Dez 19

É tempo de Natal

É tempo de Natal, quando a chegada do solstício nos dá sinal da mudança do tempo, do novo ano que nos poderá trazer viragens de esperança na procura do tempo que apetece, quando efectivamente apetece olhar dentro de mim e continuar a viver assim, na felicidade de viver, diante de um tempo que devo sentir e aprisionar sem que as teias da devassa me sufoquem e angustiem. Porque sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo, sabe tão bem suster a respiração e viver o estar feliz, com tanta gente à minha beira. Assim, olhando os olhos do sol e sentindo o azul da distância, para me poder navegar em verso. Que os outros dias e outros anos possam chegar assim dentro de mim. Porque há períodos em que devo fazer uma pausa na análise comportamental da politiqueirice lusitana, quando, cumprindo o ritual de começar a escrever, de escrever por ter mesmo de escrever, por ter o prazer de escrever-me, sentir a maneira como a caneta vai levando letras ao papel, comparando-as com outras letras da mesma caneta, noutros dias sentidas e desenhadas. Que assim compreendeo porque, sendo o mesmo, através das mesmas mãos, vou variando dentro de mim, perante novas circunstâncias. Porque todos os dias procuro na palavra aquela voz interior que preciso para poder expressar quem sempre fui, diante das novas circunstâncias que os novos tempos me trazem. Porque todos os dias também os dias variam de nuvens, de sol, de calor e frio. Porque a mesma janela aberta para a mesma rua me vai trazendos momentos diferentes da mesma cidade, pedaços de um movimento que, dia a dia, se não repete. Na gente que passa, no miúdo que grita sua alegria, na música que se vai ouvindo na vizinhança, nas novas flores que a gente que passa vai trazendo em suas roupas. Até voltei a sentir o prazer de voltar a olhar, do miradouro, o rio que nos dá mar, o sabor da raia redonda, do gelado de azeite, da sopa de abóbora, da sala de almoçar no alto da colina. Sobretudo, uma cidade a que posso chamar nossa, plena de um sol seco de inverno, e de um frio que dá às casas as dimensões da imaginação vivida. Sobretudo, nesta Lisboa inteira, descendo para a distância, nesta cidade plena de calor e luz, ao fim da tarde.

Dez 19

Hoje, não, amanhã será!

As notícias que fazem as primeiras páginas de Moscovo, Nova Iorque, Londres, São Paulo ou Buenos Aires pouco têm a ver com os desabafos serôdios dos nossos pretensos pais da pátria à procura do trono presidencial, como se isso fosse uma medalha de honra por feitos de um passado que já não há, nessa ilusão de medirmos a eficácia de uma pretérita governança pelas fitas cortadas nas inaugurações do estilo. Aliás, os dados que marcam o ritmo das nossas presidenciais já foram quase todos lançados e grande parte do eleitorado parece reconhecer como inutilidade essa escolha do futuro inquilino do Paço de Belém. Porque qualquer um dos principais presidenciáveis não passa de simples bissectriz do mesmo paralelograma de forças que nos ultrapassa. É por isso que os nossos candidatos não perdem tempo em discussões bizantinas sobre as banalidades da actual encruzilhada europeia, ou sobre os dramas da política atlântica ou da globalização, reconhecendo o nefelibatismo de qualquer atitude portuguesa face aos destinos do mundo. Todos aceitam que fomos condenados a uma escolha que nos transformou em simples acompanhante do pelotão das potências secundárias, onde o máximo de independência a que temos direito é a de sermos bons alunos na gestão das nossas dependências. Dependemos de algum jeito sindicalista no tabuleiro negocial da grande barganha das cimeiras europeias e, quando muito, podemos dar alguns pezinhos de dança com a superpotência que nos resta, junto da qual sempre podemos reivindicar alguma especificidade, invocando certas páginas originais da nossa história, nomeadamente as relações que pudermos manter com o Brasil e Angola. Porque o sonho de uma CPLP, como espaço transversal de diálogo no contexto do multilateralismo depende fundamentalmente da evolução que venham a ter espaços de integração regional, como a União Europeia ou o Mercosul. A política internacional está cada vez mais neofeudalizada e pouco tem a ver com ilusão dos campeonatos mundiais de futebol. É por isso que os grandes semanários de psicanálise da nossa classe política preferem falar de coisas bem menos nefelibatas, como o processo de fusão de dois grandes escritórios de advocacia, onde se recrutam consultores das principais empresas nacionais e distintos fazedores de opinião. Aliás, é destes donos do poder que vêm o próprio culturalmente correcto dos pretensos Nobel cá da parvónia, a que dão o nome de um escritor que nunca teve grandes prémios em vida nem a própria obra publicada, mas que agora tem casa-museu e director da dita, com acesso ao júri que se orna com o nome de quem era marginal quando estava vivo. O problema nunca esteve nos nomes nomeados e premiados ou nos próprios jurados, mas naqueles que escolhem, ou podem escolher, estes últimos, sem os quais ninguém pode situar-se adequadamente na rede de controlo do processo de troca de bens, serviços, protecções e elogios. A liberdade não é uma abstracção geométrica, mas a mera consequência de uma pluralidade de indivíduos autónomos. É uma vivência feita comunidade que só existe quando os homens livres são autores e não meros auditores, quando estes preferem a servidão à imprevisível revolta dos escravos. Hoje, não, amanhã será!

