Jul 28

numa espécie de exercício geopolítico dos afectos

Prefiro reflectir sobre o próprio sítio onde estou, numa espécie de exercício geopolítico dos afectos, aqui, à beira da extremidade ocidental do que foi o “mare nostrum” ou mar interior, dito mediterrâneo, onde a curva do mar antigo acaba e começa o mar sem fim, dito atlântico, o tal que apetece sonhar. Aquele que vira as costas à terra de guerra e, de olhos postos no infinito, a caminho do Sul, continua a tentar provar que a terra é circum-navegável, se rodarmos em torno do nosso próprio eixo, para parafrasear Toynbee. Só assim podemos aceder ao tal abraço armilar que é partir para regressar. “Mare nostrum, mare liberum”. Perante a desesperada falta de soluções da racionalidade finalística, importa passear pelo tal lume da profecia, a que Weber chamou racionalidade axiológica. O recurso à violência estadual, mesmo na sua forma de guerra, pela qual os homens continuam a optar é sempre um mau conselho. Não vale a pena optarmos por ainda mais guerra e até sonharmos com esse clímax da violência institucional que é o uso ou a ameaça de uso daquilo a que demos o nome de “absolute weapon”, coisa que acontece quando alguns têm a ilusão da nova forma de solução final. Prefiro continuar a pensar mar, aqui no limite Sudoeste daquilo que foi a “respublica christiana” e a “pax romana”, neste pedaço de terra que teve de ser reconquistado ao Islão, de que fizemos moiras encantadas, tal como em Marrocos ainda se fala nas portuguesas encantadas. Sou da terra de Alcácer-Quibir, fui derrotado por eles, ajudados que foram por huguenotes e protestantes ingleses, quando D. Sebastião tentava criar um triângulo estratégico que passava pelo Rio de Janeiro e de Luanda, para assim recriar um novo “mare nostrum”. E é com a memória do derrotado que não me apetece voltar a ser derrotado. Porque também sei que vencer é ser vencido, como me foi ensinado por Fernando Pessoa. Salazar cai sempre de uma cadeira e pobre do verbo que depende da verba, ou da ideia que precisa de bombas para converter. Voltemos à liberdade livre da imaginação como terceira potência da alma, a tal que nos treina para a transgressão criativa da rebeldia e da insolência do sonho. As crises de anarquia criativa podem corresponder a incubações que precedem a chegada das grandes emergências que juntam convergência e divergência, essas mudanças dramáticas que se traduzem pela bela quebra de fronteiras entre territórios até então hostis. Também no Médio Oriente poderemos sonhar como corpos vivos de povos que regressem, para organizações de complexidade crescente. Basta que regressemos a forma intuitivas de ideação. As tais que ainda não se sistematizaram por uma engenharia piramidal de conceitos, as tais formas de libertação que nos permitem voltar a ter organização, mesmo que seja organização inter-estadual. Estou a ler Koestler e aí reparo que uma organização é uma espécie de árvore, onde a hierarquia é feita de ramos superiores e inferiores, onde os superiores aparecem aos inferiores como um todo, dotado de unidade, mas onde os superiores olham para os inferiores como partes vivas e autónomas desse mesmo todo. Onde cada parte, mesmo a superior, é dotada de complexidades, isto é, marcada pelo princípio da autonomia, onde a variedade gera unidade, não pela unidimensionalização da bomba, mas pela subsidiariedade. Onde o controlo do todo pelas partes é levado a cabo pelo fluxo da rede, da unidade na diversidade. Pela tal coisa a que chamamos democracia. E que pode ser universal. Porque as coisas antigas podem não ser antiquadas. Como num barco ultra-sofisticado pelo choque tecnológico que não abandona o princípio da âncora, que sempre foi esperança.

