Dez 01

Há muitas pontes levadiças, muitas pedras que escorregam das escarpas, muitas íngremes ladeiras, alguns fossos e outros tantos fossados

Entre Timor Lorosae e a parte ocidental da ilha que fez parte das Índias Orientais Holandesas, há muitas pontes levadiças, muitas pedras que escorregam das escarpas, muitas íngremes ladeiras, alguns fossos e outros tantos fossados. Mas há também as mesmas bibis que não conhecem fronteiras, as mesmas casas, os mesmos pátios, os mesmos muros feitos com pedaços de palmeiras, bem como porcos negros, galos e galinhas que se passeiam diante dos poços onde as mulheres lavam a roupa e as raparigas se penteiam, ao lado dos túmulos dos antepassados. Quis fingir que não vi o ex-miliciano que me abordou na loja, a loja ao lado do malai que faz contrabando dos restos sandalosos e explora o “karaoke” noite dentro. Porque mais além há também Oecussi/ Ambeno, quinze mil pessoas que não falam tétum e meia dúzia de sucos que não quiseram a integração e liurais que morreram honrados sem verem a pátria libertada. Há Pante Makassar, onde o “Nakroma” vem, de vez em quando, trazer abastecimentos, demorando seis horas amarrado na praia. Por mim, malai demais, que não sei desenhar as palmeiras como elas na verdade são, também não posso deixar de testemunhar os dias que passei para lá da fronteira, onde não são raros os cartazes de Eurico Guterres como candidato a governador de Kupang. Apenas acrescento que tais dias apenas serviram para confirmar as muitas cenas de todos os dias, com que se vai fazendo a eternidade das nossas vidas.

Não tive suficiente tempo para comparar desenvolvimentos e atrasos, ou até memórias coloniais, mas tornou-se evidente o peso de dezenas de milhares de refugiados desta RDTL, que alteraram a paisagem, sobretudo, de Atamboa. Também não tive tempo para ir além das aparências e até não me chegaram as informações que fui obtendo através dos excelentes guias que me acompanharam. Apenas confirmei que, por esta linha de ilhas que fazem a fronteira entre a Ásia e a Oceania, já correu sangue demais entre irmãos, feitos pedras de xadrez do grande jogo das guerras por procuração. E continuo a desejar que elas não sejam apenas uma espécie de seguro de defesa das grandes potências que por aqui temem o terrorismo, a bandocracia e o narco-tráfico.

Lá do outro lado de Batugadé, a República Indonésia, de Suharto a Sukarno, que pediu, e bem, o estatuto de observador da CPLP, constitui ainda uma versão asiática do modelo clássico de construção da nação a partir da construção de um Estado, dominado por aparelhos de poder, como destaque para o militar, não faltando sequer uma espécie de cartilha de um mínimo de razão de Estado, a que chamam ética da reponsabilidade. Aliás, as semelhanças com o processo histórico  francês, tanto do despotismo esclarecido como do estatismo pós-revolucionário, revelam uma espécie de neo-feudalismo numa anarquia ordenada, onde a pluralidade das forças vivas conseguiu ser mobilizada pelo autoritarismo modernizante do chamado Estado de Segurança Nacional.

Visitar Timor Ocidental e confirmar as causas geopolíticas da invasão, obriga-nos também a sublinhar que, mesmo em plena “integração”, nunca deixaram de existir fronteiras formais entre as duas partes da mesma ilha. Porque a remota parcela do extinto Império Colonial Português sempre se assumiu como “província” do aparelho militar de Jakarta, entendido como uma espécie de Estado dentro do Estado e dotado das suas próprias razões de Estado, até para financiamento privado desse serviço público. Por outras palavras, Timor Leste sempre foi para os militares indonésios uma província em sentido etimologicamente romano, isto é, uma terra objecto de um pro vincere.

Volto a Dili. A estes grandes contentores importados pelo “state building” da governação global, com milhares de peritos, consultores, magistrados e professores, todos empacotadamente especialistas, como eu, na escrituração de frases que hão-de salvar a humanidade, mas aos quais falta, simplesmente, a humildade de procurarem descobrir a razão pela qual esta parcela da humanidade não foi, ou não quer, ser salva por muitos “papers” apátridas.  Por mim, confesso que só sei que nada sei.

