Jan 08

A angústia de um cientista social com manias neokantianas e revolta contra o charlatanismo dos que assaltaram cientificamente o Estado

Daqui a bocado, vou dar as primeiras aulas do ano de 2007 em duas licenciaturas de ciências sociais que, segundo o método da generalidade e da abstracção, estão hoje no “index” das notícias do dia, porque, no ano lectivo 2005/2006, indica o Observatório da Ciência e do Ensino Superior, havia quase 116 mil alunos inscritos em cursos de ciências sociais como direito, história, filosofia, geografia ou sociologia, cursos baratos, de papel e lápis. A segunda área com maior número de alunos aparece a grande distância engenharias, indústria transformadora e construção, com 80 mil inscritos. São, portanto, as ciências sociais que mais licenciados formam todos os anos e um número significativo acaba nos centros de emprego. Em Outubro, o IEFP somava quase 16 450 pessoas inscritas como desempregadas, com origem num destes cursos. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mas de 2005, apontam para mais de 13 mil os licenciados oriundos destas áreas e no desemprego.

Muito próximo das ciências sociais estão as licenciaturas ligadas à educação e formação de formadores que, em Setembro, chegam mesmo a atingir o primeiro lugar na lista dos mais desempregados do IEFP, fruto das não colocações de professores nos concursos públicos do Ministério da Educação. Em Outubro, 60% dos desempregados de canudo tinham um curso de ciências sociais ou de educação.

Faço assim parte dos portugueses de segunda, dos professores universitários de segunda, das universidades de segunda. Porque, além de uma licenciatura em direito, sou doutor em ciências sociais, na especialidade de ciência política, com uma agregação também em ciência política e dois concursos públicos para associado e catedrático, também na área das ciências sociais.

Reparo, contudo, que, com as minhas qualificações académicas, não chegamos em Portugal à meia dúzia. E, no âmbito dos doutorados com especialidade nas áreas globais da ciência política e das relações internacionais, quase bastam os dedos das minhas mãos e dos meus pés para os contar. Paradoxalmente, o senhor Estado autorizou que, pela charlatanice da multiplicação dos pães, através da cunha e da golpada, frutificassem mais cursos do que o mesmo padrão dos meus próprios pés e mãos.

Basta reparar que, na área jurídica, chegaram a existir mais licenciaturas do que doutorados e que hoje, qualquer faculdade de letras sem alunos se estendeu à area das ciências sociais, tal como vemos teólogos a proliferarem nessas zonas de pretenso misticismo, dado que a avaliação do mérito nos domínios da teoria continua a viver em conúbio com o próprio charlatanismo.

Acresce também que sou professor de uma centenária escola de ciências sociais, onde, pela técnica do “cluster”, não havia desempregados até que chegou o sistema das avaliações e dos especialistas estaduais em estatística…, esses que talvez não saibam que “estatística” foi o primeiro nome da ciência do Estado e que “cibernética” foi um neologismo que Norbert Wiener foi buscar à expressão grega de “governo”, num MIT que sempre cultivou as tais ciências sociais que o pretenso cientismo terceiromundista, que recentemente nos invadiu, agora demoniza.

Como denuncia Sartori, “há filósofos disfarçados de cientistas”, tal como existem charlatães em busca de misturas de literatura, filosofia, política, quem sabe, também de poesia e outros ingredientes”. Não podemos, contudo, deixar de reconhecer que também há cientistas que mais não fazem do que dar uma ilusão de cientificidade a uma determinada ideologia e, muito aristotelicamente, que a poesia pode ser mais filosófica, no sentido de mais verdadeira, do que a história.

Diz Popper que “todos somos vítimas do nosso próprio sistema de preconceitos…todos consideramos muitas coisas como evidentes por si mesmas; de que aceitamos sem espírito crítico e, inclusive, com a convicção ingénua e arrogante de que a crítica é completamente supérflua”. Vale-nos que o Presidente Cavaco vai agora descobrir o caminho comercial para a Índia, levando consigo essa cientificidade pura que é o secretário de Estado Manuel Heitor, talvez porque o principal dirigente de Nova Delhi é um físico nuclear, mas que também é poeta.

Entre a teoria e a prática, apenas podemos dizer que o Estado é teoricamente prático e praticamente teórico. Saber se “o que é verdadeiro em teoria também o é na prática”, como dizia Kant, em 1793, ou se “a prática é tanto melhor quanto mais prática;a teoria é tanto melhor quanto mais teórica”, como replicava Vilfredo Pareto, é tarefa ingrata. Até porque nestes domínios talvez se aplique a caricatura que nos diz que “na prática a teoria é outra”.

