Set 21

Grandes manifestações de júbilo inundaram as ruas e praças

Grandes manifestações de júbilo inundaram as ruas e praças de uma democracia autarquicamente entalada, como continua casapianamente julgada, apitadoramente doirada, vitorinamente advogada e mourinhamente saudosa.  Com um Estado de Direito que parece não saber entender-se com o Estado-Espectáculo.  Com um Estado de Partidos que não consegue relacionar-se com um Estado de Corporações.  Com a Santa Madre Igreja a continuar sem dialogar com o Grande Oriente Lusitano.  Com o Partido da Tropa às avessas com o Partido dos Becas.  E onde todos esperam que Dom Sebastião se chame Mário Aníbal Soares Cavaco Silva.

Set 21

O país dos intelectuais

O país dos intelectuais é, com efeito, uma balança sem fiel, deusa ou espada, onde todos os pesos da pressão pendem para um dos lados, querendo transformar o que resta do Portugal-que-pensa-pensar numa simples colónia cultural da estupidez de uma sub-Europa de exportação para as bolsas terceiromundistas das respectivas periferias. Aliás, o próprio jornalismo de ideias vigente constitui uma das primeiras cabeças do chamado quarto poder, procurando configurar-se como uma nova espécie de catedratismo, desse que, outrora, foi representado pelas universidades. Aliou-se, aliás, à chamada cultura empresarial, medida pelos padrões da compra, esse parecer a que falta o ser e que acaba por ser medido pelo ter. Todos representam o que de mais vácuo há nessa ponte do tédio que vai do poder para a cultura, constituindo uma forma suave e gaguejante daquilo que têm os Maxwell, os Murdoch e os Berlusconi, esses que, vendendo mistelas de pornografia e análises de política internacional, conseguem marcar o ritmo dos que pensam pensar. Surgiu assim um estranho pensamento em Portugal que nada tem de enraizadamente português, constituindo a principal via da nossa nova forma de colonização cultural e de empobrecimento identitário. E não haverá nenhum manifesto anti-Dantas, capaz de proclamar revolta, nem ninguém capaz de dizer que o rei vai nu. Não. Porque o situacionismo se vai suicidando, pela criação de incomensuráveis distâncias entre o país político e o país real. Isto é, Portugal vai ficando cada vez mais estreito, cada vez mais fechado sobre fantasmas, cada vez mais prisão, para quem sente a liberdade, para quem apenas tenta encontrar o bom senso. Mesmo aquilo que por outros já foi pensado tem que ser, por nós, repensado, para lhe acrescentarmos a mais valia do actualismo, o estampido de viver. Para lhe darmos a realidade das circunstâncias e o sopro do nosso próprio eu. Sem essa fluidez de vitalismo não há corrente de pensamento e apenas continuaremos a rastejar nesta unidimensionalidade acrítica e não criativa onde nos vamos estupidificando.