Jul 13

Quinta da Fonte: que tal ensinar a pescar, em vez de continuarmos a lavar as mãos como Pilatos, distribuindo migalhas de peixe? Quinta da Fonte: que tal ensinar a pescar, em vez de continuarmos a lavar as mãos como Pilatos, distribuindo migalhas de peixe?

 

Vale-me a velha observação de Daniel Bell sobre um Estado que é, ao mesmo tempo, grande demais e pequeno demais. Apenas me foi dado concluir o óbvio: com tal quantidade de informação escrita e televisionada por dia, com bem mais caracteres do que os d’ “Os Lusíadas” e até que a Suma de São Tomás de Aquino, vão alguns dizendo que a Quinta da Fonte é pior do que Beirute, enquanto outros concluem que temos guerrilha urbana às portas de Lisboa. Valia mais dizermos, muito modestamente que quando entra em crise o Estado-Segurança se gera, inevitavelmente, a vingança privada. Que quando entra em crise o Estado-Imposto, se dá o fim do segredo de justiça na Operação Furacão. Que quando o Estado-Justiça é cercado por apitos e mádis, até o cidadão Murat está há 13 meses arguido por nada. Que quando entra em crise o Estado-Legislação, até o provedor de justiça qualifica o regime socratino como uma espécie de Estado Lenga Lenga. Logo, para furar o esquema, até o representantes dos grandes corpos do Estado usam da demagogia e do populismo, enquanto a governação assenta no palanque propagandístico do Estado-Espectáculo, caindo na gafaria do carro eléctrico… A hiperinformação pode ser a melhor forma de desinformação. Satura e inunda-nos de innformação secundária. Vale-nos que um ex-ministro do império continua a falar no Estado Exíguo e na necessidade de assimilação das etnias, para refazermos a confiança. Daí que poucos consigam ver bois que passeiam diante dos palácios, até porque noventa por cento da população da Quinta da Fonte vive de subsídios mensais do Estado que lhes vão dando migalhas de peixe, mas continuam a não os ajudar a aprender a pescar. Por mim, como liberal, pegava nesses fundos e atribuía-os às mesmas comunidades, auto-organizadas ou apoiadas por organizações da sociedade civil, desde as associações de defesa dos respectivos interesses a igrejas. Ou abria um concurso público internacional para acabar com a marginalização social, deixando de dar prémios aos arquitectos e urbanistas que desenharam tais enormidades. Para tanto é que poderia servir um fluxo de fundos numa folha A4…

 

 

Jul 10

Entre apitos e furacões, madonas e mádis, o grande espelho da nação enrodilhou-se em jogos florais…

Ai das grandes instituições, quando as chefias são assaltadas para que os pequenos homens disfarcem a respectiva mesquinhez. Ai do Estado se voltar a ser tema para um improviso de “l’État c’est moi”, porque se eu pudesse dar, mais dava, com grandes propagandistas que glosam a metáfora da folha A4 e não seguem os conselhos dos sábios, entretendo-nos com as minhoquices que vão fazendo e prometendo, como a do grande mágico que nos prometeu fazer desaguar o Amazonas no Tejo, em alta velocidade.  Está caduco o velho manual do como ganhar eleições, proclamando-se, com ar grave e solene, que “nós somos honestos”. Na história de Portugal, não consta o Robin dos Bosques, mas o Zé do Telhado e as consequências da Maria da Fonte e da Patuleia, contra os devoristas e os cabrais. O que ficou foi este regime mercantilista da Viradeira, já pós-revolucionariamente pós-pombalista, pós-afonsista, pós-soarista e pós-cavaquista, onde abundam as grandes companhias de economia mística, aquelas que, agora, querem privatizar os lucros e nacionalizar os prejuízos, através desses novos caminhos de ferro do fontismo que são os regeneradores investimentos em obras públicas, para gáudio dos partidos-sistema do Bloco Central, essas federações de grupos de interesse e de grupos de pressão que discutem se o matrimónio é uma fábrica de procriação, para que D. Policarpo possa optar. Porque, entre jantaradas de geopolítica e croquetes de embaixada, qualquer profano pode ascender em 24 horas ao grau supremo, em cerimónias sem ritual que traduzem em calão as procissões funerárias que comemoram a reconquista cristã de Alcagaitas à moirama. Volta, Marquês, que eles já cá estão outra vez!

Jul 09

Como a maioria dos factores de poder não é nacional

Como a maioria dos factores de poder não é nacional, há que nacionalizar esse bem escasso chamado polítca, através do habitual recurso dos tempos de crise que é a vontade de sermos independentes e de, através, da cidadania, evitarmos que a democracia se transforme em democratura, como o ameaçam os neofeudalismos do desespero reinante e do crescimento do indiferentismo. O principal da crise tem a ver com a falta de políticos de confiança, desses que podem ser capazes de encher a democracia de povo, tanto o que anda em protestos nas ruas, como o que está silencioso no recato do lar ou vai, apesar de tudo, conversando “face to face”, com os vizinhos, que é palavra que vem de “vicus”, aldeia, e que não pode continuar a ser traduzida por “pagus”, quando o discurso oficial e oficioso do estadão passou a chamar “pagão” ao aldeão que resiste ao rolo unidimensionalizador 8

Jul 09

Estou com saudades dos velhos debates republicanistas de um PS que caiu nas teias da personalização do poder e do propagandismo de ex-maoistas