Também o nosso Fernando Pessoa considerava que “toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria”.

Do mesmo modo Leo Strauss, quando considera que “a filosofia ou ciência a mais alta actividade do homem é a tentativa de substituir opiniões acerca de todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas”, pelo que “respeitar opiniões é algo completamente diferente de aceitá las como sendo verdadeiras”, porque haveria um verdadeiro ensinamento, o ensinamento esotérico, e o “ensinamento socialmente útil, ou seja, o ensinamento exotérico; enquanto este é de compreensão fácil para qualquer leitor, aquele só se revela aos leitores muito bem e cuidadosamente preparados, após um estudo demorado e concentrado”.

Mais recentemente Jürgen Habermas salienta que a teoria como “contemplação do cosmos”, como contemplação da “ordem imortal”, leva o teórico a ter que se “assemelhar à medida do cosmos, de, em si mesmo, o reproduzir”, dado que a teoria “mediante o ajustamento da alma ao movimento ordenado do cosmos, penetra na praxis vital a teoria impregna a vida com a sua forma, reflecte se na atitude daquele que se submete à sua disciplina , no ethos”, dando-se um “ajustamento mimético da alma às aparentemente contempladas proporções do universo”.

Entre nós, o idealismo neokantiano de António Sérgio chega à conclusão que “uma teoria é comparável a uma renda de bilros toda ela tecida pela nossa mente, e para a qual a sensação deu alguns alfinetes, e nada mais do que alfinetes”. Para este autor, “a origem do pensar não está fora dele, e de que o seu ponto de partida já é pensar”. Considera que “o pensamento não seria estruturação de quaisquer ‘dados’ prévios, não teria unicamente uma função ‘expressiva’, mas seria algo ‘construtivo’ e activo; algo indecomponível em que se cria o objectivo pelo ordume das malhas das relações conceitos, produto do acto mental do juízo. Todo observar seria de facto um operar. O espírito (por outras palavras) seria criador já nos seus feitos mínimos, já no que chamamos dado”. E isto porque “aquilo que se chama um ‘facto’ seria sempre no âmago uma construção mental,uma estruturação do intelecto … desde o início o papel da inteligência seria essencialmente activo, tomando a iniciativa das perguntas e a iniciativa das respostas … não haveria factos com anterioridade à ideia”

Na verdade, como assinala Raymond Aron, “poucas palavras são tantas vezes utilizadas pelos economistas, sociólogos ou politólogos como a de teoria, poucas conduzem a tantos equívocos”. E isto porque a palavra tem duas significações e duas tradições.

A etimológica que confunde teoria com filosofia e a considera como o conhecimento contemplativo da ordem essencial do mundo.

A cientista, marcada pela vontade do “saber para prever e poder”, que a considera como “um sistema hipotético dedutivo constituído por um conjunto de proposições cujos termos são rigorosamente definidos e onde as relações entre os termos (as variáveis) revestem as mais das vezes uma forma matemática”.

Ora, acontece que quem trata de política sente, por vezes uma espécie de complexo de inferioridade face a outras ciências sociais, como , por exemplo, a matematizável economia pura, e trata de assumir se como “científico” à imagem e semelhança das ciências da natureza.

No fundo, como que está a atribuir um carácter de ciência subdesenvolvida à ciência que não é ciência dita exacta.Está a esquecer que o teórico se pode, no princípio, ser hipotético-dedutivo, acaba, como conclusão, por pisar os terrenos da grande interrogação da teoria contemplativa.

Basta que tenha necessidade de integrar os fenómenos que não se repetem, que são os acontecimentos da história, produzidos pelos seres que não se repetem, que são os homens, no todo da existência humana.

Porque, como dizia Pascal, “o homem supera infinitamente o homem”. Porque não é a história que faz o homem, mas sim o homem que faz a história. Porque o normal é haver anormais…

Aliás, Aron, acaba por concluir, quanto à teoria das relações internacionais , que, no fim do itinerário, o “conjunto” levou o , contrariamente ao que pensava no começo, à “determinação do sistema inter-estadual” e à “prudência do homem de Estado”, passando pela “análise das regularidades sociológicas e das singularidades históricas”, o que “constitui o equivalente crítico ou interrogativo de uma filosofia”. Isto é, ele que quis começar por ser cientista de uma teoria cientista, acabou por ser cientista de uma teoria contemplativa.