Abr 04

Entrevista a O Encoberto

Gostaríamos de lhe agradecer por esta entrevista. 

Ao publicar não faremos quaisquer alterações, quer às nossas perguntas, quer às suas respostas.

Haviam muitas mais perguntas para fazer, mas devido ao pouco espaço do nosso “jornal”, fomos obrigados a racionar. 

Preencha a entrevista e reenvie-nos o documento, sff.

 

“O Encoberto” fala com o Prof. Maltez

 

O corpo editorial d’”O Encoberto” gostaria de agradecer ao Prof. Maltez, pela oportunidade que gentilmente nos concedeu, de uma “Mail to Mail Interview”  ( em inglês fica sempre melhor , não fica?).

 

“O Encoberto” –  O que acha de uma iniciativa como “O Encoberto”? E bebe ou não bebe Sumas de Ananol?

 

Prof. Maltez – Em tempos de nevoeiro, quando até os tecnocratas manipulam o processo de fabricação de desejados, planeando o D. Sebastião científico, através da do clientelismo e da encomendação feudal, nada melhor do que baralhar e dar de novo, com um pouco de criatividade, inconformismo e irreverência, sem medo de ter medo. Por isso, quando um colega me telefonou alarmado com a circunstância de um grupo de alunos, num jornal clandestino, me ter feito uma caricatura, eu me senti orgulhoso de viver numa instituição onde nem todos cantam o “lá vamos cantando e rindo”, transformando em mais valia criativa, aquilo que é a caricatura e a anedota que todos contam sobre os professores, como eu próprio fiz nos meus tempos de estudante.  Apenas protestei porque, prefiro a “coca light”, embora compreenda que me tenham ligado a um produto português… Logo, aceitei o vosso pedido de entrevista, porque sei o risco que correm , quando  os habituais espiões reciclados vos ligarem à minha pessoa, em nome de mais uma teoria da conspiração, forjada em locais misticamente clandestinos, onde uns dizem ser fascista, outros, maçónica, não faltando até os que falam no congreganismo jesuítico, embora me assuma como homem livre, adepto do liberdadeirismo, sempre contra a ignorância, a intolerância e o fanatismo, mesmo que seja pela revolta dos sem poder.

 

“O Encoberto” – O caos em que aparenta estar o processo de Bolonha no nosso Instituto, é simplesmente aparente ou estão a fazer muito pouco, tarde de mais?

 

Prof. Maltez – Direi que se houvesse caos, ainda poderia haver quem ousasse a perfeição, mesmo que fosse a da anarquia ordenada ou a da desordem bem organizada. O dito processo de Bolonha, esse conceito indeterminado ou cláusula geral que apenas serve para os detentores da via decretina a usurparem, constitui uma espécie de placebo a que alguns põem o rótulo de racionalidade importada e que confundem com uma chouriçada de “curricula” feitos a “copy and paste” a partir da “Internet”. Sobre a matéria, apenas direi que temos de submeter-nos para podermos sobreviver, mas que seria bom continuarmos a lutar para podermos viver como pensamos. Acrescentarei apenas que pôr o velho vinho azedo em pipas novas talvez apenas sirva para notarmos como ele vai azedar ainda mais. Tentem, por exemplo, a via dita da tutoria, que poderia ser aplicada imediatamente nos actuais mestrados e doutoramentos, acabando com os nossos decadentes segundos e terceiros graus que apenas funcionam porque ainda há clientela interna de assistentes à procura de progresso na carreira, mas reparem nos encargos financeiros que ela traz. Por exemplo, ninguém deveria poder inscrever-se num mestrado sem projecto de investigação prévio e sem nomeação de um tutor que interviria em todos os actos de exame, de acordo com um “menu” concertado, a fim de evitar que os mesmos mestrados continuem a ser repetições dos cursos de licenciatura. Por outras palavras, quem não reparar que precisamos de urgentes medidas de salvação pública, face ao número significativo de alunos que abandonam as graduações, depois de nelas terem entrado, e perante o decréscimo dramático nas inscrições nos mestrados, está a hipotecar o futuro da escola, mesmo que fique encantado com os belos anúncios e os excelentes cartazes da propaganda, esquecendo-se que os padrões de avaliação já não dependem  do anterior crivo.

