, que por outro partido, mesmo que no que diz ter o mesmo nome, mas que não é a mesma coisa. Claro está que tudo isto foi antes da queda do muro e de muitos outros muros. Os que queriam viver como pensavam sem pensarem como iriam viver, ficaram mesmo a só com a profissão de pensar. E quase todos deixaram a ilusão da política partidária. Mesmo alguns acabaram como acabam todos os que ficam de mal com el rei por amor dos homens e de mal com os homens por amor de el rei. Porque o universal é o local sem os muros, como dizia Miguel Torga. Tudo isto para recordar o que nesse colóquio professou Almerindo Lessa, misturando o lume da razão com o lume da profecia. Disse, por exemplo, que era urgente estudarmos a ecologia do homem português. O que, aliás, importa recordar nestes tempos de interregno em que muitos patriotorrecamente tanto falam em Portugal esquecendo que tal entidade só pode existir se viverem portugueses. Que tal essência de mátria só tem realidade quando se radica na existência de homens concretos, de carne, de sangue e de sonho. E Almerindo mais disse: que temos predisposição para sobrepôr o espírito à matéria; que temos tendência para a sobreposição da ideia de Deus à ideia do Ouro. E que para cumprirmos este objectivos revolucionários, até somos conservadores da tolerância, sobretudo no domínio racial, onde, por acaso, na Ilha dos Amores, ao regressarmos da Índia, até criámos um novo tipo de homem. E mais proclamou: que os homens até são animais filosofantes. E que só poderão filosofantear quando desenvolverem a investigação científica e adquirirem para tanto as tecnologias necessárias. O que passa por descobrir o que já está descoberto e inventar o que já está inventado. Mas onde a técnica tenha sempre uma cobertura ética. E mais profetizou: que uma nação que perca os seus mitos e lendas vai morrer de frio, concluindo que cumpre-se Portugal cumprindo. Cumprir Portugal, cumprindo, eis o lema do tal abraço armilar. Onde cumprir cumprindo também é ascendermos à unidade do género humano, título de outro colóquio, numa certa escola, a minha, realizado em 1965, onde Almerindo nos trouxe o crescer para cima e crescer para dentro desse outro mestre da heterodoxia chamado Teilhard de Chardin. Eis o imperativo que me levou a meditar sobre este mestre. Daquelas razões do coração que certa raison não conhece. Quando a razão, enquanto logos, ou discurso, também é coração. Emoção, imaginação, amor. E mais não digo. Que fique dito o que fica por dizer. Almerindo está aqui. Está aqui, ausente, presente, nesta comunidade de família e amigos, de mestres e discípulos. Mas nunca de seita. Sempre de homens livres. Para que continuemos a procurar. A morrer tentando. Para que, da lei da morte, nos possamos libertar. Semeando no poder-ser o dever-ser do que há-de ser e que não é. Que esperança é spera e sphera. Muito armilarmente. Porque ela nos foi dada por quem tinha como lema o pola ley e pola grey e mudou as tormentas em boa esperança.. Para, depois da Índia, continuarmos na senda da Índia que não há e não ficarmos desempregados à espera dos subsídios…

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