Direita sem tradição liberal?

Leio num blogue ligado a jovens intelectuais do PS que “não há uma tradição liberal na direita portuguesa, ao contrário do que acontece em Inglaterra e até em França (a direita «orleanista»). A direita portuguesa, no essencial, esteve sempre ao lado da ordem e da autoridade (religiosa, militar e política)”. Concordo inteiramente, se me for explicado o que entende o articulista por direita portuguesa. Se ele considerar que a direita portuguesa foi fundada pelo centrista Oliveira Salazar e chegou aos nossos ideias reduzida aos intelectuais ditos de direita que ainda o elogiam, tem toda a razão. Se ele a reduzir aos leitores, admiradores e discípulos da dita Nova Direita de Bénoist, organicista e antiliberal, está a continuar a inventar a direita que convém a certa esquerda. De qualquer maneira não está a ser justo. Primeiro, para o CDS, cujo fundador foi agora mobilizado pelo PS para ministro. Em segundo lugar, para a Aliança Democrática que logo ganhou as eleições em 1979. Em terceiro lugar para Francisco Lucas Pires, o primeiro líder político da democracia que se afirmou de direita. Em quarto lugar, para todos os direitistas que se candidataram a deputados da oposição em todos os actos eleitorais durante o Estado Novo ou que apoiaram as rebeliões das candidaturas presidenciais da mesma e até os próprios golpes de Estado. Com efeito, seria injusto dizer que toda a não-esquerda do presente regime, isto é, tudo o que vai para a direita do PS é antidemocrata e anti liberal. Os factos demonstram-no. Mais injusto seria até dizer que a I República não gerou partidos de direita, coisa que seria ofensiva para unionistas, evolucionistas, sidonistas, liberais, reconstituintes e nacionalistas, cujos dirigentes e militantes, apesar de opostos aos afonsistas, silvistas e canhotos do partido democrático, deram a vida pela causa democrática durante o Estado Novo, unindo-se aos monárquicos e até a aderentes do 28 de Maio, em muitas décadas de resistência contra o salazarismo. Basta recordar gente da estirpe de Carlos Vilhena, Henrique Galvão, Paiva Couceiro, Vieira de Almeida, Almeida Braga, Rolão Preto ou até um Humberto Delgado que até começou por reivindicar na campanha o epíteto de liberal. E continuaria tudo a ser tremendamente injusto, sobretudo quando se elogia o orleanismo e não se invoca a gesta dos regeneradores de direita de 1820, os liberais de D. Pedro IV, D. Maria II, D. Pedro V, os regeneradores, os históricos, os progressistas, os reformistas e todos os grandes partidos demoliberais. E grande parte do Partido Socialista sempre se orgulhou nesse direitismo liberal da grande tradição regeneradora de 1820, 1826, 1834, 1836, 1851 e do depois. O “lapsus calami” de reduzir a direita à extrema-direita é mau conselheiro para uma democracia como a nossa que não é de direita nem de esquerda, mas uma casa comum de defesa e fomento do Estado de Direito, do pluralismo e da sociedade aberta. Se reduzíssemos a esquerda aos estalinistas, trotskistas, maoístas e quejandos e dissessemos que a esquerda portuguesa é pouco liberal, estaríamos quase a enveredar por uma espécie de discussão “ml”, onde poríamos numa estreita mesa-redonda ex-esquerdas revolucionárias a brincarem às ideologias com ex-direitas revolucionárias, com neofascistas e velhos fascistas, defrontando ex-marxistas com neo-marxistas, uns pintados de esquerda liberal, importada de Londres, e outros de direita liberal, com tradução em calão de velhas modas parisienses, para gáudio dos que querem continuar a desnacionalizar a nossa duplamente centenária democracia liberal.  Por outras palavras, seria estúpido, coisa que não acontece a Filipe Nunes e ao blogue País Relativo. Relativizemo-nos, isto é, liberalizemo-nos, assumindo o chão moral da nossa história democrática. E gritemos os dois viva 1820 e 1836, porque aí somos, de certeza, irmãos de herança.  Já os partidos de direita continuam em bailados de angústia existencial, em instituições que perderam a cabeça e andam à procura do tronco em flor e dos próprios membros, onde metade continua em regime de pé-atrás e outros tantos em bicos-de-pé e até de Papagaios. Especialmente estes últimos que, repetindo posturas da neta de Mussolini e do senhor Haider, continuam a inventar conspiratas comunicacionais, disfarçadas em fugas de fontes geralmente bem informadas, nesses processos de crescente esquizofrenia, onde todos vão fingindo que realmente existem. Por mim, apetece fugir destes antros de pequenez mental e sair do capitaleirismo e do politiqueirismo, rumo a um qualquer exílio num mais além que seja um lugar onde, no qual possar exercer o meu transcendente situado, esse “quid” a que muitos chamam espírito, neste dia em que se comemora o primeiro mês do passamento da irmã Lúcia. Porque apesar de tudo, vale mais ouvirmos a leitura da ressuscitação de Lázaro, pela voz do Padre Feytor Pinto, do que um qualquer “talk show” de um pederasta em regime terrorista de liquidação de crenças.

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