 

“O Encoberto” – Muitos alunos já tiveram aulas neste Instituto com Prof’s que aparentemente não reconhecem a palavra pedagogia, como fazendo parte da língua portuguesa e esqueceram-se que um Prof. é na verdade um professor (na verdadeira acepção da palavra). Já ouviu falar deste problema no nosso Instituto?

 

Prof. Maltez – Muitos vêem, ouvem e lêem, mas preferem ignorar e esperar pela próxima reunião do Conselho dito Pedagógico, onde, felizmente, a cultura herdada do nacional-porreirismo do Professor Pereira Neto foi elevada a hipérbole nos tempos que correm, especialmente num país onde a avaliação das competências de um professor, depende das bocas conjunturais, emitidas no efémero de uma reunião, e não de um sistema objectivo de avaliação que lhe forneça créditos para a própria carreira, bem como de um adequado regime contencioso interno de reclamação de notas.  Sou adepto de outro modelo, radicalmente diverso. Que todos os professores nasçam de um concurso público, com prévias provas pedagógicas, e que o processo de carreira não dependa das lealdades louvaminheiras ou de pagamento de serviços eleitorais, mas dos critérios de uma sociedade aberta, pluralista e competitiva, que eliminem esta  doença endogâmica e tribalista onde decadentemente nos embrenhámos.

 

“O Encoberto” – Considera que os nossos Prof’s, estão preparados para as exigências dos novos padrões de ensino?

 

Prof. Maltez –O problema tem que ser perspectivado fora da lógica do rebanho e dos discursos de música celestial em que somos excelsos. Também por cá há bons e maus professores e óptimos e péssimos processos de ensino, mas não podemos continuar a tapar o sol da concorrência com a peneira do mais do mesmo nem entrarmos na loucura decadentista que fez falir as universidades privadas que professores do ISCSP de outras eras em má hora fundaram, quando também se fingiu que qualquer professor doutor poderia ser especialista “out of área” e que, com promessas, todos os monitores poderiam por obra e graça de uma chouriçada decretina passarem a catedráticos, para gáudio de eternas promessas cinquentonas ou sessentonas que só eram reconhecidas nas quatro paredes da tribo. Por mim, abriria imediatamente concursos para professores auxiliares, onde posso enumerar muitos antigos alunos da casa, titulados pelas melhores universidades europeias, estabelecendo um efectivo regime de concorrência pela igualdade de oportunidades e pelo reconhecimento do mérito, através de um programa que não daria votos, mas que salvaria a instituição, mesmo sem alguns contratos automaticamente renovados. Do mesmo modo, permitiria que as unidades ditas científicas e pedagógicas passassem todas a ser geridas por detentores de título da especialidade para a área, aconselhando alguns colegas que abdicassem de tantas acumulações inevitavelmente inimputáveis, de tantas turmas a reger e a coordenar, de tantas orientações de teses e tantos cargos, que lhes devem  dar compensações  psicológicas, mas que fora deste quintal soam a gargalhada.

 

“O Encoberto” – Tendo em conta as várias reclamações que os alunos têm quanto a notas, maneiras de dar aula… parece-nos suspeito, haverem tão poucas (ou nenhumas) reclamações “oficiais”, pedidos de reapreciação de exame… Qual é para si a melhor opção? 1ª Os alunos são cobardolas 2ª Instalou-se no I.S.C.S.P.(e O.) um regime de medo (quase Salazarista… tipo faca e queijo na mão…) que impede os alunos de reagir. 3ª O Problema “não existe”.

 

Prof. Maltez –O problema existe porque a maioria sociológica de estudantes e professores tem os representantes que escolheu e que merece. A cultura do Estado de Direito e do entendimento da democracia como uma institucionalização dos conflitos ainda não se difundiu na cultura da instituição e, portanto,  ainda dominam atavismos de Escola de Regime e do consequente micro-autoritarismo sub-estatatal, onde os antigos aparelhos de repressão se volveram em subsistema de medo, gerando este ambiente de servidão voluntária, plena de medos e de falsos temores reverenciais, filhos do velho absolutismo de facto de uma escola onde sempre tivemos “senhores directores” omnipotentes que nunca souberam o que era o princípio da separação de poderes, nesse ridículo autoritarismo bem expresso pela distribuição de gabinetes aos professores, onde basta irmos ao terceiro andar para vermos quem manda, isto é, quem está mais próximo do simbólico sítio de sua alteza. Em democracia pós-autoritária, o salazarentismo continua, mesmo que se pinte de neofascista ou de esquerda moderada ou revolucionária.

