Nov 08

1.800 corta-unhas, 4.056 pares de meias e a grande causa nacional de luta contra o chico-espertismo, ou a relação da árvore com a floresta

Uma operação alfandegária de combate à contrafacção realizada a nível da UE levou à apreensão de mais de dois milhões de artigos falsificados oriundos da China, anunciou a Comissão Europeia. Com destino a Portugal foram apreendidos 1.800 corta-unhas, 1.965 relógios, 4.056 pares de meias e 312 toalhas, artigos transportados por via marítima. Ministros das Finanças da Zona Euro advertiram o BCE para não subir as taxas de juro, porque um agravamento seria prejudicial para a recuperação económica que se está a prever para a Europa. O Instituto do Consumidor ordenou a retirada do mercado nacional de dois carrinhos de bebé por se verificarem perigosos.

 

 

 

Vale mais ler o Zé Mateus: O que está a acontecer no laboratório francês (e que vai mudar radicalmente a França política e a polìtica francesa) é um aviso solene a todos os estados europeus e põe, de forma definitiva, o problema que há décadas anda a ser escamoteado pelo relativismo cultural, tanto da esquerda angélica como da direita cínica, da compatibilidade de culturas quando uma é aberta e outra irredutível. Há um relativismo cultural do século XX que agoniza estas noites nos subúrbios de Paris…

 

 

 

O Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu hoje a necessidade de fazer do ordenamento «correcto e sustentável» do país uma «grande causa nacional», combatendo, em simultâneo, o «chico-espertismo, o oportunismo e o lucro fácil». A Europa precisa de paz entre cristãos e muçulmanos para ser uma sociedade viável, declarou hoje, em Brasília, o Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres. “Se não existirem políticas activas extremamente eficazes e sem um grande envolvimento da sociedade, é fácil surgirem situações de desenraizamento, em que a pessoa não se sente ligada a nenhuma identidade, nem à sua comunidade de origem, nem à sua nova pátria”, sublinhou Guterres, alertando para o “complexo problema relacionado com a integração da segunda geração de imigrantes” que se vive na Europa.

Nov 08

Entradas de leão e más saídas nas arruaças

Leio que o Ministério Público (MP) abriu um inquérito a um conjunto de operações imobiliárias levadas a cabo por empresas do universo BCP em 2003, e que resultaram num reembolso de IVA à Pensões Gere no valor de 42 milhões de euros. O processo está a ser conduzido por Rosário Teixeira, o mesmo Procurador que dirige a mega-investigação do MP a suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais e que levou à realização de rusgas a quatro instituições financeiras, soube o Diário Económico. Noto que o espaço de revolta já não afecta apenas a comuna de Paris, para onde não se deslocou imediatamente o candidato presidencial Francisco Anacleto Louçã, com as suas tropas do “SOS racismo”, mas todo o espaço de influência directa do centro do pretenso super-Estado europeu, onde é marcante a crise da segurança, enquanto nas periferias lusitanas do mesmo apenas nos chegou a crise da lei e a crise do imposto, dado que os bailados da pré-campanha presidencial só produzem entrevistas de Constança da Cunha e Sá à politiqueirice dos candidatos.

 

 

 

 

 

É por isso que prefiro regressar ao ritmo da tertúlia blogueira, onde ainda não emergiu o espírito bissectriz de D. José Policarpo, dizendo que tanto têm razão Zezinha Avilez Nogueira Pinto como Zé Barata Moura, o da “Joana come a papa” e da edição crítica de “Das Kapital” de Karl Marx que foi editada pela Editora Progresso da URSS, mesmo em cima do ano 1989. Por cá, apenas vamos assistindo à arruada de Soares na calçada de Coimbra e à má sina de Cavaco, por ser apoiado pelos banqueiros, nessa manobra que tenta obrigar o Zé, mas Povinho, a ter que escolher entre o Mário e o Aníbal. E a tudo vamos assistindo, mais impávidos do que serenos, até porque o simbólico apelo do poeta Manel ao patriótico, se tem autenticidade, na bota do estilo e do som épico, pode não corresponder à perdigota dos honrados apoiantes, também eles estrelas cadentes de um situacionismo quase intelectuário, dado os Eduardo Prado Coelho pouca diferença fazem dos Rui Alarcão e dos Mário Júlio das gravatas Almeida Costa.

 

 

 

 

 

A Sarkosy não chega a retórica da ordem republicana que perdeu a ética, como se nota nas fogueiras que tanto afectam os carros de boa marca que não têm garagem privativa, como os camiões dos patos bravos lusitanos que começaram como simples “maçons”, casados com a “concièrge” da “mala de cartão”, mas que já estão saudosos dos festivais de acordeão de Vila Verde. Esta Europa da locomotiva dos Chirac e Schroeder, todos com cara de plástico, está definitivamente de pantanas, porque se perdeu num pantanoso jogo de hierarquia de potências e saltos em frente constitucionais.

 

 

 

 

 

Voltando às nossas presidenciais, apenas tenho de notar que não anda por aí nenhuma candidatura semelhante à de Norton de Matos, representando a grande unidade reviralhista contra o reino cadaveroso salazarento. Os tempos que passam são cada vez mais parecidos ao crepúsculo da monarquia liberal, onde algumas das principais alternativas que nos são oferecidas apenas pretendem salvar os dominantes partidos sistémicos e a rotina do rotativismo. E eu bem gostaria que o velho leão que é Soares não se vestisse de Zé Luciano, armado em velha raposa dos progressistas e que tio Aníbal não fosse ao armário da naftalina tirar o manequim tecnocrático de António Maria, com muito macadame, fontanários e princípios de subsidiocracia, confundindo a eurofinança e a geofinança com os amanhãs que cantam. Apenas tenho saudades do velho Norton a elogiar postumamente o seu adversário Paiva Couceiro, tão anti-salazaristas e tão liberais que até se uniram no sonho patriótico da resistência contra o falso patriotismo das traduções em calão do Estado Novo que logo os condenou ao exílio.

