Jan 06

No princípio tem de estar o fim…

No “day after” ao hastear de uma bandeira própria que, aliás, não consta graficamente do “site” da AR, o principal dos nossos órgãos de soberania assumiu-se como efectiva arena da partidocracia, mandando para o domínio da hipocrisia o que resta de democracia directa: o direito de petição. A equipa da reforma da administração central do Estado viu assim confirmada a paralamentarização do conceito de “l’État c’est moi” e os cidadãos que não se reconhecem nos mecanismos de canalização da opinião pública, a que damos o nome de partidos, correm o risco de alinhar com o modelo retórico de desespero gritante assumido por Manuel Monteiro, sobre a questão da Ota.

Até porque, na minha última intervenção de “inconformismo responsável”, mas sujando as mãos numa candidatura a deputado, alinhei com um programa de projecto partidário e com um programa de candidatura distrital que o actual partido do fundador do PP e do seu grupo de amigos de sempre, legitimamente revogou, já depois de a maioria dos autores dos textos fundacionais da instituição, de um Paulo Ferreira da Cunha a um Carlos Abreu Amorim, se terem descontratualizado daquilo que era um ponto de encontro de independentes e ex e futuros militantes do PS, do PSD e do CDS, em torno de um modelo liberal, com gentes do humanismo cristão e do humanismo laico, que nem sequer estavam, como grupo, à direita do então PSD.

Basta passar os olhos pelos registos desse novo Arquivo da Torre do Tombo, chamado blogosfera, para percebermos como é que um defensor da regionalização e do radicalismo liberal não poderia subscrever o combate à Ota, precisamente uma das bandeiras do então projecto de partido, na candidatura por Leiria. Ser heterodoxo, mas coerente, tem os custos da renúncia que costumam sofrer os homens livres, os tais que continuariam a subscrever tudo quanto propuseram aos cidadãos como contrato eleitoral, sempre assumido como um testemunho de experiência cívica, onde quem não vence pode ter razão.

Por mim, tenho sujado as mãos algumas vezes. Candidatei-me a deputado pelo CDS de Lucas Pires por Beja, contra a reforma agrária e por Alqueva, contra o cavaquismo. Voltei à arena como candidato do mesmo partido por Braga, ao lado, e a seguir, ao José Luís Nogueira de Brito, quando o CDS ficou com a dimensão do táxi, ainda contra o cavaquismo, ainda em nome do nacionalismo liberal. Regressei numa candidatura ao Parlamento Europeu, com a mesma ideia, e contra a frustrada constituição valéria. Estou assim em condições de elaborar um belo manual de crónicas de várias eleições perdidas por quem jogou sempre fora das torres de marfim e preferiu alinhar naquilo que todos viam como capítulos da história dos vencidos que adoram o prazer do jogo democrático.

Paradoxalmente, até cheguei a formal deputado em São Bento sem o saber. O presidente do meu grupo parlamentar, que entrara como substituto do Francisco Lucas Pires, apenas me comunicou a circunstância um quarto de hora depois de já o não ser, cumprindo ordens do presidente do respectivo partido, o tal que escreveu recentemente um livro de memórias sobre quinze meses como ministro dos estrangeiros do PS e a quem sempre me opusera… Quem tiver dúvidas que consulte os registos de São Bento!