Dez 19

Servidão, bons alunos, gestores da dependência, escritórios de advogados e prémios ditos Pessoa

As notícias que fazem as primeiras páginas de Moscovo, Nova Iorque, Londres, São Paulo ou Buenos Aires pouco têm a ver com os desabafos serôdios dos nossos pretensos pais da pátria à procura do trono presidencial, como se isso fosse uma medalha de honra por feitos de um passado que já não há, nessa ilusão de medirmos a eficácia de uma pretérita governança pelas fitas cortadas nas inaugurações do estilo.

 

Aliás, os dados que marcam o ritmo das nossas presidenciais já foram quase todos lançados e grande parte do eleitorado parece reconhecer como inutilidade essa escolha do futuro inquilino do Paço de Belém. Porque qualquer um dos principais presidenciáveis não passa de simples bissectriz do mesmo paralelograma de forças que nos ultrapassa.

 

 

 

É por isso que os nossos candidatos não perdem tempo em discussões bizantinas sobre as banalidades da actual encruzilhada europeia, ou sobre os dramas da política atlântica ou da globalização, reconhecendo o nefelibatismo de qualquer atitude portuguesa face aos destinos do mundo.

 

Todos aceitam que fomos condenados a uma escolha que nos transformou em simples acompanhante do pelotão das potências secundárias, onde o máximo de independência a que temos direito é a de sermos bons alunos na gestão das nossas dependências.

 

 

 

Dependemos de algum jeito sindicalista no tabuleiro negocial da grande barganha das cimeiras europeias e, quando muito, podemos dar alguns pezinhos de dança com a superpotência que nos resta, junto da qual sempre podemos reivindicar alguma especificidade, invocando certas páginas originais da nossa história, nomeadamente as relações que pudermos manter com o Brasil e Angola.

 

Porque o sonho de uma CPLP, como espaço transversal de diálogo no contexto do multilateralismo depende fundamentalmente da evolução que venham a ter espaços de integração regional, como a União Europeia ou o Mercosul. A política internacional está cada vez mais neofeudalizada e pouco tem a ver com ilusão dos campeonatos mundiais de futebol.

 

 

 

É por isso que os grandes semanários de psicanálise da nossa classe política preferem falar de coisas bem menos nefelibatas, como o processo de fusão de dois grandes escritórios de advocacia, onde se recrutam consultores das principais empresas nacionais e distintos fazedores de opinião. Aliás, é destes donos do poder que vêm o próprio culturalmente correcto dos pretensos Nobel cá da parvónia, a que dão o nome de um escritor que nunca teve grandes prémios em vida nem a própria obra publicada, mas que agora tem casa-museu e director da dita, com acesso ao júri que se orna com o nome de quem era marginal quando estava vivo.

 

O problema nunca esteve nos nomes nomeados e premiados ou nos próprios jurados, mas naqueles que escolhem, ou podem escolher, estes últimos, sem os quais ninguém pode situar-se adequadamente na rede de controlo do processo de troca de bens, serviços, protecções e elogios.

 

 

 

A liberdade não é uma abstracção geométrica, mas a mera consequência de uma pluralidade de indivíduos autónomos. É uma vivência feita comunidade que só existe quando os homens livres são autores e não meros auditores, quando estes preferem a servidão à imprevisível revolta dos escravos. Hoje, não, amanhã será!

Dez 19

Lula, Chavez, Fidel e Morales…a luta continua!

