Porque já choveu em Santiago

Depois dos primeiros exercícios de miniférias dezembrinas, regressamos à rotina, preparando as próximas miniférias do Natal e do Ano Novo, ficando a saber que a Direcção Geral dos Impostos (DGCI) instaurou mais de um milhão de contra-ordenações por prática de infracções fiscais entre Janeiro e Novembro deste ano, que morreu Augusto Pinochet e que hoje se comemora o 10º aniversário da Fundação Mário Soares, enquanto o Portugal dos homens comuns exercita as memórias delatórias e a luta de invejas, lendo os parágrafos escaldantes de um caso de polícia, o da alternadeira feita primeira dama da futebolítica, e rindo de si mesmo com as glosas vérmicas do Gato Fedorento. Os meus votos de boas festas vão para a estrutura policial e do Ministério Público, para que tenham um ano novo e muitas prosperidades no cumprimento do respectivo dever, o de serem servidores do bem comum, contra a fragmentação neofeudal e os privilégios corporativos dos que se pensam fidalgos do “ancien régime”.

Quanto a Pinochet, que lhe mantenham a pedra em cima, mas que reparemos que ele não passa de mais um na longa fila dos traidores dos princípios. Basta recordar que também entre nós, nas vésperas do 28 de Maio de 1926, alguns governantes maçons, como era Salvador Allende, acabaram por nomear militares maçons, como era Augusto Pinochet, pensando que maçons e militares poderiam ser leais aos princípios e às instituições da legitimidade, assentes no voto popular. Que viva a democracia e o Estado de Direito e que não volte chover em Santiago, em Braga ou em Lisboa.

Quanto à Fundação Mário Soares, basta percorrermos o que está disponível na Internet para saudarmos a bela obra de recuperação da memória já semeada por um dos mais ilustres pais-fundadores deste regime, congratulando-nos com os parcos subsídios do Estado que a ajudaram a crescer. Que o exemplo fique para outros grandes políticos da nossa praça! Que escapem às garras dos caprichos de presentes e futuros ministros e dos eventuais salazarinhos subestais que ocupem a administração, directa ou indirecta, da dita administração do futuro aparelho de Estado! Ainda bem que, nesse exercício de serviço público, a coisa cabe a uma entidade publicamente constituída, mas dependente do estatuto dos homens livres… Já estou farto que actores políticos, em pleno exercício de funções públicas, tenham que comentar exposições de pintura de artistas mortos com a pneumónica ou que tenhamos de gramar exercícios espirituais de explanação ideológica por damas dos ditos.

Quanto ao mais recente caso de polícia, onde o “voyeurismo” delator já ocupou o conceito de livro, com a antiga editora de Snu Abecasis, depois de espanholizada, a entrar em concorrência com a imprensa sensacionalista, apenas nos enoja que certa populaça volte a ser animada pelos mais rascas atavismos que sempre conduziram ao descarrilamento moral da pátria.

Por outras palavras, cuidado com os pinochetinhos e os salazarinhos que nos continuam a vermizar. Podem chamar-se autoras de confidências policiais, ou manifestações de benfiquistas em hipermercados durante lançamentos de coisas chamadas “livros”, entre ódios e invejas. Prefiro estudar os sistemas dos Estados de Segurança Nacional e de autoritarismos modernizantes, semeados pelas doutrinas da CIA nos anos sessenta e setenta, relendo o tratado de geopolítica de Augusto Pinochet, os manuais de segurança nacional de Golbery do Couto e Silva ou as traduções em calão que, por cá, se fizeram dos ditos, num processo bem descrito pelas encíclicas do papa João Paulo II. Apenas espero que a Fundação Mário Soares abra um capítulo sobre a matéria, com toda a politologia que ainda lhe falta.

Ainda também não fizemos a necessária purga da verdade sobre o próprio 28 de Maio de 1926, com a longa lista de traidores à I República, transformados em “viracasacas” pelo Estado Novo, à imagem e semelhança dos traidores à monarquia liberal, transformados em “adesivos” pelo afonsismo. E já o podemos fazer, porque o nosso péssimo regime é o menos péssimo de todos quantos temos tido, dado serem insignificantes o mesmos tipos de traidores. Por isso, saúdo, de forma politicamente incorrecta, figuras como as de Mário Soares, de quem nunca fui seguidor ou membro da Corte, especialmente quando a presente sondajocracia o detesta, em nome das modas que passam de moda e das maiorias conjunturais, incluindo as dos blogues, até dos blogues meus amigos, que o elegeram como o pior português da história, como se a história dependesse dos apetites da populaça que gosta de transformar bestiais em bestas e bestas em bestiais.

Por isso, como homem do contra, continuo a preferir o poema de alguém que foi assassinado pelos mesmos césares de multidões, um tal Frederico García Lorca, que cantou sobre outra chuva, caída sobre outra Santiago e que será eterno:

Chove en Santiago
meu doce amor.
Camelia branca do ar
brila entebrecida ô sol.

Chove en Santiago
na noite escura.
Herbas de prata e de sono
cobren a valeira lúa.

Olla a choiva pol-a rúa,
laio de pedra e cristal.
Olla no vento esvaído
soma e cinza do teu mar.

Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol.
Ãgoa da mañán anterga
trema no meu corazón.

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