Sinais descolonizadoramente quentes de uma guerra por procuração da guerra fria

Quem andou por estes dias num ambiente brasileiro, donde se olha o mundo de outra perspectiva, discutindo-se coisas como o protocolo de Quioto ou a próxima reunião da OMC, contra o proteccionismo agrícola da UE, só consegue ver o episódio de Barcelos, do ataque de um ex-combatente a Mário Soares, com aquela distância que é capaz de compreender as palavras ditas hoje pelo carpinteiro ao “Correio da Manhã”: Isto já andava aqui encravado na garganta desde 1975, de modo que, mal o apanhei pela frente, desabafei”, porque assim “disse aquilo que muitos milhares de portugueses gostavam de ter dito”, nomenadamente os que integram a categoria do “expulso” de Angola e obrigado a deixar tudo o que lhe pertencia.

 

 

Cartaz de uma campanha eleitoral anti-salazarista e liberal, embora com infiltrações de jovens do PCP, protagonizada por um antigo sonhador do Portugal Africano

 

Sobre a matéria, apenas me apetece observar, que também não integro a legião da história dos vencedores, pertencendo, sem orgulho épico, à longa fila daqueles mal-amados que foram vencidos, apenas pretendo manter o paradoxo do próprio destino português. Ora, em Brasília, recordei muito do sonho de Norton de Matos para o lançamento da ideia republicana e imperial de construção de um Portugal africano que não passou de um poder-ser, quando alguns projectaram mudar a capital desse conceito para o planalto do Humabo, edificando aí aquilo a que o general de Ponte de Lima baptizou como Nova Lisboa.

 

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Nova Lisboa em 1920

 

Aliás, importa recordar que o salazarismo só tardiamente assumiu aquilo que era a bandeira do patriotismo imperial da monarquia constitucional, dos tempos de Luciano Cordeiro, António Ennes, Mouzinho de Albuquerque e Paiva Couceiro, e daquele republicanismo que, depois de ter levado o povo à Grande Guerra, mobilizou para líderes construtivistas do império nomes como os de Norton de Matos, Brito Camacho ou Álvaro de Castro, em nome do que identificavam como objectivo nacional, num processo que até teve como ministro das colónias João Soares, o pai do actual candidato Mário Soares.

 

 

Sinais de guerra no Huambo

 

Quando alguns esquerdistas dos anos setenta levantaram, como palavra de ordem, o abandono do rapidamente e em força, considerando-o como sinónimo de descolonização, eles, de certo modo, assumiram-se como filhos da lógica merceeira do salazarismo inicial e de alguma burguesia possidente e colonialmente devorista que clamava pela integração europeia à maneira dos velhos do Restelo que nunca se importaram de ficarem sem alguns dedos para poderem conservar o anéis. De qualquer maneira, levaram de forma oportunista a uma leitura retroactiva da história que chamou vergonha a algumas das mais belas páginas da nossa gesta, onde Chaimite ou Naulila são episódios que ainda podem ser vistos como exemplos de heroísmo e serviço nacional.

 

 

Sinais descolonizadoramente quentes de uma guerra por procuração da guerra fria

 

Não podemos comentar Barcelos com o mesmo anacronismo nem julgar Mário Soares de acordo com os valores de hoje e com os traumatismos que quem anuncia ir tomar banho. Há um passado que passou e que muitos querem transformar em presente só porque temem o julgamento do longo prazo da história e que, por isso, dele usam e abusam através de um literatura de justificação com que tentam tapar o sol da realidade com a peneira dos ideologismos. Como se o PSD de Cavaco Silva não tivesse tido como líder Durão Barroso do MRPP ou o assalto à agência do Banco de Portugal da Figueira da Foz também não tivesse a ver com antigos militantes do partido de Sá Carneiro como os falecidos Emídio Guerreiro ou José Augusto Seabra. Anacronismos idênticos aos actos de instrumentalização de “estórias” de Argel, envolvendo Manuel Alegre ou até a questiúnculas do Antigo Regime, numa altura em que ministros deste aparecem em comissões de honra de candidaturas presidenciais da direita e da esquerda.

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