Esse falso D. Sebastião científico que nos continua a ilusionar. Um revolucionário não pode ser humanista…

Há quem seja da situação e quem seja do contra, especialmente os que agora são situação e ontem eram do contra, diferentes, mas iguais, face aos que hoje são do contra e ontem eram situação, num toma-lá-dá-cá deste modelo de modorra e paz putrefacta, com plurisseculares cumplicidades. Há também muitos antigos piratas ornados com os chapéus de coco da respeitabilidade banqueira, as becas clericais ou as flores de estilo dos encartados intelectuais. Há, sobretudo, os cronistas e homens de letras que andam de mão estendida, para venderem linguados aos jornais comprados com dinheiro branqueado pela pouca vergonha do latrocínio e da corruptela. Todo o sistema tem o seu centro de irrigação sanguínea assente num qualquer “off shore”, todo ele “out of record”, onde impera o vazio de regras, onde não há moralidade e onde só os detentores da super “inside information” é que vão mamando. Conheço muitos ilustres catedráticos que estão disponíveis para aceitação de uma avença de Alves dos Reis e muitos homens de letras que venderão a pena para biografarem um qualquer vigarista de dente dourado e unha adunca de assassino por procuração. Poucos são os homens livres que podem continuar a atirar pedradas. São poucos, mas são suficientes. E podem vir a desmentir um dito do fundador da extrema-esquerda lusitana, o “Xico” Martins Rodrigues, segundo o qual um revolucionário não pode ser um humanista. Porque muitos dos que justificam a violência genética da ditadura ou da revolução têm as mãos sujas de sangue, mesmo que o crime tenha prescrito com esse decurso do tempo a que chamamos pós-autoritarismo e pós-revolução. Porque rara é a propriedade que não assente no roubo, como nos ensinou Proudhon. Tal como escasso é o poder instalado que não tenha tido um impulso genético de não-humanismo. Os nossos sucessivos situacionismos, marcados pela hipocrisia sacrista do equilibrismo nunca se importaram com os que ardiam na Inquisição, comiam o pão amargo do exílio ou eram malhados pela repressão. O inquisidor, o caceteirto, o formiga, o pide ou um vigilante revolucionário, todos são feitos da mesma massa informe, sem espinha que os faça olhar as estrelas, onde só varia a cor do verniz das aparências. Mesmo agora, falta coragem para a federação dos homens livres da finança e da partidocracia, para essa urgente coligação dos liberais e liberdadeiros da esquerda e da direita. O piloto automático da governação sem governo aí continua a abalar as profundas instituições da dita sociedade civil, em nome de uma espécie de D. Sebastião científico que nunca leu a trovas de Bandarra. Ele o falso rei, enevoado pela imagem publicitária do “action man”, mesmo quando não se assemelha ao habitual George Clonney de agente secreto de casino, também, às vezes, se disfarça com o desenho animado do Professor Pardal, com ar de ficção científica do Canal História. Todos merecem uma bela gargalhada. Prefiro as asas que me permitem a procura do além, mesmo que seja o além que está dentro de mim. É preciso crescer para cima e crescer para dentro. Libertai-vos, lusitanos que restam!

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