O conceito pragmático de política externa

O conceito pragmático de política externa, em nome da soberania do “my country, right or wrong”, sempre foi regra, mesmo com o flagrante desrespeito dos princípios sagrados, usados no plano doméstico. Assim se demonstra o eterno conflito entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, para utilizarmos conceitos weberianos. Assim se mantém a mania de certas elites que se transformam em classes políticas gestoras da governança, segundo as quais, mesmo em democracia formal, podem manter-se aquelas práticas absolutistas de se fazerem leis que dispensam os governantes de a elas estrem sujeitos, e de se emitirem ordens sem o formalismo da lei para que o Estado possa ser arbitrário em nome de abstractos interesses nacionais. E tudo justificado pelas teorias políticas do realismo e do neo-realismo, as que chamam a Maquiavel o fundador da ciência política. Um modelo ainda marcou os grandes combates e as pequenas guerras por procuração da chamada guerra fria, incluindo aqueles efeitos indirectos que se fizeram sentir entre nós, quando entraram em choque delegados da CIA e agentes do KGB, coisas que ainda marcam algumas clandestinas memórias lusitanas. Nestes domínios, os pactos de ocultação de memórias e uma abundante literatura de justificação ainda fazem da nossa classe política, instalada no habitual devorismo pós-revolucionário, um conjunto de vacas sagradas, onde, parafraseando o Padre Américo, “não há rapazes maus”.

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