 

 

 

 

 

Há por aí muitos vestígios de um devorismo possidente que, depois de se delamber com os restos de lentilhas da pós-revolução, ainda tem esperança num revanchismo de bordão que venha alcandorar algumas vaidades à comenda da gestão das cunhas e do tráfego de influências, com muitos colarinhos brancos e evasões fiscais. E não me parece que cheguem as ternurentas jantaradas da velha guarda coimbrã e algumas entradas de leão com más saídas nas sondagens. É preciso dar voz ao povo, sem ser apenas nas arruadas e nos discursos de mistura, como o que segue, entrameando o paleio dos três mais:

 

 

O meu compromisso com os Portugueses, no caso de merecer o seu apoio e ser eleito Presidente da República, emana da minha visão de futuro e das minhas ambições para Portugal. Candidato-me a Presidente da República por considerar que Portugal atravessa uma crise complexa e prolongada e por ter a consciência de que posso – tenho o dever – de dar um sério contributo para ajudar a ultrapassá-la. Candidato-me por um Portugal de todos. Não apenas dos donos dos aparelhos, sejam eles económicos, mediáticos ou políticos. Não há donos do voto nem da consciência dos homens e das mulheres livres de Portugal. Candidato-me por um Portugal que se diga no plural, uma Pátria que sois vós, uma Pátria que somos nós, um Portugal de todos.

Nov 08

A escravidão dos partidos, a veneração da rotina, o pedantismo das sciencias …

Tendo recebido algumas referências à minha capacidade ficcional sobre o passado fim de semana, aqui vos deixo algumas provas fotográficas da real labuta levada a cabo por um conjunto de portuguesas e portugueses que decidiram levar à prática um programa de luta contra a desertificação do país interior, assumindo a subida ao poleiro em cima de regeneradas oliveiras. Daí que acrescente algumas coisas escritas em 1877:

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d’este grande universo, e da adoração de mim mesmo (invocação de Proudhon, com se iniciam “As Farpas”, no dia seguinte à morte de Herculano, o azeiteiro, em 14 de Setembro de 1877, para uso dos presentes gestores da partidocracia e das candidaturas presidenciais).
Porque também hoje vivemos o vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida, traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas, aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a divina verdade.

Porque a isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico, comprometteu o destino mental d’uma geração inteira. Pelo intenso poder das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu tempo. A ausencia d’essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi uma catastrophe para a geração moderna.
Porque tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d’esse alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral. Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d’agoa.

Porque a imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e patifes, com os seus pés miseraveis.

 

Porque a politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a cada um d’elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez d’entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

Porque a arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional que a devia prender estreitamente á grande alma popular. A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

E se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado importantemente o nosso estado social. Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes, poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos—o partido conservador e o partido revolucionario,—de cuja controversia depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.

E na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela convivencia e pela cultura da historia. Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d’um tão inteiro prestigio e d’uma tão completa e absoluta auctoridade. Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do sentimento nacional.

Nov 08

1.800 corta-unhas, 4.056 pares de meias e a grande causa nacional de luta contra o chico-espertismo, ou a relação da árvore com a floresta

Uma operação alfandegária de combate à contrafacção realizada a nível da UE levou à apreensão de mais de dois milhões de artigos falsificados oriundos da China, anunciou a Comissão Europeia. Com destino a Portugal foram apreendidos 1.800 corta-unhas, 1.965 relógios, 4.056 pares de meias e 312 toalhas, artigos transportados por via marítima. Ministros das Finanças da Zona Euro advertiram o BCE para não subir as taxas de juro, porque um agravamento seria prejudicial para a recuperação económica que se está a prever para a Europa. O Instituto do Consumidor ordenou a retirada do mercado nacional de dois carrinhos de bebé por se verificarem perigosos.

 

Vale mais ler o Zé Mateus: O que está a acontecer no laboratório francês (e que vai mudar radicalmente a França política e a polìtica francesa) é um aviso solene a todos os estados europeus e põe, de forma definitiva, o problema que há décadas anda a ser escamoteado pelo relativismo cultural, tanto da esquerda angélica como da direita cínica, da compatibilidade de culturas quando uma é aberta e outra irredutível. Há um relativismo cultural do século XX que agoniza estas noites nos subúrbios de Paris…

 

O Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu hoje a necessidade de fazer do ordenamento «correcto e sustentável» do país uma «grande causa nacional», combatendo, em simultâneo, o «chico-espertismo, o oportunismo e o lucro fácil». A Europa precisa de paz entre cristãos e muçulmanos para ser uma sociedade viável, declarou hoje, em Brasília, o Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres. “Se não existirem políticas activas extremamente eficazes e sem um grande envolvimento da sociedade, é fácil surgirem situações de desenraizamento, em que a pessoa não se sente ligada a nenhuma identidade, nem à sua comunidade de origem, nem à sua nova pátria”, sublinhou Guterres, alertando para o “complexo problema relacionado com a integração da segunda geração de imigrantes” que se vive na Europa.