Sobretudo, quando em Dili não falta nação, isto é, uma ideia de obra, mobilizadora do bem comum. Como não são raros os políticos experimentados em tacticismos, nomeadamente da guerrilha política. Aliás, também por cá não deixa de notar-se o lado negro da portugalidade, esta hiper-identidade, este excesso messiânico que leva a um exagero de frustração e até de depressão, sobretudo quando as expectativas da teoria se distanciam da prática das realizações. Também por cá ficou esta doença que levou Almada Negreiros a dizer qualquer coisa como a de sermos, nós, Portugal, um desgraçado país onde ninguém a ninguém admira e todos a determinados idolatram.

Se as elites da RDTL me permitissem um conselho, diria que importa moderar os ímpetos do tacticismo e passar para a estratégia, para um adequado inventário das reais potencialidades e das efectivas vulnerabilidades, a fim de evitarem que as primeiras não passem para o segundo termo, e, pelo contrário, para permitirem que as segundas se elevem a potencialidades, mas sem o jogo apaixonado dos poderes erráticos do tempo da resistência e da guerrilha e, sobretudo, o desperdício dos mesmos em partidocracia. Os portugueses pós-revolucionários, copiando os brasileiros, inventaram para o efeito o IDN e até chegou a esboçar-se uma listagem das potencialidades e vulnerabilidades do país que éramos. É o que sinto faltar aqui, bem longe da lógica autoritária modernizante dos estúpidos Estados de Segurança Nacional…

PS: A primeira imagem data de 1973, oriunda deste blogue de antigos soldados, que parece inactivo, mas onde até não falta o esboço de um dicionário de baikeno. A segunda é da minha autoria, de anteontem. O bronze que está na base do monumento não tem o nome de qualquer venerando figurão visitador de antes de 1975, mas o de António Guterres, do ano 2000. Muito justamente. Já agora, um grande abraço ao meu vizinho asiático Combustões, que resiste no Sião, testemunhando, como português antigo e português de sempre, que vale mais experimentá-lo do que julgá-lo.

Dez 01

De como me sobe o coração à cabeça… Timor cresce como um grito ecoando em todos nós…

Sou  mesmo um romântico, um daqueles que, como Hernâni Cidade disse, lhe sobe o coração à cabeça. Por isso, vou dar uma aula sobre teoria da lei e interpretação do direito, assim com Savigny pelos começos, sem seguir as preferências marxianas do Professor Barata Moura sobre a matéria. Como lhe confessei um dia, na barra do Kwanza, ainda acredito que, no mundo afro-asiático, o direito pode ser expressão directa da consciência jurídica popular, uma produção instintiva e quase inconsciente, onde há um espírito particular, e o mesmo é gerador da poesia, dos costumes, da língua e de outros segregados da história. Por isso, levei para as aulas Ruy Cinatti e Luís de Camões, que hoje é o primeiro de Dezembro e aqui não é feriado, porque o foi na passada sexta-feira, dia da declaração unilateral da independência pela Fretilin, em 1975, coisa parecida ao que tentou D. António, o Prior do Crato, em 1580, antes da chegada do invasor que também herdou, comprou e ocupou…

Mas os sessenta anos de “integração” no império dos habsburgos de Madrid, fizeram com que se gerasse uma literatura autonomista que também criou essa comunidade imaginária que é a nação portuguesa, este fingir que é verdade aquilo que na verdade sentimos, pese embora os muitos da elite que continuam a preferir um qualquer Filipe II, em nome da  racionalidade importada e da possibilidade de ascensão ao tacho internacional, com que os multinacionais costumam premiar Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos. Timor Lorosae ainda tem muita poesia por cumprir, muitas Actas das Cortes de Lamego para falsificar, muito sebastianismo para subverter os instalados. Aqui ficam os últimos versos do Cancioneiro de Cinatti

Praia presa, adiantada

no mar, no longe, no círculo

de coral que o mar represa.

Praia futura invocada.

Timor ressurge das águas,

praia futura invocada.

Molho o meu sangue na alma

da bandeira que mais prezo,

porque tenho nela a voz

da minha candeia acesa.

Sou transparente ao luar

da minha candeia acesa.

Senhor da terra, das águas,

do ar e dos milheirais.

Senhor Mãe e Senhor Pai,

dai-me um desejo profundo.

Que eu seja senhor de mim!

Dai-me um desejo profundo.

De monte a monte, o meu grito

soa, soa, como voz

de um eco infinito

ecoando em todos nós.

