Dez 15

AS FRASES QUE NOS HÃO-DE SALVAR JÁ ESTÃO TODAS ESCRITAS, FALTA APENAS SALVAR-NOS

Atirei com bolas de oiro

à janela do morgado.
Acertei na morgadinha.
Ai Jesus! Estou desgraçado!
Ai Jesus! Estou desgraçado!
Ai Jesus vou p’rá cadeia!

Depois de sabermos que o Sporting de Braga conseguiu passar para a fase seguinte das competições europeias e de se confirmar a nomeação de Maria José Morgado para a centralização dos processos de investigação relativos à corrupção no futebol, o país acordou descansado e disponível para ouvir o chefe do grupo parlamentar do PP-CDS anunciar o lançamento da candidatura de Paulo Portas à substituição de Zé Ribeiro e Castro, agora que Maria José Nogueira Pinto está mobilizada pelo “não” à IVG e que Manuel Monteiro se congratulava com o discurso da magistrada Morgado no Congresso do seu PND. As tribos desavindas do Largo do Caldas continuam sem marcar um golo à Braga e assim não acederão à fase seguinte da competição política, nem com a gratidão da Conferência Episcopal Portuguesa.

Acertei na morgadinha
que estava a fazer meia.
Que estava a fazer meia
que estava no seu balcão.
Acertei na morgadinha
foi mesmo no coração.

Esperemos que a magistrada consiga transformar em prática os respectivos discursos em tudo o que é “agenda setting”, que consiga transformar as respectiva “verba” numa eficaz “res” para bem da coisa pública e da necessária confiança do povo naqueles que, constitucionalmente, administram a justiça em nome do mesmo povo, mesmo que agora tenha de encerrar-se na exigente gestão dos silêncios. Esperemos que a montanha não venha a parir os ratinhos que, às vezes, se sucedem aos gémitos imensos.

Foi mesmo no coração
onde havia de acertar!
Agora vou p’rá cadeia
ninguém me pode salvar.

Preferia que tudo acontecesse segundo as clássicas regras da eficácia, como aconteceu com a estrutura judiciária de Coimbra sobre o processo que envolve o presidente da AAC, que só veio para os jornais no dia seguinte, embora reconheça que, neste momento, a PGR tem que saber lidar com o facto consumado, dos presentes julgamentos populares da opinião pública. Preferia que, em vez das presentes tragicomédias, em ritmo de telenovela, surgisse por aí um ministro da justiça que repetisse o modelo do ovo de Colombo, batendo à porta de um qualquer José Alberto dos Reis e optasse por uma limpeza científica nesta sucessão de reformas processuais, para que o urgente Manuel Rodrigues não seja mais uma vez um ministro da Ditadura Nacional.

De outra maneira, poderá ser que se opte pelo modelo do relatório alienígena, como acontece com o presente relatório da OCDE sobre o ensino superior em Portugal, com Alberto Costa a utilizar o modelo de Mariano Gago, pedindo aos juízes Baltazar Garzón e António Prieto que façam um relatório sobre a nossa endogamia, conservadora do que está, depois de não saber conservar o que deve ser. E de relatório em relatório até podemos abdicar dos restos da nossa autonomia pensante, até podemos extinguir a nossa própria liberdade nacional, abrindo um concurso público internacional de consultadoria para a própria governação.

 

 

 

Depois de breve incursão naquele Portugal profundo que é a barresiana pátria, a terra sagrada pelos meus mortos, volto ao circuito capitaleiro, das grandes novas do Estado a que chegámos e do universo televisivo, feito à imagem e semelhança de um país bem pequenino: o dos valores dos colégios pretensamente finos do capitaleirismo que formaram esta geração que pretende controlar a nossa opinião pública, onde os heróis cívicos têm que ser ex-MRPPs como foi a mamã, nos velhos tempos do PREC, quando falava em libertação, só porque tinha no quarto um poster do “make love, not war”. Reparo que os discursos dos políticos continuam perdidos no inferno das boas intenções, onde continua a ter razão quem vence e onde, há muito, não vence quem tem razão.

Reparo que continuamos a ter medo de sermos quem devemos ser, esta mistura de pragmatismo e aventura que nos levou a dar novos mundos ao mundo, mas que hoje se vai diluindo nesta mesquinha procura do antes torcer que quebrar, com cedência aos neofeudalismos e neocorporativismos, especialmente quando a cidadania se esgota no indiferentismo. Porque continuamos dominados por aquela falta de organização do trabalho nacional que raramente consegue praticar a urgente avaliação do mérito.

Temo que continue esta falta de autenticidade dos políticos profissionais que tivemos de eleger e que se acentue o fosso entre as expectativas geradas e a constante falta de respeito pela palavra dada, levando a que se torne regra este processo segundo o qual, na prática, a teoria é outra. Bem gostaria que a honra voltasse a casar-se com a inteligência, que a moral voltasse a guiar os homens livres e que a economia não subvertesse a política.

Ouço que Saddam vai ser enforcado nos próximos trinta dias, temo que a guerra internacional contra o terrorismo assente na falsa ideia do conflito de civilizações e que a república imperial que resta não volta a ser luzeiro das liberdades e da justiça.
Reparo que Sócrates e os socialistas que nos governamentalizam correm o risco de nos continuar a salazarizar, em nome de uma Europa de merceiros e contabilistas, enquanto a sociedade civil continua a rimar com Pinto da Costa e o PSD não consegue ser oposição ao Bloco Central, ao memso tempo que o CDS não consegue sair da sacristia e todos se diluem num ritmo de “agenda setting” fiel ao conceito dos mecenas bancários.

Bem apetecia que a União Europeia caminhasse do Atlântico para os Urais e integrasse Bizâncio, para que a igrejinha de Mértola voltasse a ser templo, sinagoga, mesquita e capela do monte. Para que os socialistas fossem mais liberais por dentro, para que os comunistas se convertessem ao pluralismo e os direitistas se tornassem menos reacionários. Para que também desaparecesse este refúgio de um centro mole e difuso e surgisse o necessário centro excêntrico, onde muitos pudessem radicalmente militar, sem necessidade de serem queimados como extravagantes, só porque não querem descobrir o que já está descoberto, nem inventar o que já está inventado.