Fev 21

No dia do manifesto de Marx e Engels

No dia do manifesto de Marx e Engels, importa recordar que o Portugal político é o país mais à esquerda da Europa, dado que a esquerda dominante é socialista democrático e a oposição liderante de direita é social-democrata. Isto é, tanto a esquerda como a direita ainda continuam marxistas, não-leninistas, mas revisionistas. No rigor da ideologia e da história, esta é uma afirmação correcta, embora politicamente incorrecta.  Porque ninguém pode negar que o PPD fundacional admitia a inspiração marxista, que o PS era claramente marxista e que até o CDS de Freitas apresentava projectos de constituição em nome do socialismo humanista. Porque ninguém pode negar que a própria JSD chegou a adoptar “A Internacional” como hino da organização, quando fazia congressos com os retratos de Marx e Engels na parede. Porque ninguém pode negar que o PSD retirou o marxismo do programa bem depois do PS de Constâncio o ter concretizado, copiando ambos o que o SPD tinha feito no Congresso de Bad-Godesberg de 1959. Coisas bem mais substanciais do que a habitual historieta que põe Durão Barroso como jovem maoísta do MRPP antes de passar para presidente da Comissão Europeia, com prévia passagem pelo centro de desmarxização universal, anti-Bin Laden, da universidade de Georgetown, onde precedeu Nuno Severiano Teixeira.  Talvez até ainda possa ser até mais correcto: Portugal político é o país mais hipócrita do mundo. Porque fez partidos de cima para baixo. E só sobreviveram os que saltaram para o cavalo do poder governamental na ditadura revolucionária dos governos provisórios (PCP, PS e PPD), ou o que teve assente no Conselho de Estado da altura (CDS). Assim se repetiu o salazarismo, que também criou o partido único da União Nacional por resolução do conselho de ministros: Tal como o partido democrata-cristão do Centro Católico Português foi instituído por deliberação da conferência episcopal em 1917. Somos obedientes, reverentes e obrigados, filhos da Inquisição, do devorismo e do partido único de Afonso Costa. Isto é, temos medo do Estado.  E depois de 1974, porque era moda, fizemos democracia com partidos onde os dirigentes estavam à esquerda dos militantes e os militantes à esquerda dos votantes, com imensos fantasmas de direita e imensos preconceitos de esquerda. Felizmente, fomos escrevendo direito por linhas tortas e fazendo história sem processo histórico, porque não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Por isso é que Marx merece o meu respeito. Viveu como pensou e não pensou como viveu. Marx ainda está vivo. Nixon e Caetano já morreram. Contudo, sempre preferi o partido de Alexis de Tocqueville e de Alexandre Herculano. De Leonardo Coimbra. E de Agostinho da Silva. Não alinho nos grupos revisionistas que transformaram antigos ministros de Salazar e Caetano em inspiradores ou neo-ministros. Viva Marx que nunca foi marxista!

Fev 21

Em busca do paraíso, com algum empirismo e muita aventura

Regresso, quarta-feira de cinzas, depois de alguns dias de Entrudo, onde nada se podia dizer que não fosse carnavalício. Nem sequer podíamos comentar a demissão de Alberto João Jardim no Funchal, a fim de referendar a respectiva revolta contra o colonialismo socialista de Lisboa e encavacar o Palácio de Belém. E seria arriscado comentar a saída de José Miguel Júdice do PSD ou os últimos programas da RTP sobre os “grandes portugueses”, agora que Paulo Portas ameaça falar sobre a situação interna do CDS e Pedro Santana Lopes assiste embeiçadamente revoltado à dissolução da sua equipa autárquica.

É por isso que, ao viajar por alguns blogues da não-esquerda, reparo que começa a emergir uma nova direita, onde há vários artigos de fé. O primeiro é o ter estado com o “não” ao referendo sobre a IVG, porque se proclama que o “sim” era de esquerda. O segundo é aceitarmos que, depois de António Ferro, o novo profeta daquele salazarismo que já existia antes de Salazar é o recente concurso televisivo e os brilhantes documentários que os sustentam. O terceiro é atacar José Miguel Júdice que, mais uma vez, sai do rebanho.

Como não sigo estes três mandamentos da nova coisa, peço que me tirem da lista dos pretensos membros da direita lusitana, embora declare que não é por isso que vou para a esquerda. Fico bem como radical do centro e volto a gostar da atitude do meu antigo líder dos tempos estudantis de Coimbra, o Zé Miguel, tendo ainda mais saudades de outro heterodoxo desses momentos de transição, o Francisco Lucas Pires, dois dos que falharam numa aliança que teria sido necessária para que não vivermos entre Cavaco, Ribeiro e Castro e Marques Mendes, tal como poderemos vir a viver entre Cavaco, Paulo Portas ou Pedro Santana Lopes.

Por mim, que entre os cinco, apenas digo que venha o Diabo e escolha, prefiro continuar a tratar das minhas macieiras, que não incluem as teses de Franco Nogueira sobre o autoritarismo, com filmes realizados por António Lopes Ribeiro, ou a literatura de justificação sobre o caceteirismo e a cedência à Santa Aliança, mesmo que se chame República Imperial. Apesar da minha simpatia pela Maria da Fonte e pela Patuleia, prefiro reler as Trovas de Bandarra, para ganhar inspiração para novas cartas de achamento, em busca do paraíso, com algum empirismo e muita aventura. Apesar de conservador nunca cedi aos “tories”, prefiro desembarcar com John Locke nas praias do Pampelido, perto do Mindelo, e ousar reflectir sobre o PREC à maneira de Burke e de Hayek.