Como perdura o Leviatã

O mal absoluto, em termos políticos, está na circunstância do Estado se assumir como o detentor do bem e da verdade. Quando ele assume essa perspectiva logo se convence que tem obrigação de missionar o bem e de perseguir o mal. Logo, quando trata de extirpar o mal, tem de proibir todas as vozes consideradas como de perdição.

 

 

 

O opinion maker dominante é inteligente, esperto, enciclopédico. Ao contrário dos especialistas em assuntos gerais, assume-se como um especialista em todas as especialidades. Dos taxistas à engenharia genética, das violações à política orçamental. Filósofo de nascença, nem por isso deixa de ser um estalinista de crença. O pior é que continua inteligente, pleno de recursos retóricos e sabendo cultivar o bom senso. Militante dos assuntos intermediários, denota, contudo, falta de crença quanto aos valores fundamentais. Falta-lhe, sobretudo, a agilidade sincera do discurso poético.

 

 

 

Só durante o espectáculo eleiçoeiro é que procura fingir-se que o governado tem um qualquer infinitesimal de governante. Mas o Leviatã perdura. O pacto de sujeição continua a preponderar sobre o pacto de associação. O principado é sempre mais forte que a “respublica”. O aparelho de poder penetra heterónimo no civismo da participação comunitária.

 

 

 

 

 

Para ser livre tenho de aprofundar o meu “indivisus”, mas assim vai doendo a solidão. Logo, porco-espinho me vou eriçando e solidariedade esquecendo. Resta a utopia do que sonho ter sido, feito amanhã que não mais vou ter.

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