Afinal, Lula da Silva é um moderado e Hugo Chavez, uma liberalíssima criatura. Evo Morales parece assumir-se como o próximo presidente da Bolívia, enquanto Fidel de Castro permanece. Mais uma dor de cabeça para George W. Bush e mais um estímulo para as nossas queridas desavenças ideológicas. Leiam-se, com alguma humildade antropológica, e sem os temores dos civilizados neoliberais, as reivindicações de mais um provável presidente sul-americano:

 

Nosotros, Aymaras y Quechuas, naciones originarias de los Andes, hemos sobrevivido los azotes del hombre blanco hasta el día de hoy gracias a nuestra hoja de coca. Desde el momento en que llegaron a nuestras tierras, los blancos han querido controlar nuestra hoja para su enriquecimiento personal. Siendo la coca uno de nuestros mayores tesoros, han abusado de ella aquí y ahora abusan de ella por el mundo entero. Como no han podido controlarla, están decididos a destruirla.

 

Ellos han catalogado nuestra hoja sagrada como una droga, la han condenado a ser prohibida y eliminada obligatoriamente bajo convenciones de la O.N.U. sobre drogas. Con estas convenciones, las Naciones Unidas han ofendido y traicionado las naciones Aymara y Quechua.

 

Bajo el manto de estas convenciones y después de empobrecer nuestro pueblo con sus políticas neoliberales, el gobierno de los EE.UU., primer enemigo de los Indios, ha utilizado sus dólares para sobornar a los oficiales de Bolivia, corromper sus instituciones y enfrentar a los demás Bolivianos contra nosotros. Ultimamente, la embajada de los EE.UU. en La Paz ha puesto en pie una fuerza mercenaria con órdenes de eliminar la coca y a los Indios que la defienden.

 

¡La coca no es una droga!

Hay que acabar con esta mentira. Ha llegado el momento para acabar con la amenaza de aniquilación de la coca y de nuestro modo de convivencia comunitaria. La hoja de coca nos ha sostenido a través de todas las adversidades hasta el día de hoy; y lucharemos con todo nuestro poder y con ayuda de ella, para parar los desalmados propósitos del hombre blanco.

 

Como otras plantas, la coca es una medicina, una planta sagrada. Gracias a la coca, hemos soportado innumerables sufrimientos causados por la infame guerra de los blancos contra las drogas.

Dez 19

Sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo

É tempo de Natal, quando a chegada do solstício nos dá sinal da mudança do tempo, do novo ano que nos poderá trazer viragens de esperança na procura do tempo que apetece, quando efectivamente apetece olhar dentro de mim e continuar a viver assim, na felicidade de viver, diante de um tempo que devo sentir e aprisionar sem que as teias da devassa me sufoquem e angustiem. Porque sabe tão bem sentir o silêncio de estar vivo, sabe tão bem suster a respiração e viver o estar feliz, com tanta gente à minha beira. Assim, olhando os olhos do sol e sentindo o azul da distância, para me poder navegar em verso. Que os outros dias e outros anos possam chegar assim dentro de mim.

 

 

 

Porque há períodos em que devo fazer uma pausa na análise comportamental da politiqueirice lusitana, quando, cumprindo o ritual de começar a escrever, de escrever por ter mesmo de escrever, por ter o prazer de escrever-me, sentir a maneira como a caneta vai levando letras ao papel, comparando-as com outras letras da mesma caneta, noutros dias sentidas e desenhadas. Que assim compreendeo porque, sendo o mesmo, através das mesmas mãos, vou variando dentro de mim, perante novas circunstâncias.

 

 

 

Porque todos os dias procuro na palavra aquela voz interior que preciso para poder expressar quem sempre fui, diante das novas circunstâncias que os novos tempos me trazem. Porque todos os dias também os dias variam de nuvens, de sol, de calor e frio. Porque a mesma janela aberta para a mesma rua me vai trazendos momentos diferentes da mesma cidade, pedaços de um movimento que, dia a dia, se não repete. Na gente que passa, no miúdo que grita sua alegria, na música que se vai ouvindo na vizinhança, nas novas flores que a gente que passa vai trazendo em suas roupas.

 

 

 

Até voltei a sentir o prazer de voltar a olhar, do miradouro, o rio que nos dá mar, o sabor da raia redonda, do gelado de azeite, da sopa de abóbora, da sala de almoçar no alto da colina. Sobretudo, uma cidade a que posso chamar nossa, plena de um sol seco de inverno, e de um frio que dá às casas as dimensões da imaginação vivida. Sobretudo, nesta Lisboa inteira, descendo para a distância, nesta cidade plena de calor e luz, ao fim da tarde.