Out 17

O processo de revolução vinda de cima que continua em curso

Em democracia o povo não existe, dado que os mecanismos de representação exigem vários tipos de povo, conforme as canalizações visualizadas. O povo eleitoral difere do povo das sondagens, tal como o povo das manifestações não coincide com o povo das elites. Porque o povo não passa de uma abstracção que nunca em nenhum tempo e em nenhum lado conseguiu conquistar o poder. Logo, assinalei que o presente modelo de teatrocracia manifestativa é o tal normal anomal de uma democracia entendida como institucionalização de conflitos, com o conseuqnete sistema de ritos e mitos. Porque o povo português que já anda há trinta anos em democracia representativa sabe que todo este processo é uma espécie de jogo, com muitas manobras e muitos heterónimos. E ainda bem. Significa que somos pluralistas e todos até preferem ver professores em desfile encenado do que o ar façanhudo dos que clamavam pela ditadura do proletariado. E disso algumas coisas mais que aqui não repito. Insisti apenas que a governação vigente tudo mede e consegue controlar em termos de “agenda setting”. Aliás, não é por acaso, que em tempos de “manifs” da “rentrée”, a mesma questão, posta exactamente com os mesmos termos, tenha sido apresentada para debate em três ou quatro dos nossos principais órgãos de comunicação social. Isto é, continua a ditadura dos perguntadores e os pobres mortais, do poder dos sem poder, apenas podem dar resposta à pergunta que lhes é feita pelos controladores da “révolution d’en haut”.

Out 17

Mário Sottomayor Cardia

Acabam de me comunicar o falecimento do meu querido colega Mário Sottomayor Cardia. Não comunicarei aqui as necrológicas palavras do costume, porque quem pensa e semeia o pensamento nunca morre. Este homem de excessos, nos defeitos e nas virtudes, deveria ter sido o autor da necessária teoria da democracia deste regime. Mas preferiu andar sempre à procura e ensinar os amigos e alunos em peripatéticas conversas, algumas delas em longas noitadas, onde, os que dele receberam o privilégio do magistério, muito aprenderam. Eu fui um dos que tive essa honra de perceber o que era ter sido comunista por solidariedade e socialista da velha tradição do liberalismo lusitano. E aos outros tentarei comunicar sempre o que dele recebi. Não posso, contudo, deixar de proclamar que este foi o mais corajoso ministro da educação que tivemos neste regime, porque, contra a destruição da revolução, soube e conseguiu implantar a semente de uma reforma por cumprir, eliminando a estúpida mentalidade da guerra civil friamente ideológica. A Universidade e a democracia muito lhe devem. Para sempre!

Out 16

De novo o Brasil. Novas reflexões à distância…

Não, não vou esquecer o Brasil… Leio que nesta segunda fase da campanha para presidente e governadores, Lula se distancia onze pontos do candato tucano e recordo o último debate da Globo a que assisti “in loco”, quando Alckmin enfrentou dois antigos dissidentes do PT. Um virado à direita, sob a chapa do partido de Brizzola, já social-democrata, Cristóvão Buarque, antigo reitor da Universidade de Brasília e antigo governador do distrito federal pelo PT. Outra, a professora de medicina Heloísa, nordestina como Lula, mas que, dizendo não querer trair a sua classe, se assumiu como da esquerda pura, em nome das origens revolucionárias, proclamando que Lula se reuniu de bandidos e continuou a corrupção do governo de Fernando Henrique, sempre a denunciar os mensalões, os sanguessugas e os milhores de dólares de origem desconhecida que inundaram o lulismo. Chamou mesmo, aos ministros da área económica e financeira, muleques da banca e denunciou o desvio de renda que esta tem levado a cabo. Isto é, demonstrou agilidade, inteligência e preparação, não se perdendo em ideologismos, porque tem bem mais substância do que a imagem de exaltada e franzina.

 

Alckmin preferiu o jogo táctico de fugir com o rabo às frechas dos contendores e tratou de desviar todos os ataques ao sistema tucano, tanto pela defesa que fez do legado de FHC, como pelos exemplos de boa gestão que apresentou como governador de São Paulo. Infelizmente para ele não conseguiu mostrar carisma, não vendeu ideologia e não clamou contra o fim da história. Preferiu acentuar a imagem do bom gestor, conhecedor de “dossiers”, quase demonstrando que não vai ter êxito presidencial.

