Fev 22

Da luta de classes, sem consciência de classe, ao mesquinho da mera energia das invejas igualitaristas

A alta governança deste estadão a que chegámos, onde, em casa de ilustres ferreiros, continuam a ser usados espetos de pau, ao anunciar reformas que não cumpre, vai fazendo entrar em regime de greve de zelo enormes fragmentos de um aparelho de Estado feito de pessoas, que bem poderiam ser mobilizadas pelo bem comum se, de cima, viessem exemplos daquela autoridade que vem de autor e não dos autoritarismos plagiados com encenações de Estado-Espectáculo e música verbal de celestial demagogia. E nada digo sobre a minha chafarica universitária, que essa está à espera dos decretos que mestre Mariano vai preparando para a sua comteana révolution d’en haut,com muitas promessas de ordem e progresso sobre o fim das idades da teologia e da metafísica e a gloriosa chegada de um D. Sebastião científico, Guerra Junqueiro o dixit a Raul Brandão. O tal bandarriado que não compreendeu Thomas Kuhn e persiste numparadigma dos anos setenta do século passado, quando os maoistas, trotskistas e outros alpistas ainda andavam à procura da revolução perdida, sem assumirem oagainst method dos inimigos do construtivismo, como é o meu caso, de liberalão empedrenido que vai relendo Fiore e Vico e manda esses falsos gnosticismos para o caixote de lixo da história do pensamento. Basta notar como ainda se elegem reitores, conselhos directivos e conselhos pedagógicos, um quarto de hora antes de todos estarem mortos, incluindo conselhos de reitores e reitores primazes, onde generais dependem do vanguardismo de sargentos e de muitos soldados unidos que ainda clamam jamais serem vencidos. E tudo isto num sítio onde continua eficaz a memória daquilo que Mário Sottomayor Cardia qualificou como a subversão a partir do aparelho de Estado e que até inventou um PREC feito de generais de aviário, como eram os majores graduados em generais, em benefício do regabofe do oportunismo carreirístico do salve-se quem puder, típico de um ambiente que consegue transformar a luta de classes, sem consciência de classe, nessa grande energia das petites histoires da grande história como é a rasteirinha luta de invejas, categoria que Karl Marx nunca inventariou, mas que a há, a há e até se move e move, enquanto o mundo gira e Jaime Dias roda. P.S. Já agora, agradeço a qualquer coimbrinha, ainda vivendo na terra dos mestres dos locatários de Belém, se permanece a empresa de camiões que tinha o slogan que citei em último. A sede era em frente aos Bombeiros Voluntários, na Avenida Fernão Magalhães, e este escrevente, quando era puto a caminho da escola primária de São Bartolomeu, vindo da rua fora de portas, aprendeu com ela a procura da globalização alternativa. Espero que o Professor Boaventura a leve para o museu do seu laboratório associado de ciências sociais…

Fev 22

Entrevista sobre a corrupção

  1. 1.     Portugal é um dos países da Europa que mais recorre ao pequeno tráfico de influência ou ao chamado «puxar os cordelinhos» e à «cunha. Como se pode explicar tal facto?

 

A Dona Maria da Cunha, prima da Senhora Dona Política e do Senhor Amor Próprio, para parafrasear a antiga, mas não antiquada “Arte de Furtar”, obra publicada anonimamente em 1652, com o subtítulo Espelho de Enganos, Teatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Gazua Geral dos Reinos de Portugal, sempre foi dotada de sagacidade hereditária e de modéstia postiça. Criou‑se nas cortes dos grandes Principes,embrulhou‑os a todos. Logo todos falam de política,muitos compõem livros dela e no cabo nenhum a viu,nem sabe de que cor é. Porque a primeira máxima de toda a política do mundo que todos os seus preceitos encerram em dois,como temos dito, o bom para mim e o mau para vós. Ao aceitar a regra de viva quem vence. E vence quem mais pode, e quem mais pode tenha tudo por seu, porque tudo se lhe rende, neste ponto, errou o norte totalmente,porque tratou só do temporal sem pôr a mira no eterno.

 

 

 

  1. 2.     Acha que a corrupção tem crescido na sociedade portuguesa nos últimos anos — sobretudo pela mediatização de alguns casos — ou sempre houve, de forma mais escondida?

 

Corrupção vem do latim corruptio, acção de romper pelo meio, de rasgar em partes iguais, de ir ao centro da coisa e desintegrá-la. De corrumpere, tornar podre, decompor. Ela começa sempre pelo centro e visa a destruição total do ser. Diz-se de todo o processo de compra do poder, onde o comprador deseja obter parcelas do poder. Trata-se efectivamente de um roubo de poder. Como se assinalava na nossa Arte de Furtar: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou  a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, este sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam.

 

3. Quais os instrumentos mais eficazes para combater aquele que é considerado um dos «cancros» das democracias?

 

Para Lord Acton o poder tende a corromper é o poder absoluto corrompe absolutamente. O mesmo pessimismo leva-o a dizer que se devia desconfiar do poder mais do que do vício e que a História não é uma teia trançada por mãos inocentes. Entre todas as causas que degradam e desmoralizam os homens, o poder é a mais constante e a mais activa. Entre nós, talvez seja preferível citar Alain, para quem se o poder enlouque, o poder absoluto enlouquece absolutamente.