Nov 11

Libertação, precisa-se!

O subscritor destas crónicas quinzenais assumiu recentemente o compromisso cívico de se ligar a um partido político, pelo que passou a correr o risco de os respectivos escritos periódicos serem qualificados como contrários à independência crítica.

Mas descansem todos quantos não querem ler colunas activistas. Espero nunca ceder à tentação do propagandismo, porque, mesmo militante, tentarei continuar a ser um homem livre. Desenganem-se, pois, todos quantos me tentarem enclausurar como porta-voz de uma qualquer coisa que me ultrapassa.

Antes de ser membro de um qualquer partido, já era português, já era liberdadeiro e já pugnava pelo nacionalismo liberal, defrontando todos os Dantas na nossa praça, alguns dos quais com academias privativas de viúvas. Esses que poderão continuar a denegrir-me como monstro, mas que não têm o direito de dizer que me criaram, porque, de facto não fui por eles criado, nem deles fui ou serei criado.

Vejamos algumas pequenas cenas do nosso quotidiano politiqueiro. Na cena número um, o Presidente Sampaio denuncia o escândalo do “numerus clausus” em medicina e grita “aqui d’el rei”. Direi que estes alertas depois do facto consumado, com todo o lume da razão, soam a falsete. Alguma vez ele clamou previamente? Alguma vez ele ousou assumir o lume da profecia? Ele e todos os partidocratas que, cedendo aos corporativismos, nunca cortaram a direito, nem foram capazes de clamar o “ó da guarda” da profilaxia. Agora, importemos espanhóis, ucranianos, russos e chineses. E continuemos a deixar que a tecnocracia, a gerontocracia e os grupos de pressão decidam sobre a educação.

Na cena número dois, dez ou quinze mil estudantes universitários manifestam-se contra as propinas em Lisboa. O protesto tem mais a ver com a injustiça fiscal do que com questões de política educativa. Porque continua a pagar o justo pelo pecador. Porque a única lente que o Estado tem para analisar o isento acaba por premiar o evasor fiscal. Assim não há moralidade nem comem todos. A justiça sempre foi tratar desigualmente o desigual.
Cena número três: Sampaio, em Espanha, diante do rei de Madrid, critica o proteccionismo espanhol. Mas Sampaio não é o rei nem o presidente-rei. Tendo a força do povo, está condenado a fazer tapetes de Arraiolos para ser ouvido, quando devia exercitar poderes adequados à respectiva legitimidade. Não por causa dele, mas pelos votos directos que o elevaram a nosso máximo representante, sem os intermediários partidocráticos. O povo quer um presidente na sua plenitude e não um manequim decorativo. O presidente devia ser mesmo Portugal em figura humana.

Cena número quatro: Barroso e os deputados discutem o orçamento. De um lado, tudo bem. Do outro, tudo mal. O zé povinho paga o espectáculo. Tudo rábulas. Entre a “casette” cunhalista e o comício MRPP, com ex-MES a tentarem racionalizar. Se uns ministros riem, o povo grama.
Cena número seis: arquivado o processo das viagens-fantasmas dos deputados… “No comments”. A única coisa que valia a pena era podermos consultar o arquivo. Com os nomes todos. Todos. Todos. Para que eles fossem menos secretos que os Arquivos da PIDE, do KGB ou da própria CIA. Aqui, o regime do segredo de Estado é mais silencioso do que as memórias de Rui Mateus. Mais silencioso do que o processo da Casa Pia e muito mais mentiroso do que o “muito mentiroso”. Quantas estátuas não há com esses pés de barro!
Cena número sete: debate televisivo sobre a constituição europeia. Eram três que pareciam de um lado e outros tês fingindo estar do outro. Quase todos estavam no mesmo sítio. Em lugar nenhum. Entoando músicas celestiais, fingiram servir a dois senhores, para que os reverenciássemos. A maior parte destes discursadores, que se pensam donos do país, monopolizando a palavra, não conseguiram dar voz ao Portugal profundo nem ao futuro de Portugal. Usando o discurso de justificação, muitos continuam rigorosamente ao centro, para, amanhã, poderem saudar o vencedor e recolher os restos do futuro prato de lentilhas. À excepção de Jorge Miranda que conseguiu pôr certos pontos nos “ii”, os outros, dando uma no cravo e outra na ferradura, tiveram medo de ser do contra. Os portugueses deviam ter atitude daquelas nações sem Estado que, como o País Basco e a Catalunha, sabem navegar, sem complexos, na União Europeia, para a defesa dos respectivos interesses nacionais. Porque a Europa não é a Constituição imposta pela locomotiva franco-alemã. A Europa pode ser o pretexto para a libertação das nações proibidas pelos mini-impérios que restam.
É mais importante continuar a tentar dar voz ao meu país das realidades, esse que continua a ser sufocado pelo atavismo do comunismo burocrático. Porque, no outro país, o do “faz-de-conta”, há muitos eruditos que não são cultos.