Jul 28

A esquizofrénica procura do presidente-rei e a (falta de) ética republicana

Soares e Cavaco são o regresso a um mitificado passado, a invocação de dois dos principais situacionismos que marcaram a nossa pós-revolução. A procura da segurança sistémica, ao exigir este conforto pela protecção do presente, recorrendo-se aos pais do modelo político que temos, constitui uma ilusória droga que revela tanto a impotência das presentes gerações como a falta de criatividade dos filhos do soarismo e do cavaquismo, confirmando a estagnação em que o regime se enreda. E tudo poderá explodir se não ganharmos consciência da circunstância de poder chegar, de um momento para o outro, o Marcello Caetano deste regime envelhecido. Aliás, ninguém de bom senso acredita que o actual PSD possa assumir-e como alternativa credível ao presente governo. Da mesma forma, também ninguém vislumbra a hipótese do desencadear de uma crise política que crie um ambiente de pré-golpe de Estado, coisa que é, de facto, tecnicamente impossível. O comando político e social do país já não cabe numa “Chaimite”, dado que atingimos níveis de pluralismo e de sociedade aberta que nos tornam imunes ao golpe, apesar de continuarmos vulneráveis à putrefacção. As próprias análises políticas que acompanham os cenários presidenciáveis, inventariando-se os prós e contras dos perfis intervencionistas dos principais candidatos, reflectem o conformismo comentarista. Com efeito, o intervencionismo do velho macro-economista não surtiria efeito nas presentes circunstâncias, porque o Palácio de Belém não pode transformar-se num super-ministério das finanças. Da mesma maneira, soaria a ridículo que o mesmo local presidencial pudesse volver-se em Palácio das Necessidades, no caso de vencer o antigo caixeiro-viajante da república, até porque já se foi o estrondo que marcou o fim da guerra fria e morreu Álvaro Cunhal. Ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio e um qualquer velho não pode voltar a ser novo, mesmo que recentes químicos nos dêem a ilusão alquímica da descoberta do elixir da vida eterna. Por isso, bem podemos estar a assistir a delírios típicos das noites de Verão, pelo que, depois das reflexões de Agosto, talvez se chegue à “rentrée” de forma mais friorenta. Todos sabem que o necessário “indisciplinador colectivo” capaz de afastar a presente estagnação não virá de dentro para fora. Porque os factores nacionais de poder, que a governação pode gerir e mobilizar hierarquicamente, já não são suficientes para um intervencionismo capaz de debelar a crise que nos ameaça. Já não somos um país independente à maneira salazarista. E a independência que nos resta se resume à sucessiva gestão de dependências a que livremente nos fomos prendendo, tanto a nível da transferência de soberania da integração europeia, como da interdependência da globalização. O sonhado intervencionismo presidencial não passa de uma ilusão. É feito de imagens assentes num passado que já não há, quando outras eram as circunstâncias. Daí que o regresso de personalidades históricas, ligadas ao momento genético do presente regime, apenas conforme a presente esquizofrenia colectiva. E que possa repetir-se a tal estúpida personalização do poder que nos faça depender de uma constipação mal tratada. Tanto são graves soarismos ou cavaquismos sem Soares e sem Cavaco, respectivamente, como Soares ou Cavaco, feito um deles presidente, também sem soaristas ou cavaquistas. O aqui e agora é diferente no “tempo” de interregno em que estamos embrenhados e no “espaço” das presentes circunstâncias geopolíticas que levaram os principais presidenciáveis a ficarem assinaladas como figuras notáveis da história política política portuguesa. Transformar as eleições presidenciais num passeio que a pátria portuguesa provindencia para o Olimpo do agradecimento dos homens comuns, revela uma falha dos nossos constituintes que deveriam ter previsto a hipótese de um colégio presidencial de muitos “honoris causa”. O que evitaria o perigo do estabelecimento de um regime monárquico à maneira vaticana, com o eleito a receber mandato vitalício de presidente-rei. Assim se evitariam os desperdícios de tantas pré-campanhas, campanhas e actos eleitorais, bem como algumas fraudes face ao sentido da proclamada ética republicana.Em tempo de homens ditos realistas, importa ter o realismo de ser idealista Começo por recordar. Que na data de hoje, em 1914, com a declaração de guerra de Viena à Sérvia, se iniciaram oficialmente as hostilidades daquilo que, então, se assumiu como a Grande Guerra, que seria a última, mas que, afinal, não passou da I Guerra Mundial, depois de haver a Segunda. E a maior parte dos problemas que podem provocar as guerras mundiais de hoje ainda são problemas que este primeiro confronto pseudo-gnóstico não resolveu. Comemorava então o seu aniversário, pelas doze primaveras, um tal Karl Raimund Popper, que a si mesmo se veio considerar como o último filósofo das luzes e a quem devemos a explosão solar que, na estrada para Damasco, cegou, de tanto brilho, alguns ex-ilustres marxistas-leninistas-estalinistas lusitanos, os tais que, mantendo ainda hoje a metodologia do georgiano, mas mudando de amanhãs que cantam, ainda por aí cantarolam o popperismo, procurando candidatar-se a supremos inquisidores da palaciana república. Por mim, já conhecia Popper antes de os ditos desembarcarem na biblioteca onde abriram as respectivas páginas pela primeira vez e continuo a não obedecer-lhes, embora tenha obediência. Pedimos desculpa por esta interrupção dos nossos comentários de guerra. Vou ler em arquivo directo a última intervenção de Bush, porque os nossos propagandistas do dito talvez tenham cometido o erro de serem mais bushistas do que o próprio Bush. Queria acrescentar que, apesar de tudo, em matéria de política internacional, ainda sou do partido de Woodrow Wilson que, em tempo de homens lúcidos, tinha a lucidez de ser ingénuo. Até Hannah Arendt, que era judia, militaria aqui. Onde esperamos receber o mais lúcido contributo do próprio Bento XVI. Não tardará muito. Dizem que está a ler o relatório sobre o bombardeamento de alguns conventos no Líbano e a retomar o discurso de João Paulo II sobre o espírito de Assis.

