Jan 18

Um quarto de hora antes de morrer, o regime ainda fazia discursos

Hoje, a minha escola comemora o 101º aniversário do diploma legal que a instituiu. Era chefe de Estado o senhor D. Carlos e chefe do governo o senhor José Luciano de Castro Corte Real. Estávamos em monarquia, a dois anos do regicídio, e ainda havia um partido progressista. Um quarto de hora antes de morrer, o regime ainda estava bem. Vieram mais três regimes e a escola, apesar de vários diplomas que lhe decretaram o fim, ainda sobrevive, mesmo sem resistir, nem que seja submetendo-se para sobreviver, para que venha a hora de lutar, para continuar a viver. Nas escolas e nos países, já não há homens-lobos-dos-homens, mas antes homens-ratos-dos-homens, porque os lobos apenas defendem os respectivos territórios e não comem os da mesma espécie, como claudicam os que não andam de espinha de rectum. Por cá os ratos, vestidos de homens, invocam o transcendente sem imanente e fazem discursos, para que chorem as pedras das calçadas, lavam as mãos como Pilatos e mandam libertar o Barrabás, iludindo-se com muitos micro-autoritarismos subestatais. Como observava Américo Tomás, nas suas memórias, no primeiro dia do ano de 1974, tudo se passou como em iguais dias dos anos imediatamente anteriores… Estamos a referir-nos, evidentemente, àquele venerando chefe de Estado que iniciou, às 22 horas do dia 24 de Abril de 1974, a sua última visita oficial, à Feira das Indústrias, na Rua da Junqueira. Porque às 22 horas e 55 minutos transmite-se a senha para o desencadear do movimento através dos Emissores Associados de Lisboa: a canção de Paulo de Carvalho E depois do adeus. Porque às 0 horas e 25 minutos a Rádio Renascença emite a canção de José Afonso Grândola Vila Morena, senha confirmadora do movimento Apetecia inscrever-me no espírito do Pacto da Granja, participando, como membro dos reformistas na necessária aliança com os históricos, em nome da Maria da Fonte, do desembarque no Mindelo e do Sinédrio. Sempre gostei muito do Manifesto de Frei Francisco de São Luís de Dezembro de 1820. É por isso que estarei logo ao fim da tarde, mesmo sem poder estar presente, na Torre do Tombo, para saudar o Edmundo Pedro e os seus Combates pela Liberdade. A coisa já vem de Gonçalo Annes Bandarra que escreveu as trovas antes de D. Sebastião nascer. Por isso, meu caro amigo que, ontem, me aconselhavas a ter cuidado, quero confessar-te que há por aí alguns portugueses da antiga fibra, do antes quebrar que torcer, que ainda têm espinha e não têm medo. Melhor: que têm o cuidado de não ter o cálculo dos cuidadosos, esses que procuram, sempre, estar na fila da frente para saudarem os vencedores, batendo palmas, batendo latas. Aprendi a dizer o não do homem livre que tem a coragem de estar em minoria. A liberdade nasce sempre da memória do sofrimento e só o entende quem souber ler esta frase de Pessoa: “vencer é ser vencido”.