Por mim, prefiro continuar a ser fiel à voz de meus avós, a peregrinar a raiz do Portugal portucalense. Seguir o exemplo dos soldados do Mindelo e da Maria da Fonte e recordar a virtude dos que, à maneira de Sá de Miranda, sempre foram de um só rosto, de um só parecer e que, para não torcerem, renunciaram às delícias da sociedade de Corte.

A direita e a esquerda a que chegámos são dois rostos de um “mais do mesmo”, de um sistema que entrou em degenerescência, onde o que domina são os fantasmas de direita e os preconceitos de esquerda.

Posso defender a democracia, mas estar contra o sistema, reclamando que o sistema obedeça ao espírito do regime. Por isso, importa cumprir as promessas não cumpridas do programa original do 25 de Abril de 1974. Porque, os outros dois “dd” têm que ser reinventados, com um novo conceito de desenvolvimento e um novo modelo de descolonização.

A palavra libertação volta a ser necessária. O sentido de resistência torna-se urgente. Contra o país oficial dos “jobs for the boys” e dos “boys for the jobs”, contra o país dos compadres e das comadres.

Importa ir ao fundo de nós mesmos, crescer para cima e crescer por dentro. Ir ao Infante D. Pedro e reformular o Estado, como um verdadeiro concelho em ponto grande. Colocar o pacto de associação acima do pacto de governo e reformular o pacto de constituição. Dar sociedade às pessoas e fazer emergir o Estado da Sociedade.

Voltar à liberdade natural, assumir a justiça, ser radicalmente igualitário, para que o “português à solta” volte a rimar com a pátria. Ir mais fundo, aos factores democráticos da formação de Portugal. Com Jaime Cortesão e Fernando Pessoa, Herculano e Pinheiro Ferreira, Ribeiro dos Santos e Velasco Gouveia.

Isto é, não temer ser excêntrico face ao sistema, para poder ser concêntrico quanto ao país, para parafrasear Luís Mousinho de Albuquerque. Ser como sempre fui: conservador nos princípios, conservador do que deve-ser, contra o conservadorismo do que está; reformista nas metodologias; e radical nos objectivos.

Estar aqui e agora e reagir contra a decadência. Perceber que o sistema entrou em espiral concentracionária. Porque, se antes de Abril de 1974, quando a soberania estava condicionada pelos grupos económicos, pela disciplina da subversão comunista e pela ameaça golpista dos militares, agora o medo deixou de guardar a vinha e, ocupando o vazio de poder, outros interesses perderam a vergonha da pressão manifesta.

Não estou nem nunca estive à direita desta esquerda instalada, nem me apetece ficar à esquerda desta direita do estado a que chegámos. Nem, muito menos, estou no oportunismo do rigorosamente ao centro. Porque outro tem que ser o jogo, outros os árbitros, outros os sorteios, outras as regras.

Basta fazer um furo no ovo, pôr a cabeça por cima do tronco e remeter os pés para o seu devido lugar. Dividir para unificar, voltar a dizer que só há unidade se se admitir a diversidade e não a confundir com a unicidade.

Portugal são estas algemas que nos libertam, oito séculos e meio de luz e sombras, este sonho a que livremente nos prendemos, e onde cada um dos portugueses pode, e deve, assumir-se como simples parte de um todo que será mais rico quanto mais a respectivas parcelas puderem mobilizar os que se excluem da cidadania.

É evidente que a salvação não acontecerá a curto prazo, remodelando este ou aquele ministro, removendo este ou aquele governo, extinguindo este ou aquele partido. Se a crise é tão profunda, o caminho da regeneração implica um investimento de longo prazo.

Só começando pelos princípios se poderá desencadear o princípio.