 

Por isso comoveu a prestação de Buarque, o velhote idealista, que leu a cartilha dos valores da democracia, à maneira dos velhos regimes de príncipes, sempre a proclamar princípios e a desenvolver teorias experimentadas, especialmente quanto às medidas que propôs para o combate à corrupção, utilizando desta um conceito alargado, nomeadamente quando considerou que a própria gestão que o governo tem feito da bolsa-família se insere no esquema. Porque tanto serve para criar dependência, como não elimina a própria pobreza, dado que apenas serve para matar a fome sem ensinar a pescar, isto é, sem permitir um desenvolvimento sustentável. O que só seria possível pela revolução da educação e pela aposta na criação de centros de ciência e tecnologia, a fim de serem possíveis situações como as da Embraer, hoje o maior exportador brasileiro.

 

Lula não foi ao debate. Ele sabia que a imagem de pai dos pobres, herdada de Getúlio. tem apenas como adversário o próprio lulismo e a consequente erosão do poder, para o que elege sempre como principal adversário o tucanismo. Ele sabe que o seu prestígio lhe vem dos milhões de famintos que alimenta, mesmo que faça mais caridadezinha estadual do que justiça. Ele sabe que tem com ele a classe média baixa e maioritária, a quem não tocou na bolsa. Manteve pragmaticamente a estabilidade cambial e o programa de luta contra a inflação, em aliança com o sistema financeiro e sem a hostilidade agressiva do associativismo empresarial, ao mesmo tempo que acalmou sindicatos e adormeceu o MST, que se tem entretido, graças a gossos subsídios estaduais, a fazer uma massificada formação de quadros, preparando a passagem a futuro movimento político, sem sabermos ainda se o fará de forma institucional e pluralista, ou, então, através de um processo subversivo ou revolucionário.

 

A grande mancha do lulismo está na corrupção, que se transformou em torrente, ao mesmo tempo que é manifesto o alastramento da incompetência, sobretudo a nível dos altos quadros da administração pública, dado que, ao enxamear-se a máquina de comissários políticos se desestimularam os que apenas reclamam direito à carreira. E assim foi crescendo uma máquina gigantesca que se tornou na principal devoradora dos contribuintes.

 

Julgo que o sistuacionismo lulista, apesar de tudo, se vai aguentar. A situação económica internacional tem-lhe sido favorável e o povo continua entretido com uma espécie de continuação do menos mal dos remediados, nomedamente pelo acesso à classe média de três milhões de pessoas, dando esperança aos setenta milhões que permanecem na situação técnica de pobreza.

 

A subida de Lula ao poder, perante a decadência tucana, deu ao Brasil a hipótese acabar com uma larga mancha de esquerda utópica e messiânica que ainda não tinha tido a oportunidade de gestão do poder e, portanto, padecia de algum irrealismo programático. Julgo que Lula teve o mérito de dar à democracia brasileira uma maior base social de apoio e o regime passou a ser efectivamente de todos, sem agressivas exclusões, ao mesmo tempo que surgiram sucessivas quedas dos anjos. O PT já se social-democratizou e passou a alinhar na grande turminha dos blocos centrais, ao mesmo tempo que Lula foi ganhando respeitabilidade na cena internacional, onde, sem ascender à dimensão de um Mandela, soube distanciar-se do espectáculo de demagogia das republiquetas das bananas, onde muitas comédias podem redundar em tragédia.

