Aljubarrota mais Toro, igual a zero, Brandão, Carmona e falso sagrado

Dia 2 de Março de 1476, dia da batalha de Toro, dia supranacional ibérico, onde os portugueses tentaram fazer a “nuestros vicinos” o que os castelhanos não conseguiram em 1385, o que os já espanhóis concretizaram em 1580. Neste dia, o nosso D. Afonso V não ganhou e, por isso, ganhámos, porque ganhou Isabel de Castela, Fernando de Aragão e o Príncipe Perfeito de Portugal: deixou de querer mandar na CEE e preferiu preparar a viagem de Bartolomeu Dias, de tal maneira que neste dia de 1498 já o nosso Vasco da Gama, entre terra de boa gente, aportava na ilha de Moçambique, com atitude diversa daquela que George W. Bush ontem teve no Afeganistão. De qualquer maneira, sobre as relações peninsulares, apenas gosto de citar o nosso Almada Negreiros: “Aljubarrota mais Toro, igual a zero”.
E também quero recordar que hoje, em 1867, nasceu o meu querido Raul Brandão, o tal que, segundo Vergílio Ferreira, foi quem melhor escreveu português no século XX. Quase subscrevo. E, finalmente, a tal história da eleição de Carmona como presidente da república em 1928. Teve 761 000 votos, estávamos em Ditadura Nacional, ainda não tinha chegado o salazarismo e deu-se o paradoxo: a ditadura, pelo método plebiscitário, dado que não havia opositores, foi mais democrática do que a anterior fase republicana, demoliberal, pelo menos em participação do povo. Foram mais às urnas do que aqueles que votaram nas anteriores eleições parlamentares em todos os partidos que concorreram. Isto é, repetia-se a legitimidade populista ensaiada por Sidónio e volatava-se aos colégios eleitorais da monarquia liberal. Infelizmente, não havia pluralismo, liberdade de expressão nem concorrência, mas ainda não havia polícia política, presos políticos, congreganismo anticongreganista, beatério religioso-politiqueiro ou república de catedráticos, mesmo sem serem doutores.

 

 

Nos tempos que correm, para além do desembarque de toneladas de droga em Albufeira, com policial troca de tiros, onde é morto um jovem traficante lisboeta, faz-nos recordar que vinte por cento dos nossos jovens consomem a Maria Joana, enquanto há greves do pessoal de luta contra a corrupção, incidentes dilatórios processuais que ameaçam anular o julgamento da Casa Pia e muitas outras memórias que a lixívia do revisionismo histórico tenta apagar. Que os silêncios e o esquecimento geram sempre a reacção facciosa das seitas de extrema-esquerda e de extrema-direita que vão fabricando profetas e heróis, para sejam rezados pelas muitas capelinhas seguidistas da hagiografia, do martírio e da apologética, nesse ambiente de falso sagrado que vai recobrindo o dogma com as chitas do transcendente.

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