Dez 06

Esta hipocrisia que nos invadiu por dentro…

Todos os regimes portugueses, quando começam a envelhecer e a apodrecer por dentro, tratam de manter, muito orgulhosamente sós, certos lugares de reservado direito de admissão no primeiro banco de um qualquer cerimonial com transmissão no telejornal, conforme as definições constantes do livro de estilo de um qualquer curso de formação acelerada, destinado ao aperfeiçoamento oligárquico dos funcionários das relações públicas e do protocolo do estadão. Por isso é que por aí abunda inúmera literatura de justificação que procura perpetuar o hierarquismo balofo do “jet set”. Ao mesmo tempo, a gente graudamente engordada pelos aparelhos do sistema, bem instalada na garupa do cavalo do poder, vai alimentando uma ficção quase telenovelesca sobre as mudanças de regime, onde até não falta a própria visão aristocretina de certo elitismo de gente “bem” de extrema-esquerda que, continuando a circular pelas capitaleiras alfurjas do “radical-chic”, não deixa de procurar implantação entre os miméticos capitaleiros portuenses, mesmo quando recorre ao exótico de uma qualquer pronúncia do Norte, ou ao sotaque lentícola de um qualquer profe coimbrês. Poucos têm a coragem de denunciar esta hipocrisia instalada que nos invadiu por dentro, muito especialmente as habituais posturas da arrogância intelectualóide, como se o país que pensa tivesse todo ele que usar as palas que costumavam marcar a pose dos que na minha terra se assumiam como os senhores doutores, os tais asininos carregados de livros que por aí escoiceiam. Como se a direita fossem os filhos-famílais da gente fidalgota que costuma dar muitas voltas pela estranja à procura de um qualquer canudo que os superiorize aos plebeus que se ficam pelas pobres escolas públicas lusitanas. Por isso é que hoje gazetei a um desses cerimoniais do estadão, onde costumam espanejar o veludo vistoso das honrarias os muitos manequins da praça, trocando a conversa da diplomacia do croquete com essas majestades que, de vez em quando, descem de suas alturas para trocar dois dedos de conversa com as notabilidades das nossas cortes institucionais, que se se costumam distanciar da planície unidimensional onde continua a diluir-se o Zé Povinho, dos bate-palmas e desempregados.

Dez 06

Tecnocracia, subsidiocracia, empregomania, futebolítica, bufaria e teatrocracia. Viva o pão e o circo!

Fui à SIC-Notícias fazer uma leitura dos jornais do dia, neste peso diário de hiperinformação que é emitida em Portugal, onde publicamos. quotidianamente, quase mais do que os caracteres das obras completas de Fernando Pessoa. Aliás, se um extra-terrestre aqui aterrasse repararia que continuamos a viver num Estado-Espectáculo onde o circo domina o pão e onde a política continua a ser usurpada pela tecnocracia, pela subsidiocracia, pela empregomania, pela futebolítica, pela bufaria e pela sondajocracia teatrocrática. Comecei por salientar a nova referente à abolição dos exames de português e de filosofia, como disciplinas obrigatórias, no 12º ano, o que reflecte a terceiro-mundialização crescente de quem nos quer trasformar em tradutores em calão do “software” alheio, renunciando à autonomia cultural dos produtores de ideias, dado que os responsáveis educativos parecem preferir o “saber-fazer” da tecnologia à sabedoria, num programa que, conforme a moda avalióloga, pretende transformar as universidades em meras escolas politécnicas e onde as ciências humanas são uma espécie de flor na lapela intelectualóide, para uso dos ajudantes das grandes potências que culturalmente nos colonizam de certas más empresas e empresários lusitanos que ameçaam serem eles a definir quais são as boas universidades. E o país-matriz da quinta língua do mundo que também é o principal veículo comunicacional do hemisfério sul, parece contente em ser provinciano, na sequência do processo de extinção das velhas Faculdades de Letras… Não reparámos como, ao termo-nos submetido à PAC conveniente para o eixo franco-alemão, aceitámos liquidar a nossa agricultura, porque a entendemos como mera actividade económica, quando ela devia ser assumida como questão global de memória pátria, de povoamento e de luta contra a desertificação do país interior. A quarta leitura que fiz tem a ver com a futebolítica e com a existência de tantos jornais diários sobre a matéria e que constituem um espelho do país. Uma consequência do tal espectáculo circense que também passa pelas telenovelas e pelos “reality shows”. Ainda há dias, verificava que o Marítimo, amplamente subsidiado pelo Estado para crescimento do desporto nacional, apresentou-se com dez em onze jogadores estrangeiros, no chamado campeonato nacional. A quinta leitura preparada acabou por não ser comunicada, visando a transcrição das escutas do processo da Casa Pia, que teve como veículo um diário dito sensacionalista. Assim se confirma como a bufaria inquisitorial e pidesca continua em forma. Porque, como se dizia numa dessas escutas, “quem manda é o verdadeiro poder”. Mal acabou o debate, um velho jornalista meu amigo telefonou-me e disse que se eu continuasse a dizer destas coisas, nunca mais me convidiriam. Por mim, prefiro que a voz me doa.

Dez 06

Sobre a alegre cavaqueira…

Pediram-me, do semanário “O Independente”, que analisasse o primeiro confronto das presidenciais:

 

Pontos negativos comuns:

 

Não parecia um debate, mas uma dupla entrevista, uma espécie de jogo de amizade entre as velhas glórias do Águeda e do Boliqueime. Uma conversa morna, chata, comprida e muito repetitiva de “slogans” e anteriores propostas dos candidatos.

 

Nenhum deles denunciou o afastamento de candidatos fora do sistema aceitando as regras do jogo do critério jornalístico dos donos do poder comunicacional

 

Pontos negativos de Cavaco:

 

Abusou nas meias palavras e mostrou uma profunda tristeza, sem ter esboçado um único sorriso, apesar de ter dito algumas vezes que cometeu erros no passado

 

 

Cedência ao economês da linguagem e com o consequente hermetismo que, contudo não o impediu de entrar em contradição, ao alinhar na crítica ao europeísmo acrítico

 

 

Pontos negativos de Alegre:

 

Manifestou uma certa demagogia esquerdista em matéria de política internacional, sendo vago na questão da guerra do Iraque e na denúncia do fantasma neoliberal da construção europeia e da globalização

 

Não conseguiu denunciar os erros económicos e financeiros do discurso de Cavaco e da memória do respectivo governo

 

 

 

Pontos positivos comuns:

 

Os candidatos foram coerentes face aos respectivos manifestos, assumindo ideias sólidas, e conseguiram cumprir o que previamente ensaiaram para comunicarem ao povo, conseguindo o respeito e a elevação democráticas e proclamando a independência nacional face a certos exageros de certo europeísmo vindo de fora

 

 

Pontos positivos de Cavaco:

 

Recuperou a memória boa do desenvolvimentismo da respectiva era governativa, aquilo que qualificou como “o meu tempo”, mas conseguindo fugir ao exagero justificador

 

Fugiu das acusações de intervencionismo, anunciando-se como força de desbloqueio que chamará os partidos da oposição e apoiando os governos, dando o exemplo da decisão sobre a Ota, no caso de Sócrates

 

 

 

Pontos positivos de Alegre:

 

Lucidez na crítica, fluidez sem agressividade, mas com desenvoltura combativa e frases lapidares

 

Defesa de uma ideia de pensamento nacional como pensamento estratégico, em nome da tríade “pátria, liberdade e democracia”, contra o seguidismo acrítico face à chamada constituição europeia em que Cavaco se empenhou