Sempre que tento compreender as intervenções cívicas de um Baptista Bastos ou de um Manuel Alegre, sofro com a falta de um debate cívico enraizadamente identitário em Portugal. Sempre que noto o propagandismo dos ex-militantes da extrema-esquerda, nomeadamente os membros da redacção dos muitos jornalecos que se confundiam com nomes de partidos, reparo como eles se instalaram como “opinion makers” e directores dos grandes jornais e semanários, passando para o extremo oposto, mas mantendo o mesmo facciosismo. Pior ainda: quando se pintam de congreganistas e recebem a unção de doutrina social, tanto da igreja dominante como das suas entidades para-episcopais, acrescentando, à herança inquisitorial, a manha de monopólio da inteligência das seitas, como foi timbre daquela esquerda revolucionária que só se converteu à democracia pluralista depois do 25 de Novembro de 1975. Por mim, sem aquela limpeza de sangue que passou pelo apoio à invasão busheira do Iraque, ou pela passagem pela salsicharia ideológica das conversões anglo-americanas de antigos maoístas, confesso que continuo marcado pelas influências de certos subsolos filosóficos francesistas, pelo que andei relendo certas provocações de Alain Renaut, no sentido da restauração do que designa por republicanismo de um povo livre.

Jul 04

Nestes amanhãs que cantam do século XXI

Nestes amanhãs que cantam do século XXI, apenas continua a ser novo aquilo que se esqueceu. Porque todas as revoluções são mesmo pós-revolucionárias, o nossso 25 de Abril nunca foi Otelo nem Salgueiro Maia, mas Soares e Cavaco, essas personificações do transcendente do nosso regime bem poderiam contratar, no mercado das consultadorias empresariais da globalização, um novo chefe do governo desta pilotagem automática sem futuro, um novo líder dos progressistas do PS e um novo líder dos regeneradores do PSD. Por isso, tenho de reconhecer que tudo poderia ser captado pela magia de um desses romances de costumes com que um novo Camilo Castelo Branco poderia rescrever “A Ascensão de um Anjo”. Infelizmente, neste tempo de comendas, já não há, no armazém das honorabilidades, a possibilidade de o fazermos conde de Tomar ou duque de Ávila e Bolama, pelo que lhe resta o caminho habitual do sistema banco-burocrático do rotativismo, um desses lugares corporativos no Crédito Predial, entre Hintze Ribeiro e José Luciano. Os elogios que, entre eles, se vão tecendo apenas confirmam como a esquerda moderna, a tal que, ideologicamente, invocava Eduard Bernstein, para se chamar Pinto Balsemão, Cavaco Silva ou José Sócrates, gosta de praticar a fecunda união de facto com a direita dos interesses. Por isso, as disputas entre as actuais lideranças do PS e do PSD e os jogos florais politiqueiros que ocuparam os horários nobres das nossas televisões podem começar a equiparar-se a umas primárias do Bloco Central, preparando a sucessão do Pai Bush, quando os vascos já não são santanas… Por isso, prefiro continuar a ler a biografia de Talleyrand, nomeadamente o capítulo sobre a conspiração de avós e netos, onde os primeiros são os ausentes-presentes quase nonagenários e os segundos, os ex-jotas meninos de ouro, para esta era da lei de bronze dos filhos de algo, que marca a nossa decadência. Do mesmo modo, gosto imenso de recordar o processo político de um tal Guizot, que tinha como programa a banha da cobra do “enrichez vous”, para uso da eterna sociedade de casino, onde se misturavam os politiqueiros honestos que escolhiam adjuntos corruptos, lado a lado com líderes inversos, os tais desonestos que tinham olho para a escolha de adjuntos honestíssimos. Julgo que o processo já está inventariado desde Victor Hugo, mas, em Portugal, nestes amanhãs que cantam do século XXI, apenas continua a ser novo aquilo que se esqueceu, dado que abundam as modas que passam de moda, só porque não reparamos que não vale a pena inventar o que já está inventado, nem descobrir o que já está descoberto. Vale mais recuperarmos a Dona Branca e o Alves dos Reis e brincarmos ao jogo da bolha, antes que a mesma rebente e nos encha de dejectos…

Jul 02

Nosso primeiro

Nosso primeiro, com o estadão do Terreiro do Paço como cenário de fundo, foi todo ele muito marquês, num exercício de politiqueirice, criticando verbalmente a politiqueirice, sic rebus, sic stantibus. Sem qualquer acaso psicanalítico, substituiu Portugal pelo país, assumiu que tem encontros imediatos com o bem comum, situando-o na respectiva consciência e repetiu o “soundbyte” do ritmo reformista de modernização do país, mas ajudando quem precisa de ajuda, usando esse novo bacalhau a pataco que é não gastarmos nadas em obras, porque elas serão feitas por privados, os quais ficam com esse insignificante das concessões. Por enquanto, ainda não anunciou a privatização das praias do domínio público marítimo, para transformarmos as areias em abonos e família e em incentivos à gravidez. Apenas se confirma que, depois das vacas gordas de um estado de graça feito de “porreiro, pá!”, lá nos vamos enredando nas vacas magras, onde o “pá” é o inspirador do novo discurso maneleiro do “país de tanga”. O que o líder da situaçãoo não conseguiu disfarçar foi o tom de monólogo, feito de muitas vacas sagradas, dado que a conversa parecia um ditado, levado a cabo através de uma operação de conversão de muitos “tracks” de um “mini-disk”, cuja versão de fotonovela já conhecíamos nos palanques inaugurativos, feitos para propaganda de telejornal. De qualquer maneira, para além da ausência da palavra e da ideia de Portugal, também desapareceram coisas como os cidadãos e os indivíduos, dado que se restauraram apenas as células do velho corporativismo das “famílias e das empresas” e das “empresas e das famílias”, entidades que, afinal, voltam a participar estruturalmente na vida da nação. Por outras palavras, em tempo de vacas magras, apenas a abstracção das vacas sagradas, para que o contribuinte e o eleitor não reparem que são eles que pagam estes pilares da concessão da ponte do tédio, ainda sem buzinão..