O ritmo do Brasil

Leio num jornal de Lisboa que, aqui, no Brasil, a democracia está em perigo, ao glosar-se a intervenção opinativa de alguns importantes militares que, desafectos a Lula, decidiram fazer como os senhores bispos e denunciar a corrupção que estendido as suas teias à turminha do presidente. E reparo como alguns confundem as árvores com a floresta, porque o próprio Lula chamou bandidos aos seus colaboradores, apanhados com a gestão de quase dois milhões de reais para a compra de um dossier que iria implicar os chefes da oposição. A questão é grave, mas tão grave quanto outros processos do género que estão em investigação, e a rede dos meandros escabrosos atinge tanto o PT como o próprio PSDB. Aliás, por aqui, em qualquer lugar e em todas as forças políticas, a invocação da ética constitui um lugar comum que se vai gastando pelo uso e até prostituindo pelo abuso. Só que o povão conhece todos os pormenores destes casos, as denúncias têm resultado, as demissões sucedem-se e vai manter-se o situacionismo, porque, do mal, o menos…. Talvez fosse melhor alguma serenidade analítica e repararmos como por cá as coisas são bem mais transparentes do que as peripécias da mesma dimensão que afectaram a nossa democracia pós-revolucionária em matéria de financiamento de partidos e de campanhas eleitorais, onde os episódios de Macau continuam em nebulosa de monçaõ, com muitos olhos em bico. Apenas direi que também por cá todo o Bloco Central tem as mãos pouco limpas e quem tem telhados de vidro pode atirar pedradas, mas pode também concluir que as suas também ficaram quebradas. O Brasil não é só presidente, mas uma realidade federal, onde tanto contam os Estados como os cinco mil municípios que, numa originalidade constitucional face ao modelo norte-americano, fazem parte da própria federação. E nesta mistura entre federalismo municipalista com poder moderador, surge um oceano político federalista, onde a imaginação continua a ser um elemento que aqui faz alguma diferença. Até o presidencialismo tem muito a ver com a velha herança imperial, da democracia coroada ou da monarquia republicana, onde os presidentes tentam reassumir esse sentido de pai dos pobres, à imagem e semelhança do Senhor D. Pedro II. Não se estranhe, pois, que para além do prestígio histórico do Império, ainda haja militantes da causa, como deparei no Senado, onde dois ilustres assessores constitucionalistas se assumem ainda como monarquistas. Isto é, neste lado do Atlântico ainda sobrevivem fiéis da antiquíssima legitimidade liberal, mantendo-se viva a memória dos pais-fundadores. E também não é por acaso que o culto da tradição maçónica é enraizado, invocando-se as patriarcais figuras de Cayru ou de José Bonifácio. Não faltam até os que, em nome da Inconfidência Mineira, recordam Tomás António Gonzaga, o da Marília de Dirceu e de um Tratado de Direito Natural, com textos que ficarão para sempre ligados ao relançamento que deles fez o nosso Manuel Rodrigues Lapa. Isto é, para chegar à alma do Brasil, mesmo um português tem que fazer um esforço de conversão interior que o tente compreender, não como terra estranha e estrangeira, mas como algo que, provindo da mesma raiz se reproduziu noutras direcções e com outras gentes, mas a que nos continua a prender uma irmandade de afectos que gera esta profunda comunidade de significações partilhadas que, em paralelo, nos pode permitir caminhar, de nação em nação, para a super-nação futura. Senhores observadores lisboetas, isto é bem mais complexo do que a geurra de vencedores e vencidos de uma campanha eleitoral, onde se perdem cerca de três dezenas de partidos. Isto é bam maior do que alguns quintais. Mesmo com as vitórias do PT e o carisma encenado de Lula, que se comparou a Cristo, para Fernando Henrique Cardoso logo lhe camar diabo, o Brasil não está lulizado. Tem horizonte demais para cair nas teias de uma mudança revolucionária ou contra-revolucionária.

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