Timor cresce como um grito

ecoando em todos nós.

“A boca emudece, a voz apaga-se”

Dez 01

Estive ontem aqui, Lifao, Oe-Cusse

Estive ontem aqui, Lifao, Oe-Cusse, também dito Ambeno, o mais longe e o mais só dos sítios que foram do fim de Portugal. Levei, no meu bornal, um livro de rimas e cartas de Camões, Paris, Pedro Gendron, III volume, assim portátil, e em edição de 1759. Fui ao monumento de Lifao, onde os portugueses contemporâneos de Camões terão desembarcado na ilha, pela primeira vez. O autor de “Os Lusíadas”, o amigo dos Jaus, estava processado e não terá seguido viagem. Eu fui, mas por terra, três dias, quatro paragens de longas horas em fronteiras, sempre em duplicado, ora em Timorense, ora em indonésio (Batugadé, Oesili, Wili, Batugadé), mas valeu a pena.  E li: despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças dèra de comer atá então, com pregão publico, por falsificadoras de moeda. E desenganei esses pensamentos, que por casa trazia, porque em mim nam ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que me nam via, se nam por entre lusco &  fusco, as derradeiras palavras, que na Nao disse, forão as de Scipião Africano, “Ingrata patria, non possidebis ossa mea” (pp. 45.46). Aliás, amanhã é o 1º de Dezembro. Aqui deixo o meu depoimento, a publicar em Lisboa, em O Diabo:  O 1º de Dezembro é sério demais para poder ser utilizado como pretexto de análise de um governo que tem figuras de estadão como estas e que não divulgo, para não poder cumprir o dito segundo o qual em política o que  aparece é que é. Como dizia mestre Alexandre Herculano, Portugal só é independente quando tem a vontade de ser independente, mesmo que, na prática, o sermos independentes signifique gerirmos dependências e navegarmos nas interdependências.  1640 não foi feito contra a Espanha nem sequer num só dia, mas preparado com um investimento de décadas e décadas. E, como dizia outro dos meus mestres Agostinho da Silva, a principal consequência de 1640 chamou-se Brasil. Aliás, o plano vinha de longe e não é por acaso que um D. Luís da Cunha , pouco tempo depois da restauração, advogava a mudança da capital para o Rio de Janeiro, dando como exemplo um seu avô, implicado no partido de D. António Prior do Crato, com quem entrou em desavença porque este quando foi obrigado a abandonar o  reino, optou por refugiar-se na Europa e não no Brasil. Repetindo Herculano e Agostinho, digo que Portugal corre o risco de perder a independência se os portugueses perderem a vontade que os levou a refundar Portugal várias vezes, nomeadamente nos últimos trinta anos, quando muitos disseram Europa como em 1640 dissemos viva D. João IV. Pouco me interessa este governo, porque sei que nele há ministros tão patriotas como os melhores patriotas, bem como outros tão alheios à emoção nacional quanto muitos outros que também tivemos em todos os regimes. Por estes meses, estou na República do Sol Nascente, como  professor na Universidade Nacional de Lorosae, enquanto agente de  cooperação da universidade pública portuguesa e sinto que a comemoração do 1º de Dezembro deveria ser o reconhecermos que, graças a ele, esta língua de Camões, de Cecília Meireles e de Rui Cinatti é a língua mais falada no Hemisfério Sul, deste lado de baixo do Equador. Infelizmente, os instrumentos que dispomos para a defender são parcos demais e aqui, não tanto pelas culpas dos governos portugueses, quanto por não conseguirmos fazer da CPLP uma comunhão entre as coisas que se amam. Por isso, vou comemorar o 1º de Dezembro, sonhando que, dentro de anos, esta semente de república universal falada em português, em tétum, ou nos muitos crioulos seus heterónimos, pode assumir em termos de poder político internacional o necessário abraço armilar. Pode ser que um dos próximos Papas seja angolano ou que o Brasil, além do G20, se torne membro  permanente do Conselho de Segurança da ONU. O que falta ao Portugal do quintal europeu é que os portugueses à solta não tenham que continuar a procurar Portugal fora de Portugal, por causa dos “ministros do reino por vontade estranha” que chamam doido ao Manuelinho. Como sou do partido de Mateus Álvares, de São Julião da Ericeira, continuo à procura da República Maior, como o jurista da restauração João Pinto Ribeiro, chamou à nossa comunidade política.