Fev 18

Na véspera de mais umas eleições

Hoje é dia de santa reflexão, para que, amanhã, se finja que houve liberdade e que as eleições foram justas, livres e leais. Hoje é dia de fazermos delete das notícias ditas políticas, isto é, dos tacosemitidos pelas agências de comunicação política, para que a bebedeira de slogans ocultasse a realidade. Amanhã, os velhos donos do poder continuarão a mandar. Porque exprimiremos a vontade de todos em vez da vontade geral. Porque todos votaremos útil, isto é, todos votaremos pensando nos nossos próprios interesses e não no bem comum. Porque cada um não poderá exercer o dever de votar como se ele próprio fosse o soberano. Porque ainda não chegou a hora da moralização da política. E não funcionará o imperativo categórico. Da conduta de cada não se poderá extrair uma lei universal. Rousseau continuará a não ser compreendido. E Kant poderá arriscar-se a ser cognominado como um perigoso maçon, adepto do gnosticismo. Dentro de dias, teremos no governo gente que, apesar de ser mais tolerante e mais democrata, acabará, da mesma forma, ineficaz, porque, depois de um breve estado de graça, não conseguirá que as promessas se concretizem, gerando a inevitável contradição entre as expectativas e as frustrações. Quem regressa à reflexão depois de ter sujado as mãos nos compromissos de uma campanha, dando o corpo e o nome numa pequena resistência simbólica pela liberdade, apenas teve o prazer de exercitar a cidadania pelo combate de ideias. Apenas experimentou aquilo que agora pode continuar a julgar. Teremos, sem dúvida, um novo ciclo no regime. E os derrotados entrarão em transe, alguns deles condenados a uma travessia no deserto, onde nem uma certa candidatura presidencial poderá servir de lenitivo e adiamento. Outros grupos, ditos partidos, deixarão até de existir como instituições, dado que se reduziram a meras personalizações do poder, dado que não conseguirão extirpar os tumores que lhe deram ilusória vitalidade. Ainda terão deputados nacionais e europeus, gestores públicos indemnizados e meia dúzia de autarcas, mas serão nomes sem sentido de futuro. A tristeza pesará. O desencanto continuará larvar. O potencial líder governamental não terá condições anímicas para nos mobilizar, porque tanto não representa o messianismo de esquerda, como está longe do sebastianismo de direita. Por outras palavras, o futuro governo poderá ser o último deste regime, nesta encruzilhada histórica que marca a nossa decadência. O país das televisões, depois de um breve armistício, em breve nos trará a agressiva oposição de velhos e novos opinion makers, com as portas abertas aos velhos e novos escândalos, onde novosdossiers abertos trarão novas chantagens e novas gestões de silêncios. Nenhum dos actuais partidos, solitariamente, tem suficientes quadros para a regeneração de Portugal. E o pior é que uma das facções tenha a tentação de mostrar a face da arrogante perseguição, enquanto os opositores podem não saber fazer oposição. Os compromissos internacionais que nos irão acabrunhar também demonstrarão a impossibilidade de redescoberta da esperança. Chegou ao fim o nosso tradicional recurso ao sonhar é fácil, desta recente sociedade de casino. Os tempos que se avizinham poderão, aliás, ser trágicos e poderá acontecer-nos que, em termos políticos, para fugirmos ao out of control, caiamos na mera pilotagem automática, com um governo de meros autómatos, robotizados pelas regras internacionais, enquanto no plano interno ficaremos crescentemente sujeitos à pressão dos corporativismos, com uma sociedade pouco mobilizável pelo bem comum, onde todos seremos arrastados pelos reflexos condicionados da cenoura e do chicote.

