Continuam as parangonas e as parábolas sobre os muitos Salazar

Continuam as parangonas e as parábolas sobre os muitos Salazar inhos que nos sitiam bem por dentro dos nossos fantasmas de direita e preconceitos de esquerda, sobretudo entre os tais centristas homens do poder que se transformaram nos feitores dos ricos, quando se mantêm autistas, reaccionários, implacáveis, mas parecendo sedutores e inteligentes, para roubar palavras a Fernando Dacosta. Porque eles são os escravos que nos sanguessugam, as eternas cadeias vivas da nossa servidão voluntária. Prendem-nos por dentro e alastram como mancha difusa nesta “fashion” capitaleira e burguesóide que vai proliferando sem botas de elástico. Salazar não passa desse estado de espírito que nos sustém porque o diabo são os outros, esse alguém semi-imaginário, semi-real, que vem sempre da outra banda de quem somos e de quem dizemos que tem o monopólio das mãos sujas só porque as não lavou como Pilatos. Mas a grande burguesia que se amancebou com os restos do baronato devorista e que se continua a dizer fidalga de tantas concubinagens históricas, esconde-se atrás dos raros filhotes que eram da oposição, porque tinham as costas largas e dá ao tal diabo o carimbo das rurais origens e trejeitos, porque era das Beiras, falava “axim” e até tinha uma Dona Maria como governanta de São Bento, onde mantinha um galinheiro e morreu virgem.  Para os homens da finança que também invocam a circunstância de terem sido mecenas dos intelectuais antifascistas, depois de darem uns subsídios-anúncios à revista da PIDE, ele tanto era o catedrático que media o poder pelo saber, como o burocrata que geria corruptos, mas era incorruptível.  Mas Salazar não renasceu porque, afinal, nunca caiu da cadeira. Foi atirado ao mar por Dona Maria e volta agora com as marés vivas do desencanto que estão furando as dunas, entre a tecnocracia da “révolution d’en haut” e os micro-autoritarismos subestatais do neocorporativismo e do neofeudalismo que vão fragmentando a autoridade do Estado.   Não falta sequer o regresso do caceteirismo, conforme confessou publicamente uma dita veícula de transmissão, depois de quebrar o eixo na cabecinha de um vereador Bexiga, ex-deputado socialista e tudo. Esperemos que a turbulência não leve à tradicional manifestação de massas das elites, como já fizeram os deputados dragões no parlamento, porque seria uma má perua repetir a dita festança pelo natal. Está em causa o dito aparelho de Estado que, segundo a Constituição, administra a justiça em nome do povo. Porque é o próprio povo institucionalizado em Estado que pode ser posto em causa, se os apitos e furacões se casapiarem e se camaratizarem, em ineficiências dilatórias e muitas barganhas que deslustrem o garantismo, sem conseguirem agarrar o Al Capone por uma simples fuga ao fisco. A cidadania pode desintegrar-se pelo indiferentismo, se não assumirmos que, no princípio, têm de voltar a estar os princípios, que, no princípio, tem de estar o fim, que, no princípio, será sempre o verbo e não a verba que voa. Porque o elemento fundacional do próprio comunitário vivido é a palavra posta em discurso que, segundo o étimo grego, sempre foi logos, que não deve ser traduzido por um restrito conceito de razão, como simples soma analítica de rácios, conforme transparece da presente monomania tecnocrática do custo-benefício, onde Teixeira Santos esquece que também Cristo não sabia nada de finanças, ao contrário de Francisco Louçã e de Alberto João Jardim.  Porque, citando o primeiro, ilustre doutor em economia, “estamos à beira do maior perigo da corrupção no sistema social a apropriação brutal de piratas que mandam nos clubes de futebol, nas empresas de construção e que jogam na especulação imobiliária e em algumas câmaras municipais”. Porque, citando o segundo, o mais maioritário dos nossos políticos da democracia, “não há que fazer o jogo daqueles que na área do PSD também querem estar a comer da gamela do sistema político”, “o inimigo número um do povo madeirense é o senhor Sócrates, o Senhor Santos e seus colaboracionistas”. “Nós vamos participar em todas as lutas políticas, em todas as lutas sociais, em tudo o que seja desencadeado para ajudar a derrubar o Governo Sócrates “, disse. Talvez seja melhor regressarmos ao aristotélico e tomista estilo do conhecimento modesto sobre coisas supremas, não nos dispersemos nas picuinhices gélidas de certo filosofismo esotérico que nos faz definhar nessa espiral de metodologismos fragmentários que pensam obter um pretenso conhecimento supremo sobre coisas modestas. Por isso aí estão essas eternas discussões do sexo dos anjos entre os que se desgrenham em bizantinices que fazem da política um arrazoamento esdrúxulo que tudo reduz a discussões na especialidade de um orçamento de Estado que deixou de ser geral

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