Dez 21

a repetição do duelo presidencialicida

E lá vamos tendo que ouvir a repetição do duelo presidencialicida entre aqueles que sobre nós exerceram, durante uma década, o supremo poder da coabitação, esse espectacular confronto entre os dois irmãos-inimigos, representantes, em Portugal, das duas principais forças partidárias multinacionais da Europa e que geraram e alimentaram o presente situacionismo. Porque foi de tal coabitação que nasceram as grandezas e misérias do presente sistema. Ambos estão a disputar o grande oceano daquele milhão de eleitores flutuantes desse totalitarismo doce do centrão sociológico e do consequente Bloco Central de interesses que, estando a ganhar ou a não perder, nunca admitiu o risco da mudança, nomeadamente daquelas reformas estruturais que nos poderiam reconduzir à aventura de um caminho feito à imagem e semelhança do português à solta. Ambos são mais passado social-democrata e estatista do que de um necessário futuro liberal e comunitário. Ambos são uma espécie de garantia da continuidade partidocrática e banco-burocrática, constituindo um adequado seguro de vida para a direita dos interesses e a esquerda do cultural e politicamente correcto. Nenhum deles poderá assumir a bandeira do humanismo libertacionista ou do ardor vanguardista da revolução, dado que apenas nos oferecem o mais do mesmo, com dois estilos que são dois homens e, consequentemente, duas personalizações do poder. Dois feitios diferentes para a mesma moeda gasta pela usura do tempo. De um lado, uma saudável Salazar ização democrática. Do outro, o revigoramento de um republicanismo laicíssimo, mas tolerante. Ambos do agradável daquela grande casta burguesa, sempre moldável aos sinais da moda, para que tudo continue como dantes, com o quartel-general longe de Abrantes. É entre os dois passados que, infelizmente, estamos obrigados a escolher, para que se mantenha a lei do rotativismo do presente situacionismo sistémico, para que o eleitorado finja diversidade só porque não põe os ovos no mesmo cesto. Venha o povo e escolha as respostas que a ditadura dos perguntadores lhe oferece.

Dez 21

Os velhos irmãos-inimigos e o totalitarismo doce do centrão

E lá vamos tendo que ouvir a repetição do duelo presidencialicida entre aqueles que sobre nós exerceram, durante uma década, o supremo poder da coabitação, esse espectacular confronto entre os dois irmãos-inimigos, representantes, em Portugal, das duas principais forças partidárias multinacionais da Europa e que geraram e alimentaram o presente situacionismo. Porque foi de tal coabitação que nasceram as grandezas e misérias do presente sistema.

 

Ambos estão a disputar o grande oceano daquele milhão de eleitores flutuantes desse totalitarismo doce do centrão sociológico e do consequente Bloco Central de interesses que, estando a ganhar ou a não perder, nunca admitiu o risco da mudança, nomeadamente daquelas reformas estruturais que nos poderiam reconduzir à aventura de um caminho feito à imagem e semelhança do português à solta.

 

 

 

Ambos são mais passado social-democrata e estatista do que de um necessário futuro liberal e comunitário. Ambos são uma espécie de garantia da continuidade partidocrática e banco-burocrática, constituindo um adequado seguro de vida para a direita dos interesses e a esquerda do cultural e politicamente correcto.

 

 

 

Nenhum deles poderá assumir a bandeira do humanismo libertacionista ou do ardor vanguardista da revolução, dado que apenas nos oferecem o mais do mesmo, com dois estilos que são dois homens e, consequentemente, duas personalizações do poder. Dois feitios diferentes para a mesma moeda gasta pela usura do tempo.

 

 

 

De um lado, uma saudável salazarização democrática. Do outro, o revigoramento de um republicanismo laicíssimo, mas tolerante. Ambos do agradável daquela grande casta burguesa, sempre moldável aos sinais da moda, para que tudo continue como dantes, com o quartel-general longe de Abrantes.

 

É entre os dois passados que, infelizmente, estamos obrigados a escolher, para que se mantenha a lei do rotativismo do presente situacionismo sistémico, para que o eleitorado finja diversidade só porque não põe os ovos no mesmo cesto.

 

 

 

Afinal, depois de uma década de interregno entre o filho soarista, chamado Guterres, e os filhos cavaquistas, chamados Barroso e Santana, retomamos a década de 1985-1995, mas já sem Delors, com Guterres na ONU, Barroso na UE e Santana a andar por aí, arrependido de ter largado os paços do concelho de Lisboa, sem antes se candidatar a Belém. Venha o povo e escolha as respostas que a ditadura dos perguntadores lhe oferece.

