Magia negra, Milosevic, Zaki Laidi, reforma do Estado, CPE/PRACE e apenas ardem as ruas de Paris

Em Barcelos, por causa do futebol, havia, à porta do estádio, galinha preta degolada, velas e onze ovos pintados com a caravaca…mas o feitiço não deu em golos. Ontem, aliás, importava recordar que, no ano de 2003, se deu a célebre cimeira das Lajes, onde Durão Barroso acolheu Bush, Blair e Aznar, assim lançando, com sucesso, a sua candidatura a presidente da Comissão Europeia e comemorando o ocorrido em 1974, dia do célebre golpe das Caldas que antecedeu o 25 de Abril.

 

Ontem também, as forças norte-americanas, integrando as iraquianas em estágio, lançaram o maior ataque desde a invasão de 2003. Hoje, comemora-se a data de 2002 que deu a Barroso uma vitória relativa nas eleições, obrigando-o a uma coligação com Portas, no mesmo dia em que, no ano de 1939, Salazar entrava em Pacto Ibérico com Franco e que, em 1913, surgia a União Operária Nacional, base da futura CGT, que era anarquista e tudo.

Ontem também o “Quartier Latin” continuava envolvido numa nuvem branca, da gás lacrimogéneo. O carniceiro dos Balcãs está prestes a ter funeral e o respectivo suicídio liquidou o que restava do TPI.

 

Por isso é que o PS convidou um professor francês de ciência política a dar-lhe um estágio renovador, longe da gendarmerie e do CPE. E o dito, Zaki Laidi, repetindo Lang, veio cá dizer que a esquerda tem que se “reinventar” para enfrentar os desafios da globalização, o que passa por modificar uma atitude de recusa da mudança, em favor de uma via reformista.

Mas não de qualquer maneira: as reformas não se fazem “sem concertação, sem parceiros sociais”, sem oferecer contrapartidas. E não se fazem no medo: “Quando se é de esquerda, não se pode construir um caminho reformista assustando as pessoas.” Ribeiro e Castro não será, por enquanto, derrubado por Portas e Manuel Monteiro não ameaça regressar.

 

Reaccionário foi, entre nós, um condutor de 83 anos lançou ontem à tarde o pânico na A8, ao circular em contramão durante cinco quilómetros. Reformista é o governo de Sócrates que anuncia a circunstância de mais de 75 mil funcionários públicos serem “objecto de especial avaliação” e, entre extinções e fusões, desaparecem do mapa da administração pública cerca de 120 institutos e organismos.

Estes são os grande números do PRACE, versão final do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, apresentado ao primeiro-ministro, José Sócrates, no final da semana passada. Marques Mendes continuará líder de transição na travessia do deserto do PSD. Nunca a vida em Bagadade foi tão insegura.

 

A Bolsa lusitana sobe, por causa das OPAs, entre os jogos das meias finais entre SONAE-PT e BCP-BPI, com reportagens sobre a vida quotidiana dos treinadores Belmiro e Teixeira Pinto. A Bolsa sobe, as bolsas minguam. Voltando ao politólogo francês, mesmo de esquerda, a “realidade poderosa, entre nós, não são os recibos verdes para os jovens, mas o desaparecimento de 18 governos civis.

Porque “é incontestável que a base social da esquerda se tornou muito conservadora.” O mesmo é dizer que não quer abdicar dos privilégios alcançados – tornando-se ela própria numa fonte das desigualdades que a esquerda, tradicionalmente, tenta combater. É o caso da Direcção Geral do Património, do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas, do Conselho Superior da Protecção Civil, do Instituto de Defesa Nacional e mesmo do STAPE.

 

Cavaco conversou de forma civilizada com Sócrates, numa mesa austera e castanha e não em sofás vermelhos. Não sabemos se a conversa foi gravada, como nos tempos de Eanes. As inconfidências desta cimeira da coabitação serão em breve divulgadas pela RTP-Memória, que também transmitirá as cenas mais picantes do julgamento da Casa Pia, ocorrido ontem.

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