Jul 28

Em tempo de homens ditos realistas, importa ter o realismo de ser idealista

Começo por recordar. Que na data de hoje, em 1914, com a declaração de guerra de Viena à Sérvia, se iniciaram oficialmente as hostilidades daquilo que, então, se assumiu como a Grande Guerra, que seria a última, mas que, afinal, não passou da I Guerra Mundial, depois de haver a Segunda. E a maior parte dos problemas que podem provocar as guerras mundiais de hoje ainda são problemas que este primeiro confronto pseudo-gnóstico não resolveu.

Comemorava então o seu aniversário, pelas doze primaveras, um tal Karl Raimund Popper, que a si mesmo se veio considerar como o último filósofo das luzes e a quem devemos a explosão solar que, na estrada para Damasco, cegou, de tanto brilho, alguns ex-ilustres marxistas-leninistas-estalinistas lusitanos, os tais que, mantendo ainda hoje a metodologia do georgiano, mas mudando de amanhãs que cantam, ainda por aí cantarolam o popperismo, procurando candidatar-se a supremos inquisidores da palaciana república. Por mim, já conhecia Popper antes de os ditos desembarcarem na biblioteca onde abriram as respectivas páginas pela primeira vez e continuo a não obedecer-lhes, embora tenha obediência.

Pedimos desculpa por esta interrupção dos nossos comentários de guerra. Vou ler em arquivo directo a última intervenção de Bush, porque os nossos propagandistas do dito talvez tenham cometido o erro de serem mais bushistas do que o próprio Bush. Queria acrescentar que, apesar de tudo, em matéria de política internacional, ainda sou do partido de Woodrow Wilson que, em tempo de homens lúcidos, tinha a lucidez de ser ingénuo. Até Hannah Arendt, que era judia, militaria aqui. Onde esperamos receber o mais lúcido contributo do próprio Bento XVI. Não tardará muito. Dizem que está a ler o relatório sobre o bombardeamento de alguns conventos no Líbano e a retomar o discurso de João Paulo II sobre o espírito de Assis.