Os cilícios do Opus Dei, os preconceitos WASP e a continuidade dos bananas

Lá vi o Dan Brown posto em filme, depois de o ter lido em livro, sempre à boleia das ondas da moda. Gostei mais da primeira experiência que da segunda. Repito o que aqui disse em Fevereiro de 2005: a história de Maria Madalena e do Graal fazem parte das deliciosas patranhas do nosso imaginário, como a Cinderela ou o Pinóquio. Retoma-se, quase meio século depois, o regime do “best seller” de Pauwels e Bergier, “Le matin des magiciens”, Paris, Gallimard, 1960, agora num regresso ao anticongreganismo primário, onde, em vez dos jesuítas, surge o “Opus Dei”, vulgarizando-se ridiculamente questões maçónicas, gnósticas e panteístas.

 

Reduzir ao ritmo cinematográfico temas como os do simbolismo e do esoterismo, atacar o catolicismo e a maçonaria, pela interpretação das lendas merovíngias, é brincar com o fogo sagrado. Especialmente neste Ocidente onde as bases esotéricas atiram a memória pré-cristã e as heresias medievais para a zona do sincrético das seitas e das macacadas das sociedades secretas, onde, afinal, algumas multinacionais livreiras espetam as garras do negocismo, explorando as nebulosas que circundam a procura da verdade, sem se ir ao fundo das coisas.

 

 

 

Acaba por apelar-se ao vazio da procura pessoal, obrigando muitos a acolherem-se à sombra de explicações transpersonalistas e fazendo dissolver as autonomias individuais no colectivismo moral das seitas e nesse jogo entre o exotérico e o esotérico, de modo que a verdade acaba por dissolver-se. Importa salientar que quando alguém procura atingir o bem colectivo através do mal individual, em nome da Razão de Estado, da Razão de Seita ou da Razão de Igreja, está a matar-se a si mesmo, ainda que adopte aquela literatura de justificação do realismo político.

 

Há muitas boas e higiénicas instituições que invocam fins superiores, incluindo o divino, enquanto os respectivos jagunços, inflitrados nos aparelhos do Estado de Direito, brincam ao maquiavelismo, maculando a eventual espiritualidade com que vão recrutando neófitos. E o estampido das crenças, com que muitos vão permitindo as conversões, pode levar a um processo de crescente relativismo e cepticismo, onde acaba por preponderar o mero jogo das bruxarias. Continuo a preferir Umberto Eco e “O Nome da Rosa”. Ficamos mais cavaleiros andantes, mais próximos do saber poético, mais amantes do mistério, mais cultivadores do transcendente…

 

 

 

No filme, tornam-se manifestas as caricaturas quase racistas que os anglo-americanos pouco universais e muito hollywoodescos fazem dos franceses e que atingem o clímax do insulto quando tentam retratar o espanhol, nesse ambiente de anticolonialismo imaginário, onde o máximo de pseudo-racionalismo passa pela demonização do latino, pintado de ditador da república das bananas e vestido de cardeal, nessa inconfessada vontade de segregacionismo e de “apartheid” de certa cultura WASP- White Anglo-Saxon Protestant.

 

 

 

E não foi por acaso que a minha visita ao filme foi precedida por uma visita a fígados de tamboril, lá para os lados de Alfarim, e deparando-me, à porta do cinema, com esse génio da escrítica que a esquerda instalada decreta como o paradigma da direita que convém à esquerda. Reparei que, apesar de novo, continuava imensamente velho, copiando os rebanhudos papas da jornalada que se assumem como as manilhas centrais da importação das ideias vanguardistas, mesmo quando reaccionárias. Por isso, quando voltei a casa e reparei nas cenas do congresso do PSD, fiquei sem saber se estava a assistir ao comentarismo do “Jogo Falado”, dado que os justamente afamados analistas da futebolítica são, além de treinadores de bancada, distintos militantes do laranjismo, assim se confirmando a superioridade da agregação de interesses do mendismo face ao estilo socrateiro, com que se disfarçam os cor-de-rosa.

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