Em busca do paraíso, com algum empirismo e muita aventura

Regresso, quarta-feira de cinzas, depois de alguns dias de Entrudo, onde nada se podia dizer que não fosse carnavalício. Nem sequer podíamos comentar a demissão de Alberto João Jardim no Funchal, a fim de referendar a respectiva revolta contra o colonialismo socialista de Lisboa e encavacar o Palácio de Belém. E seria arriscado comentar a saída de José Miguel Júdice do PSD ou os últimos programas da RTP sobre os “grandes portugueses”, agora que Paulo Portas ameaça falar sobre a situação interna do CDS e Pedro Santana Lopes assiste embeiçadamente revoltado à dissolução da sua equipa autárquica.

É por isso que, ao viajar por alguns blogues da não-esquerda, reparo que começa a emergir uma nova direita, onde há vários artigos de fé. O primeiro é o ter estado com o “não” ao referendo sobre a IVG, porque se proclama que o “sim” era de esquerda. O segundo é aceitarmos que, depois de António Ferro, o novo profeta daquele salazarismo que já existia antes de Salazar é o recente concurso televisivo e os brilhantes documentários que os sustentam. O terceiro é atacar José Miguel Júdice que, mais uma vez, sai do rebanho.

Como não sigo estes três mandamentos da nova coisa, peço que me tirem da lista dos pretensos membros da direita lusitana, embora declare que não é por isso que vou para a esquerda. Fico bem como radical do centro e volto a gostar da atitude do meu antigo líder dos tempos estudantis de Coimbra, o Zé Miguel, tendo ainda mais saudades de outro heterodoxo desses momentos de transição, o Francisco Lucas Pires, dois dos que falharam numa aliança que teria sido necessária para que não vivermos entre Cavaco, Ribeiro e Castro e Marques Mendes, tal como poderemos vir a viver entre Cavaco, Paulo Portas ou Pedro Santana Lopes.

Por mim, que entre os cinco, apenas digo que venha o Diabo e escolha, prefiro continuar a tratar das minhas macieiras, que não incluem as teses de Franco Nogueira sobre o autoritarismo, com filmes realizados por António Lopes Ribeiro, ou a literatura de justificação sobre o caceteirismo e a cedência à Santa Aliança, mesmo que se chame República Imperial. Apesar da minha simpatia pela Maria da Fonte e pela Patuleia, prefiro reler as Trovas de Bandarra, para ganhar inspiração para novas cartas de achamento, em busca do paraíso, com algum empirismo e muita aventura. Apesar de conservador nunca cedi aos “tories”, prefiro desembarcar com John Locke nas praias do Pampelido, perto do Mindelo, e ousar reflectir sobre o PREC à maneira de Burke e de Hayek.

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