Out 13

O normal é haver anormais neste estado a que chegámos

Confesso, em primeiro lugar que não tenho receitas ideológicas ou propostas de alternativa geopolítica para o actual modelo em que este país submergiu. Se messianicamente me sentisse parte de uma qualquer seita com uma alternativa salvacionista, lá iria para o combate. Até já não tenho partido e nem sequer faço parte dos independentes que querem ir para uns quaisquer estados gerais da direita ou da esquerda. Prefiro viver como penso e continuar liberal sem ser neoliberal, tradicionalista sem ser neoconservador e ser fiel ao lema que aqui incluo na coluna À esquerda. Daí que possa dizer que estamos condenados a esta tirania situacionista. Estamos condenados, em virtude de pressões sistémicas do ambiente que nos rodeia como país a esta democracia pluralista gerida por Blocos Centrais. Estamos condenados a continuar a ser uma província do euro. Estamos condenados a ser uma sociedade e uma economia abertas à globalização e ao presente modelo de capitalismo sem ética, onde morrem seiscentos mil iraquianos, para o cumprimento de um qualquer plano estratégico errado.  Em segundo lugar, muito domesticamente culpados, temos, para enfrentar tal desafio, um Estado Velho, filho de um pretenso Estado Novo que o PREC e a pós-revolução soarista e cavaquista não souberam agilizar em tempo de oportunidades perdidas. Porque o dito estado a que chegámos tem muita gordura, alguma celulite de brilhantina, mas continua ineficaz, com pouco músculo, nervos mal irrigados pela criatividade e ossos sustentadores descalcificados. Estamos cada vez mais anafadamente envelhecidos, psiquicamente desencantados e com alguns sintomas de depressão. Passámos do velho Estado-Cão da Guarda da Propriedade alimentado a impostos para um Estado Social, quando Salazar traduziu com meio século de atraso os modelos de Napoleão III e de Bismarck, mas esse pretenso segurador do socialismo catedrático e da Escola Social de le Play, segundo as cartilhas de Comte e as lições de doutrina social de Marnoco e Sousa, transformou-se em mera caridadezinha de um banco dos aflitos, entupindo o serviço de urgências, onde infelizmente se passou a ler o lema comunitário de que “o que é comum não é de nenhum” como coisa de que se pode abusar e que se pode estragar. Isto é, o estatismo intervencionista em Portugal destruiu a visão radical democrática segundo a qual o Estado não é um “lui” que nos é estranho e que se pode roubar, mas antes uma exigência do Estado sermos nós todos. O próprio socialismo de consumo agravou essas contradições culturais, porque nos apareceu uma espécie de Estado Ladrão, onde o ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão, como começa a emergir com todas estas denúncias não justiçadas sobre a corrupção.   cresce que temos uma cultura especial e uma herança política muito própria e que não podemos aplicar receitas feitas para outras índoles. Não podíamos tentar o modelo neoliberal de Thatcher ou de Blair, porque não temos uma sociedade civil autónoma, feita “establishment”. Nem podemos invocar terceiras-vias nórdicas, à finlandesa, até porque nos falta a tal ética protestante a nível do esforço produtivo. Do capitalismo apenas gostamos do hedonismo do consumo e de alguma sociedade de casino que desperdiçamos na lotaria.  Mas porque sabemos que de boas intenções está o inferno cheio, não vale também a pena inventarmos o que já está inventado nem descobrirmos o que já está descoberto. Porque podemos e devemos reconhecer que temos um feitio de sonhadores que gostam de procurar o paraíso e que, de vez em quando, acertamos no princípio do ovo de Colombo e somos capazes de flexibilidade reformista, quando colectivamente assumimos o desafio da mudança. Foi assim que fizemos e desfizemos um império africano em menos de um século, desde a Conferência de Berlim, a partir da qual começámos a subir as ladeiras das serras de Chela e a defender-nos pelo milagre de Tancos. Foi num ápice que passámos para a integração europeia, desde a EFTA e a CEE à presente UE. Tanto nos descolonizámos em 24 horas como até implantámos uma razoável democracia, escapando às garras totalitárias e à hipocrisia dos Kissinger que nos admitiam como a Cuba da Europa para vacinarmos a velha senhora contra o sovietismo. Por outras palavras, ainda podemos continuar este milagre de sermos independentes, mesmo que a independência seja gerirmos dependências, dado que a maioria dos factores de poder já não são nacionais e resta-nos a condição de bons alunos. Não nos espantemos pois com esta teatrocracia manifestativa, como a bem conseguida jornada da CGTP de ontem, feita com jerónima e democratíssima eficácia. A democracia é este modelo de institucionalização dos conflitos, onde o normal é haver destes anormais e onde governar sempre foi o mesmo do que gerir crises. Se é verdade que não temos alternativas a esta tirania dos blocos centrais com os seus centrões sociologicamente moles, onde há dois terços de remediados e apenas um terço de excluídos, apenas temos que submeter-nos para sobreviver e arranjar alternativas de sonhos que nos possam levar a lutar para viver, através de reformas que sejam mais colectivas do que tecnocráticas, mais políticas do que económicas e financeiras, para que o povão a elas possa aderir pela chamada confiança pública.  Daí que os governantes precisem urgentemente de estudar a antropologia das nossas virtudes e defeitos. Para que o que resta do Estado de Bem Estar não redunde no “out of control” do Estado de Mal Estar.

