Dez 28

Nesta semana de intervalo, antes de novo ano chegar

Nesta semana de intervalo, antes de novo ano chegar, é tempo de volver sobre mim mesmo, peregrinando as palavras todas que me dão procura e aproveitando estes dias de silêncio onde me deito, à beira de quem sou e de quem sonho. É assim que me vou perdendo e que nos outros me difundo, fazendo balanço dos dias todos donde venho, para onde vou. Que quando me penso e deles faço memória, dou o nome de flores a signos antigos que me marcaram.  E às vezes vou escrevendo o poema que me acontece, mas que não é o poema que me apetece. Quando o tempo devia ser um rosto de vento que me desse esse sinal de vento para navegar, um inteiro dia que semeasse o sonho dum lugar de exílio que me desse a coragem da paz. E a caneta me sustenta, essa âncora da memória que me dá a própria história, nas muitas noites que me dão a busca, onde quem sou se volve em sonho.  Não, não sou alheamento desses pedaços de quem sou, dessa casa de pedras desencontradas, numa rua de betão sem calçada, dessas placas de azulejo que me dão nome e onde havia uma estrada que atravessava um rio e uma praia que a ventania situava, com imensa gente sentada na esplanada de cimento armado, diante de uma barra que nos dava partida. Porque basta recordar um qualquer pedaço de mar passado, para se guardar o silêncio da procura.  E sempre a terna nostalgia das muitas cordas que o barco sonhado não trouxeram. Areias de outrora que não passaram na ampulheta da realidade. E escamas de sal coladas no corpo. E rios que não regressaram a sua nascente. E pedaços de azul que semeei dentro de mim. E veias de um sonho onde persigo esse projecto por cumprir que, como asa perdida, continua boiando pela respiração da vida. Há sempre um resto de silêncio de que sou procura.  É o velho ano que se vai. Um ano onde rimei comigo, onde rimei contigo, onde fui vida, nessa pura alegria de uma razão complexa, inteira, onde o paradoxo voltou a ser meu ser, para poder olhar de frente o que virá depois do não-ser. Porque houve um sinal de horizonte que atravessei, sem medo de sentir o risco de viver, essa plenitude de estar e ser, de apetecer viver para sempre, guardando o silêncio de não querer vencer, sabendo que conseguiria vencer. O mar pode conter meu verso e o tempo alumiar-me.

Dez 28

Notas quotidianas sobre as angústias lusitanas, quando não há notícias (STQP)

26 de Dezembro: E a notícia do dia é o facto de um piloto português que vai a Dakar andar a treinar-se com uma BTT nas areias da Fonte da Telha, para fortalecer as pernas.

27 de Dezembro: Benfica compra Manduka e paga não sei quanto, temendo a saída de Simão Sabrosa.

 

Continuam a monte doi homens que fugiram, ontem, da cadeia de alta segurança de Alcoentre.

13-5+2= 0. São as ideias produzidas pela presente luta presidencial, em pré-campanha.

 

O comunista Jerónimo, citando São Tomás, que ele não deve conhecer, diz que não se pode tratar igual o que é diferente, depois de receber os praças da Armada.

As sondagens continuam a dar esperança a todos, com Cavaco a não descer dos 50%, mas a descer desde os 62%. Aceitam-se apostas.

 

A União Europeia vai dar não sei quantos milhões para o desenvolvimento rural. Já deu muito mais para nos desertificarmos.

28 de Dezembro: Cavaco disse que não disse, para que os outros o contradissessem, neste jogo dos faz-conta onde não contamos muito.

 

Ninguém faz de D. Dinis, prometendo novo pinhal.

Antigamente saíamos de Belém em naus que procuravam uma Índia que nunca esteve nos mapas. Agora vamos de camião, mota e jipe, com GPS, para alguns chegarem a Dakar. Já somos todos grisalhos do Restelo.

 

Agora a pátria é um lugar de eventos, onde construímos estádios de futebol para servirem de centros comerciais.

Soares disse que Cavaco meteu a pata na poça porque apenas tem a cabeça programada para chefe do governo.

 

Na Rotunda do Marquês cai neve artificial, para patego olhar, graças à acção promocional da banca sem balão. Outra parcela da dita encheu o Terreiro do Paço de luminárias. E nesses extremos do eixo central de Lisboa, embancados, vamos comprando castanhas assadas. Quentes e boas para o frio que está.

29 de Dezembro: Desde que o euro chegou a função pública perdeu sempre o chamado poder de compra.

 

A casa onde morreu Garrett, em Campo de Ourique, vai mesmo ser demolida. A câmara terá alterado anterior decisão de Santana Lopes. Porque a casa é pertença de um qualquer ministro do presente governo.

De madrugada, a terra tremeu no Alentejo e a coisa sentiu-se em Coimbra. Há dias de frio que nos constipam e entopem o nariz, com cócegas na garganta.

 

A CNE diz que nada pode fazer contra os “sites” que transformaram as nossas presidenciais em apostas de fortuna e de azar.

Ministro das finanças diz que a nossa margem de manobra é curta, muito curta. E tem pena.