Aquela verdade que está acima do povo, acima da pátria e acima da ideologia

Morreu ontem um dos mais marcantes mestres de quem sou: Alexandre Soljenitsine. Não apenas pela lição de antitotalitarismo consequente que a todos nos deu, mas pela procura da conciliação de tradição e libertação. Partindo de um humanismo existencialista, marcado pela memória do sofrimento das vítimas do totalitarismo soviético, trata de retomar certas pistas do romantismo messiânico e das utopias conservadoras, proclamando uma espécie de teologia laica de libertação.

Com efeito, através de uma paradoxal prosa, a obra de Soljenitsine é uma espécie de curso de lógica perante uma sociedade alógica, até porque, como dizia Hegel, a prosa é uma realidade ordenada. Com Soljenitsine vai assim reintroduzir-se na história cultural russa, o conceito de povo e o de consciência popular, à maneira da Escola Histórica Alemã, bem como o radical humanismo que o leva à consideração daquela verdade que está cima do povo, acima da pátria e acima da ideologia, como dizia Dostoievski.

Nele, a fidelidade, ao programa dos dissidentes: um idealismo religioso absoluto, ou seja, com uma orientação predominantemente cristã e uma aliança espiritual permanente com aqueles que professam outras religiões; um antitotalitarismo absoluto, ou seja a luta contra todos os tipos de totalitarismo: marxista, nacionalista ou religioso; um democratismo absoluto, ou seja, o apoio consequente a todas as instituições e tendências democráticas da sociedade contemporânea; uma ausência absoluta de partidarismo, considerando: nós somos o Leste e o Ocidente da Europa, as duas metades de um mesmo continente e devemos ouvir-nos e entender-nos antes que seja tarde (in revista Kontinent).

Em 1967 proclamava: se um dia conquistarmos a liberdade, devê-la-emos exclusivamente a nós mesmos. Se o século XX vier a comportar alguma lição para a humanidade, nós tê-la-emos dado ao Ocidente, e não o Ocidente a nós: o excesso de um bem-estar perfeito atrofiou nele a vontade e a razão. Isso não implica a desculpabilização dos russos e, com eles, de todos os homens.

Mas também reconhece: faltou-nos o suficiente amor à liberdade, e, antes de mais, a plena consciência da verdadeira situação. Gastámo-nos numa incontível explosão no ano de 1917 e, depois, apressámo-nos a submetermo-nos… merecemos simplesmente tudo quanto sobreveio depois.

Porque os povos precisam de derrotas como certas pessoas precisam de sofrimentos e de desgraças: elas obrigam a aprofundar a vida interior e a elevar-se espiritualmente.

Também ele viveu num país que se assemelhava a um meio espesso e viscoso: é incrivelmente difícil efectuar aqui o menor movimento, pois este, em compensação, arrasta imediatamente todo o meio ambiente.

Porque toda a época estalinista é apenas a continuação directa do leninismo, mas com mais maturidade nos resultados e um desenvolvimento mais vasto e mais igual. O estalinismo nunca existiu, nem na teoria nem na prática… estes conceitos foram inventados pela ideologia ocidental de esquerda, após 1956, apenas para defender os ideais comunistas.

Porque estes os três quartos de século de pós-estalinismo deixaram-nos tão imersos na miséria, tão esgotados, tão apáticos e desesperados, que muitos de nós sentem os braços cair e parece que só uma intervenção do Céu nos poderá salvar.

Espero que alguns descendentes do Marquês de Pombal, de Fontes Pereira de Melo, de Afonso Costa e Salazar compreendam porque Soljenitsine foi um dia homenagear a resistência da Vendeia contra os jacobinos de esquerda e de direita. Eu, adepto da aliança dos girondinos e dos tradicionalistas, quero continuar a casar a honra com a inteligência…

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