Jan 20

Entre vanguardas e correias de transmissão…

Dos milhões os portugueses que restam e que podem ser cidadãos activos no âmbito dos mecanismos da actual democracia representativa, constitucionalmente vigiada, o principal problema político está nas canalizações participativas e nos encenadores do palco mediático que censuram as notícias e estabelecem a agenda política. Os sucessivos filtros de controlo que se estabelecem entre o que foi a maioria silenciosa, ou silenciada, e a inevitável minoria gestora dos aparelhos de poder, são às vezes denunciados por meia dúzia de acasos que fazem com que os bestiais passem a bestas e os salvadores a meros salvados, expostos na tralha do ferro velho. Tal como há cerca de cem anos, para parafrasear Pessoa, em Portugal há apenas cinco por cento de monárquicos e cinco por cento de republicanos. Os restantes noventa por cento dependem das tais canalizações participativas e dos encenadores do palco mediático que censuram as notícias e estabelecem a agenda política. Antigamente chamavam, aos activistas, a vanguarda e até se teorizavam os conceitos de correias de transmissão. Hoje, a distância que vai do país das realidades ao país oficial já não se mede pelo conceito de ministro ou de funcionário público, mas antes pelos novos elementos de compra de poder, onde públicos e privados se confundem no regabofe. Entre sobreendividados e enfuracados, há dezenas de milhares de contas bancárias congeladas pelo fisco, neste processo de caloteiragem em curso, onde há transmissões em directo de penhora de antigos heróis mediáticos, enquanto discutimos se os embriões são pessoas humanas, como nega um bispo, com algum bom senso, contrariando a propaganda clerical que continua a insinuar que quem diz sim ao referendo é um adepto do aborto, enquanto o sargento de Torres Novas volta a colocar o problema das leis injustas e dos tribunais que, de silogismo em silogismo, não conseguem garantir aquela clássica hierarquia que põe, acima das leis positivas, tanto o direito como a justiça. Anda tudo trocado. A Igreja e as igrejas pedem que os tribunais, os polícias e as cadeias transformem as ordens normativas da moral e da religião em zonas protegidas pela coacção estadual, assim negando a autonomia da moral, enquanto ciência dos actos dos homens como indivíduos e o transcendente da religião que não pode continuar a situar-se no chanfalho do relaxamento ao braço secular. Os caloteiros e os corruptos brincam às dilações processuais e às evasões fiscais, com muitos garantismos hipócritas e dezenas de requerimentos ao abrigo do código do procedimento administrativo, para sucesso do emprego dos licenciados em leis e cânones, sem direito nem justiça . E a secção manhosa do povinho que acreditou nas patranhas do bacalhau a pataco e do enquanto o pau vai e vem folgam as costas ainda não se consciencializou que nesta quinta dos animais falantes somos todos iguais, mas há sempre alguns mais iguais do que outros. Continua a não haver moralidade e, depois desta interrupção, nem todos os mexilhões vão comer. O programa do sistema vai seguir dentro de momentos e é melhor continuar a jogar no Euromilhões.