Dez 21

Quem quer que viesse à rede tinha que ser “fish”…

Mais uma vez me pediram, do semanário “O Independente” que comentasse o debate entre Soares e Cavaco:

 

O grande confronto histórico entre o “acho que não” e o “acho que sim”, onde Soares não perdeu na economia e Cavaco não perdeu na macropolítica, visava a conquista do tal um milhão de flutuantes que ora votam no PS, ora optam pelo PSD, dando lastro àquilo a que chamam estabilidade, a âncora social deste centrão mole e difuse que nos faz um país de reformados e de aposentadorias, marcado por regras do jogo de que se aproveita o grupo que parte e reparte, ficando sempre com a melhor parte .

 

De um lado a austeridade discursiva do mito da mercearia ordenadamente salvífica, dita social-democracia, filiada nos conservadores europeus, e, do outro, o avozinho porreiraço que clamando por socialismo não incomoda os donos do poder, dado que tanto vai a Porto Alegre como a Davos.

 

 

 

Porque, entre os dois passados, quem quer que venha à rede será sempre “fish”, apesar de um ameaçar com uma década de presença tutelar e outro, com um mero interregno de um lustro, enquanto capítulo final de umas gloriosas memórias. Em qualquer dos casos, os dois são os irmãos-inimigos que coabitaram nesta casa comum entre 1985 e 1995, num país que passou, de cabeça de um império colonial uno, indivisível, mas com pés de barro, a simples potência secundária da balança da Europa.

 

Paradoxalmente, era o primeiro confronto directo entre duas personalidades que só se tinham defrontado através de procuradores, em eleições legislativas e presidenciais, com Soares no seu último combate histórico, depois de uma sucessão de derrotas políticas próprias e da família, desde que Mário não ascendeu a presidente do Parlamento Europeu e o filho João perdeu em Lisboa, Sintra e na liderança do PS, sempre em regime de bela solidariedade de clã.

 

 

 

Ficará para sempre a simpatia demonstrada pelo velho combatente, sempre em activo revisionismo histórico, contra a agilidade narcísica de um menos velho, que não mais novo, também em regime de autobiografia, à procura do carimbo de humanista, mas com os dois a confundirem as meras escolhas eleitorais de uma conjuntura com um “julgamento” moral e da história, face a um povão talvez pouco preocupado em que eles explicassem as respectivas ideias e descrevessem as histórias de vida. Porque todos conhecem os detalhes das respectivas telenovelas, desde o tempo da televisão a preto e branco.

 

 

 

Pontos Positivos:

 

Aníbal Cavaco Silva

 

Táctica flexível, usada por certas artes marciais que, aproveitando a inércia das circunstâncias favoráveis, deixa o adversário desferir uma avalanche de ataques, aguentando os golpes, apenas para o contendor perder as forças e assim ser reconhecido como um superior, nesse “tenho de me conter para não ser deselegante”.

 

Conseguiu mostrar emoção e revelou alguma humildade quando não disse que podia saber mais do que Soares, dando assim a entender que este era um “fala-barato”, mas abusando da retórica dos “slogans” propagandísticos, do tipo “sou um social-democrata preocupado com os desfavorecidos”

 

Mário Soares:

 

Estratégia firme, embora com alguma petulância, visando fazer uma adequada teoria geral do poder do Presidente, baseada na experiência e no bom senso e visando aquilo que definiu como a concórdia nacional e a não divisão dos portugueses, em momentos de anteriores crises financeiras, sociais e políticas.

 

Conseguiu ser sublime na arte da memória e das grandes sínteses históricas do nosso passado recente, demonstrando, pela recuperação dos afectos conseguida, candidatou-se a arquivista-mor do reino, tanto por ser o grão-mestre dos pacholas conversadores, como o grande lutador que tem a coragem de, perante a ameaça de naufrágio, fazer, das fraquezas, forças

 

 

 

 

Pontos Negativos

 

Aníbal Cavaco Silva:

 

Continuou a ter alguma confusão quanto ao perfil dos poderes presidenciais, nomeadamente quanto a políticas económicas e de concertação social, tentando mostrar que era bom aluno de direito constitucional, com a constante citação de mestres da arte, apoiantes do soarismo.

 

A agilidade mental demonstrada não conseguiu disfarçar o narcisismo e o exagero de “marketing” quanto à preparação do debate, onde, em vários momentos se assumiu como uma espécie de “action man” em ritmo de “picareta falante”, na linha de Guterres e de Sócrates.

 

Mário Soares:

 

Foi longe demais na tentativa de caracterização caracteriológica do adversário, assumindo o debate como uma espécie de passagem do Rubicão, depois da qual declararia o “vi, vim e venci”, mas onde poderá ter apenas deambulado por uma espécie de ponte do tédio, sobre as águas do Lethes.

 

Na segunda parte do debate, perdeu o controlo do meio campo e continuou agarrado à grande área do adversário, ficando várias vezes em “off side”, com algum mau-gosto em certas piruetas violadoras das regras do jogo.