 

 

 

“O Encoberto” – Quais são para si as características de um bom professor universitário?

 

Prof. Maltez – Dar cada aula como se ela fosse um acontecimento que nunca se repete, dada por um ser que nunca se repete perante pessoas de alunos que também nunca se repetem e, para tanto, não ser um mero lente de fotocópias obtidas em resumos de bibliografia alheia, mas detentor de produção própria, nascida da mistura de adequada teoria com as circunstâncias do tempo e do lugar em que labuta. Por outras palavras, viver cada momento desta vida de professor como se ele fosse o último. Isto é, fazer desta profissão uma vocação e não um posto de vencimento ou um trampolim que nos dá cartão de visita ou trampolim para mais altos e bem remunerados cargos. Quem não tiver vocação para esta missão que a deixe!  Acresce que esta exigência íntima impõe que as escolas sejam instituições, isto é, que tenham uma ideia de obra, que gerem manifestações de comunhão e que sejam reguladas por normas processuais que a todos vinculem, para que possam ser escolas de cidadania e de abertura para aquele transcendente situado a que damos o nome de cultura. Se transformarmos o professor num burocrata de uma direcção-geral da administração directa do Estado ou num esquema partidário, sujeito ao “spoil system”, não poderemos cumprir a missão civilizadora daquela entidade onde o essencial do homem ocidental é o sentido crítico do “ser do contra”, para depois poder ser qualquer outra coisa em coerência de pensamento e acção.

 

“O Encoberto” – O que recomenda para o I.S.C.S.P.(e O.) ?

 

Prof. Maltez –Que seja uma universidade, uma “universitas scientiarum” e que não caia na tentação politécnica que o levará ao suicídio, mesmo que os senhores directores e coordenadores ganhem imagem e trampolim. Que se liberte do tribalismo endogâmico e suicida, com muita música celestial, onde muda a retórica para que continue tudo na mesma. Que abra as portas e as janelas à sociedade, mesmo que apanhe constipações e que permita que os homens livres que aqui ainda permanecem deixe que a respectiva imaginação possa ter o poder a ajudá-los e não o contrário. Mas tenho medo que, nesta encruzilhada, regressem os fantasmas do “salve-se quem puder” e do “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. Que não confessemos nossos antigos pecados saneadores, para irmos ao passado e recuperarmos as boas heranças que também temos, nomeadamente uma cultura de escola de proximidade e de “small is beautiful” que a presente doença do “Portugal dos pequeninos com a mania das grandezas” nos parece comprometer.

 

“O Encoberto” – Comentários finais Sr. Prof. O que gostaria de dizer aos alunos?

 

Prof. Maltez –Importa resistirmos para lutarmos contra o regime do mestre-escola e podermos salvar o pluralismo de paradigmas sem o qual deixaremos o campo da universidade. Importa compreendermos que, com mais de cem anos, já passámos quatro regimes e que não podemos estar dependentes do oportunismo e da conveniência dos que querem servir aquilo que julgam ser os novos senhores. Isto é, sermos humildes, transformando as nossas vulnerabilidades em potencialidades e evitando que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades. Isto é, praticarmos a arte da estratégia, onde dizemos ser pioneiros, voltando ao sonho que move montanhas, mas com um pouco mais de aventura e pragmatismo, isto é, reconhecendo pecados passados, como os dos saneamentos por razões ideológicas e de invejas, onde foram afastados os mais competentes, à esquerda e à direita, sempre com inúmeros adjectivos de teoria da justificação, para que explodissem os cogumelos dos conformistas e “yesmen”. Uma escola que afastou Vitorino Magalhães Godinho, Hermano Saraiva, D. António Ribeiro, Martim de Albuquerque ou Luís Sá e ainda não se redimiu desse pecado, não pode continuar a viver em regime de teoria da conspiração explicativa, vendo manobras da maçonaria, do “opus dei”, dos comunas ou dos fachos em todos os cantos, só para que continuem a dominar os filhos de algo, mesmo que teologicamente benzidos, que já nem sequer nobreza têm. O segredo está na velha regra da igualdade de oportunidades, livre da encomendação feudal deste permanente regime de convidados para a mesa do orçamento. Não tenhais medo!