Out 12

Para que a universidade possa dar à luz, sem arder…

A reforma universitária, por exemplo, quase parece que acabou de se concretizar com a cerimónia de assinatura de mais um acordo com o MIT, com duas entrevistas televisivas sobre o futuro com o actual quase pretérito reitor primaz e com o passado candidato ao mesmo cargo, os quais nem sequer sabem dizer que o mais grave problema da actualidade se prende com a universidade está na circunstância de nela se ter imiscuído o vício do  Portugalório das minúsculas com a mania das grandezas a que chamam autonomia universitária, esse neocorporativismo de fachada que, em nome de uma falsa gestão democrática das escolas nem sequer repara naquilo que uma qualquer avaliação do bom senso chumbaria. Ninguém faz omoletas sem ovos… Ninguém faz universidades sem aquilo que os gestores qualificam como política de excelência e que os pensadores políticos clássicos inventariaram como a procura do melhor regime. Por outras palavras, sem professores melhores e sem alunos com mais qualidade, não há MIT que nos valha, nem sábio ministro que nos compense. Se eu pudesse ser ditador da coisa durante vinte e quatro horas, aplicaria o processo um dia sonhado por Guerra Junqueiro para aquilo que era a universidade portuguesa do respectivo tempo: incendiá-la para ver se ela poderia dar à luz uma qualquer luz. Isto é, muito metaforicamente, diria que basta usarmos os meios que temos para outros fins, invertendo o presente sentido das políticas suicidárias que nos encarquilham. Em primeiro lugar, assumindo a humildade democrática de reconhecermos a coisa universitária como um efectivo bem público, isto é, como um bem pago pelo contribuinte e que deve estar ao serviço da comunidade, do povo, da república, isto é, do futuro de Portugal, independentemente das instituições parcelares serem públicas, privadas ou concordatárias, porque mesmo as que estão ao serviço de Deus ou do lucro, são publicamente sustentadas. Nas efectivamente públicas, determinaria que se acabasse com a presente fragmentação destruidora, através de concentração de recursos e de efectiva descentralização centralmente controlada, através de duas simples medidas: concursos efectivamente nacionais, libertos da endogamia, e obrigatoriedade de passagem dos professores mais jovens pela periferia, antes de poderem aceder aos locais aparentemente privilegiados das zonas capitaleiras do Porto e de Lisboa. Julgo que a efectiva mobilidade e a real concorrência pelo mérito são o segredo das universidades anglo-americanas que estão nos primeiros lugares do “ranking” mundial. Adoraria que um terço do corpo docente de cada escola pudesse circular, todos os anos, de universidade em universidade, para que a coisa pudesse abrir as janelas e deixasse entrar ar fresco, mesmo que apanhássemos algumas constipações, as quais depressa se curariam se houvesse confiança pública numa lei de oferta e da procura e na verdadeira meritocracia. A presente gestão dita democrática é uma paródia de democracia, porque os reitores nem sequer são eleitos pelo sufrágio universal e directo dos corpos de docentes, de funcionários e de estudantes, mas pelas oligarquias de interesses estabelecidas pelo não mérito, onde as fórmulas de gestão acabam por nem sequer serem profissionalizadas. O país ganharia com a utilização dos métodos usados pelos países onde os resultados são bem melhores que os nossos e que não desperdiçam os recursos públicos pela criação de muitos quintais murados. Não vale a pena inventarmos o que já está inventado, nem descobrirmos o que já está descoberto. Nas minhas áreas científicas, por exemplo, sou francamente adepto da concentração das mesmas, começando por Lisboa, de maneira a que, em vez da vaidade capitaleira, possamos ter uma só capital, bem mais eficaz e bem mais pequena, onde não deixemos que as vaidades e os golpes clientares dos próprios ministros e ministérios criem, para uso dos delfins, escolinhas próprias e golpadas na distribuição dos subsídios, fora do controlo científico. Se me deixassem, delineava desde já um plano de emergência de uma política de Estado, à semelhança do que fazem unidades políticas como os Estados Unidos, o Reino Unido ou até a própria França, unificando esforços das universidades e dos ministérios dos estrangeiros e da defesa, procurando garantir que o interesse nacional deixe de andar a pedir subsídios a potências estranhas, ou a entidades financeiras e económicas estranhas ao interesse público, como presentemente acontece, neste Estado que deixou de, nestas matérias, de ter política de Estado e prefere terceiro-mundizar-se.

