não integro a legião da história dos vencedores

Quem andou por estes dias num ambiente brasileiro, donde se olha o mundo de outra perspectiva, discutindo-se coisas como o protocolo de Quioto ou a próxima reunião da OMC, contra o proteccionismo agrícola da UE, Sobre a matéria, apenas me apetece observar, que também não integro a legião da história dos vencedores, pertencendo, sem orgulho épico, à longa fila daqueles mal-amados que foram vencidos, apenas pretendo manter o paradoxo do próprio destino português. Ora, em Brasília, recordei muito do sonho de Norton de Matos para o lançamento da ideia republicana e imperial de construção de um Portugal africano que não passou de um poder-ser, quando alguns projectaram mudar a capital desse conceito para o planalto do Humabo, edificando aí aquilo a que o general de Ponte de Lima baptizou como Nova Lisboa. Aliás, importa recordar que o salazarismo só tardiamente assumiu aquilo que era a bandeira do patriotismo imperial da monarquia constitucional, dos tempos de Luciano Cordeiro, António Ennes, Mouzinho de Albuquerque e Paiva Couceiro, e daquele republicanismo que, depois de ter levado o povo à Grande Guerra, mobilizou para líderes construtivistas do império nomes como os de Norton de Matos, Brito Camacho ou Álvaro de Castro, em nome do que identificavam como objectivo nacional, num processo que até teve como ministro das colónias João Soares, o pai de Mário Soares. Quando alguns esquerdistas dos anos setenta levantaram, como palavra de ordem, o abandono do rapidamente e em força, considerando-o como sinónimo de descolonização, eles, de certo modo, assumiram-se como filhos da lógica merceeira do salazarismo inicial e de alguma burguesia possidente e colonialmente devorista que clamava pela integração europeia à maneira dos velhos do Restelo que nunca se importaram de ficarem sem alguns dedos para poderem conservar o anéis. De qualquer maneira, levaram de forma oportunista a uma leitura retroactiva da história que chamou vergonha a algumas das mais belas páginas da nossa gesta, onde Chaimite ou Naulila são episódios que ainda podem ser vistos como exemplos de heroísmo e serviço nacional. Há um passado que passou e que muitos querem transformar em presente só porque temem o julgamento do longo prazo da história e que, por isso, dele usam e abusam através de um literatura de justificação com que tentam tapar o sol da realidade com a peneira dos ideologismos.

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