Continuam as tolices de avaliólogos, educacionólogos e outros ornitólogos

Se os estudantes e pais se apercebessem como se faz esta engenharia de tira cadeira e põe cadeira, sempre em nome do vamos a ver se consigo aguentar o meu emprego ou o daqueles que eu feudalizo, perceberiam como são poucos os que pensam na missão do que devia ser uma instituição, dotada de uma ideia de obra, de evidentes manifestações de comunhão entre os respectivos membros e de regras estatutárias pautadas pelo espírito e pela letra do Estado de Direito. Os engenheiros curriculares que estão a transformar a universidade num desses falidos centros de planeamento prenhes de estalinistas desempregados, transformados em verbeteiros tecnocratas, em nome da União Europeia, ainda não perceberam que não se fazem omeletas sem ovos, isto é, cursos sem professores e professores sem professarem uma vocação assente na qualidade e na criatividade. Arrebanhando na fotocópia e na Internet uma floresta não digerida de planos e maquetas, muitos traduzem-nos em repetição típica na universidade cartesiana, Pombalista e napoleónica, sem compreenderem que uma universidade não pode ser asfixiada pela mentalidade veiga-simonista dos destruidores do direito à invenção em Portugal. É por isso que, em nome do meu estatuto de professor, autorizado por sucessivos concursos públicos a cumprir um programa que criei em provas para professor associado, para a agregação e para professor catedrático, não considero que tenha de discutir o processo em ritmo de luta sindical, até porque não me considero perseguido, e se alinhasse no processo, seria naturalmente ouvido pelos meus pares. Felizmente, nenhuma das funções que exerço na universidade depende do chamado voto que muitos pedem ao assistente, ao monitor e ao aluno, nessa barganha que finge poder haver democracia numa hierarquia, como a estúpida regulamentação da chamada gestão democrática da autonomia universitária continua a decretar, não reparando que, em nome da dita, se gerou uma oligarquia, não científica nem democrática, que, de feudalismo em feudalismo, até criou essa corporação de reitores e avaliadores, dotada dos seus clericais primazes, onde quem denuncia o esquema fica sujeito ao ostracismo e ao silencioso veto da vindicta, por vezes gerontocrática. Por mim, sinto algum receio de mudar por mudar, para receber o carimbo de vanguardista, mesmo que sob o hábito renovado permaneça o monge de sempre. Prefiro o modelo não geometrizante que marca o ritmo anglo-americano, o que parte do particular para o geral, assenta na experiência e faz “curricula” a partir das produções científicas próprias e dos programas assentes em mais valias publicadas, e não em obediência a vulgatas de más enciclopédias. Por isso, cá vou resistindo e recordando que sei o que são as tolices de avaliólogos, educacionólogos e outros ornitólogos. Até tenho três filhos entre os vinte e os trinta anos e sei o que significam as experiências professorais que os utilizam como cobaias para manias doutorais. Por mim, prefiro combater o desemprego real dos jovens licenciados e seguir o exemplo das universidades que ocupam os primeiros lugares dos “rankings” mundiais, por acaso, produtoras da quase totalidade das listas dos Nobel. Não foi com este método que fizemos a melhor universidade portuguesa de todos os tempos, a que chamaram Escola de Sagres, nem seria assim que se constituiria a NASA. Julgo que continuo a ter razão antes do tempo. E não participo nos bailados que têm a ver com candidaturas ao reitorado e ao reitorado primaz, nem com os mecanismos dos vasos comunicantes que se começam a fazer entre a universidade e a partidocracia, para o Jaquim vá a ministro e o líder político desempregado possa movimentar-se para que o Manel obtenha tal ou tal bolsa de estudo. Sou de outro tempo. O que há-de vir quando se voltar a descobrir o princípio do ovo de Colombo.

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