Out 10

Espreme, gota a gota, o resto de escravo que guardas dentro de ti

Regresso. Àquilo que eu digo ser a minha terra. Como se a pátria tivesse que ter uma terra, como se a pátria, minha, não fosse, desde sempre, a pátria prometida, a onda peregrina do navegar é preciso, viver não é preciso, como se navegar não fosse imaginar.  Regresso e confirmo: ainda sou, como muitos outros, desses portugueses antigos da velha cepa, desse povão silencioso que não precisa de adornar-se com as penas do estadão ou dos aristocretinos. Ainda quero ser de antes quebrar que torcer, desses que, desde sempre, trazem consigo a missão da procura do paraíso.  Regresso. Português antigo a quem continua apetecer voltar a ser um português à solta. Desses a quem apetecia ficar para sempre nessa ternura de todos os dias ter de escrever seu escrever-se.  Porque em qualquer lugar pode haver calor da tarde a despedir-se do sol, até que uma lua de prata lhe volte a dar a lua cheia que o vento amaine. Se ainda houver um qualquer mar que nos dê viagem. Mesmo que seja essa de apetecer continuar menino, brincando nos rochedos da baixa-mar, onde, nas breves piscinas, pode haver caranguejos, estrelas do mar e peixes de várias cores imaginadas.  Para que chegue a praia-mar, a força que vem do princípio do tempo, o corpo em sal diante do sol, o prazer da sombra em horas de meio-dia. Para voltar a ser quem sempre fui, resto de sol, semente de luz, diante do mar, olhando a brevidade de quem sou corpo. Sabe tão bem saber que de onde o sol nos vem está o próprio mar feito viagem, o oceano que será sempre poder-ser. Porque atravessando quem sou, feito de histórias que reconto, vou dizendo em mim a força de quem sonho. Para poder esquecer que apenas sou intervalo de uma viagem maior que desde sempre trago comigo.  Sou de uma pátria maior do que as andanças das cidadanias pequeninas. Dessas que se vingam nas dívidas de uma região autónoma, ou que se vão ornando com discursos de um procurador ou de um presidente.  Prefiro as muitas gentes de uma gente armilar, bem mais imensa, bem mais diversa. Sou do tamanho do que ainda posso sonhar de Portugal. Do que foi e do que há-de ser.  Não quero volta ao linguajar de comadres num quintal estendendo a roupa suja, branqueada com amaciador do mais do mesmo.  Prefiro o tamanho universal dos que procuram, embora não consigam, o mundo inteiro abraçar. E continua a apetecer largar de mim estes lastros de um passado agrilhoado, agora perdido nos muitos micro-autoritarismos subestatais e comunicacionais. Onde muitas estrelas cadentes reflectem um brilho que lhes vem do longe, mas sem serem sequer iguais aos astros sem luz que causam as marés.  Nos outros prefiro continuar a achar estes restos se uma saudade de futuro, estes restos de procura que me fazem pedaço de um novo tempo por cumprir. Porque ontem foi segunda-feira mesquinha, neste ouvir as novas de uns pequeninos que se pensam Portugal só porque são ministros, ou líderes de uma oposição que já foi ministra, e que brincam aos discursos de reforma, como se as causas da tirania situacionista pudessem mudar as condições que lhes permitiram mandar em nós.  Porque ontem passeei por entre um povo que continua a ser encarneirado para cumprir horários ou preencher formulários e a quem proíbem a esperança de procurar. Vale-me que dei aulas. Umas horas de aulas. E senti que do outro lado estava gente que senti do mesmo lado. Olhos de esperança. Vontade de cumprir uma missão. De peregrinar o mundo inteiro. De largar desta prisão murada pelos mandadores de sempre.   E voltei citar o velho lema de Sá de Miranda. E a dizer o que aprendi em Soljenitsine e Tchekov: espreme, gota a gota, o resto de escravo que guardas dentro de ti.