Fev 18

Do pensamento único à lisboetização da pátria

É em tempos de campanha que os poderes fácticos mostram a verdadeira face da influência, raspando o verniz do pudor. Quando o banqueiro em apuros recebe o telefonema do ministro que lhe vai despachar a encrenca. Quando o empreiteiro recebe a visita do vereador e faz a troca necessária para a superação deste ou daquele entrave burocrático. E não há politólogo mediático que saiba ir além das sondagens e do inventário da classe política, enumerando, em adequado trabalho de campo, os inúmeros meandros da pressão, em português praticada.  Às vezes, apetecia não mais dizer política. Não mais dizer esquerda, direita ou centro. Ceder à pressão deste doce pensamento único que nos pretende normalizar, lisboetizando a pátria, e reconhecer que ainda vivo na idade das trevas, só porque não sigo os ditames dos receberam as lições da modernização teológica, vindas desses representantes da falsa burguesia fina e bem-educada pelos colégios congreganistas e pelas universidades concordatárias ou protocolarizadas, desses que transformaram a luta política e o combate de ideias em formas de sublimação dos problemas sexuais não resolvidos. Dos que elevaram à categoria de políticos dominantes esses subprodutos do reservatório dos frustrados, entre os que temem o prazer de viver, segundo o dever da procura da felicidade, aos que afogam as angústias com teúdas e manteúdas. Dos que continuam à espera da chegada de uma procissão onde a hipocrisia precede a Inquisição e onde é inevitável que desponte a era da intolerância e, com ela, os processos salazarentos de defesa dos bons costumes, com cabos de mar a medirem o tamanho dos biquinis e polícias de segurança pública a interpelarem os parzinhos que nos bancos de jardim exibissem o despudor de um beijo. Há séculos e séculos de dispersas intolerâncias que produziram sucessivos ostracismos, paredes de granítica distância entre quemdevia ter o prazer da comunhão como cidadania. Aqui, vou recolhendo mais alguns sinais de intolerância que nestes dias caíram sobre os homens livres. Desses pequenos passos de uma persiganga, às vezes benzida pelas pias da corrupção santificada, onde o turquemada de alcatifa pensa que não entrará no inferno, só porque os fins da canonizada instituição de que é agente continuam a justificar os meios e instrumentos da fina tortura. E os ditos cujos, ao gerarem irmãos-inimigos de idêntica intolerância, quantos mais votos têm, mais verdadeiros se vão mostrando, perdendo o disfarce dos trejeitos camaleónicos com que cantarolavam a lenga-lenga do juridicismo. Aquilo que devia ser a nossa principal aposta, a educação para a cidadania, transformou-se numa espécie de grande lixeira, para onde vamos lançando fundos públicos reciclados pela burocracia e pelo carreirismo. Nesses meandros onde dominam os caprichos dos poderosos e dos tecnocratas, aquilo que devia ser missão transformou-se em subproduto dispensável e quase acessório, dado que não é possível, com esta grelha mental, avaliar o mérito. A corrida à papelada e o carimbo de conformidade com a cobardia sistémica geraram este ambiente onde todos correm à procura de um lugar qualquer, desde que esteja à sombra de estável posto de vencimento ou de uma pensão dourada. Quem fingiu cumprir o horário e assinar o livro de ponto do relatório ilegível, sempre pode alcançar aquele nível de poder que lhe permita isentar-se da lei que ele próprio continua a emitir para os que lhe estão por baixo. Amanhã, a manhã virá de onde o sol nos vem chegando. Mas, amanhã, a manhã será um novo tempo. Demorará mais tempo. Que amanhã, a contabilidade dos analistas de cenários vai concluir que o poder sufragado terá de continuar a governar a retalho, recauchutando a lenga lenga do politiquês do Bloco Central, sem que consiga a necessária mobilização nacional para o bem comum. Amanhã, alguém vestirá os panos da impunidade do poder e entrará naquele breve e ledo estado de graça que lhe permita reacender o modelo do passa-culpas, relativamente aos anteriores ocupantes dos cadeirões do poder. Amanhã, alguns dos figurões não se envergonharão nem pedirão a respectiva demissão, porque, sendo políticos profissionais, não querem ir para um desemprego não subsidiado. Amanhã, a manhã ainda não será manhã. Em Portugal, a chamada tolerância, isto é, a possibilidade que temos de dialogar com os adversários no espaço público, bem como a própria democracia pluralista e representativa, não constituem uma concessão de alguns políticos que se consideram a si mesmos como os pais da democracia e até pais da pátria. A democracia que temos vivido, construído, reconstruído e contestado não nos veio através de uma qualquer carta constitucional emitida pelo absolutismo de um qualquer fundador do regime. Até poderíamos dizer que a presente pós-revolução foi imediata consequência da contra-revolução, tal como esta derivou mais da revolução que do regime que esta derrubara.