Dez 10

Há quem não goste de ser tratado como gado corrupto, como mais um escravo que se pode adquirir no mercado da concorrência desleal

Não é Tereza Batista, mas José Sócrates que se diz cansado de guerra com os professores, utilizando uma metáfora pouco propícia à missão docente, enquanto o episódio da gazeta dos deputados, que apanhou em cheio o PSD, demonstra como a sala da Câmara dos Pares é menos propícia ao controlo electrónico do que o hemiciclo do Solar dos Barrigas. Não tardará que depois de casa roubada, apareçam ainda mais clamores sobre o controleirismo dos senhores representantes da nação, numa espiral que, como a evasão fiscal, levará a ainda mais gazetas, porque o problema não está em substituir os presidentes dos grupos parlamentares por policiais sargentos de milícias, mas de darmos uma função nobre ao parlamento.

Aliás, quando, em mero registo de “lapsus calami”, um jovem secretário de estadão deste governo lusitano  proclamou que quem não estivesse com as magníficas reformas socráticas seria trucidado, ele apenas cometeu um erro de pôr mais um texto fora do contexto, sem trazer a coisa nomeada ao próprio nome. Aliás, nem sequer atingiu o nível de uma piada como aquela em que, outrora, Jorge Coelho tentou mobilizar o partido clamando em comicieirês que “quem se mete com o PS leva”. Qualquer um desses lapsos, não me leva a elogiar Maria de Lurdes, mas apenas me faz admirar antigos colaboradores do velho diário anarco-sindicalista, como a genialidade do escritor Ferreira de Catsro, a autenticidade memorialista de um Alexandre Vieira ou os rasgos de paciente patriotismo do historiador Mário Domingues, santomense e tudo.

Apenas registo mais este rol de decadentismos, sem dizer teias da conspiração e estupidez vingativa da persiganga, agremiando generais solitários com alferes auxiliares, sargentos verbeteiros e uns donzéis ambiciosos e carreiristas. Já disse tudo e quero regressar assim com a razão posta em discurso. Basta notar como uma simples faúlha incendiou a muita palha do parceiro grego. Basta ter ouvido os avisos que ontem lançaram Daniel Bessa e João Salgueiro que, para leigo, disseram que não podemos continuar a viver acima daquilo que produzimos, porque o gnosticismo da integração europeia e da globalização, nestes domínios, é coisa que já era e nunca, na verdade, foi.

Porque há altos serventuários do estadão que se assumem como de primeira, especialmente quando pensam que as outras gentes do Puto são todas de segunda, esquecendo que há quem não goste de ser tratado como gado corrupto, como mais um escravo que se pode adquirir no mercado da concorrência desleal, só porque estamos sujeitos a claustrofobia. Mesmo quando me dizem que o mosquito do dengue ataca apenas a horas de meio dia, temo confundi-lo com as melgas que gostam do crepúsculo.

Por mim,  não tenho aquela potência absoluta que permita manejar a classificação do bem e do mal, onde tanto há bestas que passam a bestiais, como bestiais que passam a bestas, conforme os caprichos e a birras do déspota mimado. Eu sei que a noite desceu sobre a cidade, mas vivo, ainda assim na outra metade do mundo. E não posso esquecer, não sei esquecer. Porque algumas vezes me viajei assim por dentro, vibrando sobre as pequenas colinas que vislumbrei, além dos farrapos que me encobriam o dia. E já nem sei se o que aconteceu foi em verdade ou foi em sonho, quando olhei de mim, longe de mim, outros sinais.

E sinto. Sem  pensamento. Sinto o sabor de outros sentires que só uma vez se sentem porque foram a primeira vez, a única vez. Como as feridas que abri nos frutos da terra, as sinfonias de um estampido diante do mar, nesses sinais que foram e me deram eternidade. Porque, na memória, eles são recordações de felicidade.

Dez 10

Homem Livre! Azul e branco ou verde e amarelo…sonho, logo sou…

Herculano, Cortesão, Garrett, Burke,  Pacoaes, Kant, Agostinho, Pessoa, Churchill, Neto Paiva… bolas! Noventa por cento dos meus mestres, assinados, públicos e notórios, de há muito, de há décadas, são do profundo azul e branco e da  cruz templária que me deu pátria e liberdade. Este segredo que de mão a mão nos une em corrente livre de algemas, mas plena de união na diversidade. De direita ou de esquerda, da tradição ou do progresso, realistas ou republicanos, mas sempre contra o fanatismo, a ignorância e a intolerância, pela santa liberdade!..

Eis minha resposta a um comentário anónimo de um blogue pleno de fascistas folclóricos e de informações à velha maneira pidesca… os tais que pensam que têm o monopólio de pátria, só porque esta foi averbetada pelos sargentos, ao mesmo tempo que confundem a sacristia com o espírito. E também um aviso para os que pensam que é por oportunismo que se proclamam convicções liberais, à antiga, da lusitana antiga liberdade, de Velasco Gouveia a Luís da Silva Mousinho de Albuquerque.  Há sangue demais, exílio demais, prisões demais, para que me possa esquecer que a liberdade é uma conquista.

E aqui o digo, cá de Dili, quando a corrente descendente dos dias de regresso começa a contabilizar-se, depois de cumprida a missão formal e de realizados os objectivos íntimos que aqui me trouxeram.  Porque consegui, com um safanão na rotina, não reprimir o livro de escritos inúteis que, há mais de dois anos, tinha encalhado nas trocas e baldrocas dos motivos pelos quais recebemos vencimento. E o projecto acabou ontem de ter uma primeira impressão em fotocópia, aqui na editora privada dita Xerox, apenas com um unico exemplar, o meu, para rever, refazer e condensar, com o provisório título que nunca o será de “carreiros de pé descalço” e o subtítulo de “onde no princípio tem de estar o fim”.

Também ontem enviei para Lisboa a revisão das últimas provas da penúltima parte do meu livro no prelo, por mais setenta e cinco USD. Tal como concluí a nova biografia do pensamento político, a ser editada em “respublica”, mas não podendo daqui ser emitida, face às insuficiências do “upload”. Tal como elaborei o rascunho final de uns densos “tópicos políticos” que, quando chegar a Lisboa, irão à procura de editora. Hoje, estou a concluir o relatório à rodriguinha e bolonhesa, a dar os últimos retoques nas notas de avalição contínua, e quase a ter a ilusão de apresentar um projecto de levantamento dos termos e ideias de direito no Timor profundo, não colonizado, não ocupado e não globalizado. Há notáveis trabalhos de alunos que gostaria de ver editados. Para que muitos doutos subsidiados pela cunha do influente não continuem a falar em Sarawak, cortadores de cabeças e fardos de um homem branco que decreta os outros como incivilizados e selvagens, só porque não tiveram Hitler, Torquemada ou o tipo da GNR que, nos anos trinta, pôs a tripas de fora a um meu avoengo. Qualquer Lord Byron, depois da carga de porrada saloia que recebeu em Sintra, disse, como a lenda dos romanos, madrilenizada, que tanto não nos governávamos como não nos deixávamos governar. Vale mais olharmo-nos ao espelho, antes de sentenciarmos sobre o outro.

Por isso, me não entusiasmei com as comemorações do 60º aniversário da declaração-decreto que se disse universal sobre direitos humanos. Preferi recordar o que sobre a matéria disseram Gandhi, Laski e Teilhard. Entusiasmei-me com artigo de Joseph Yacoub e fiquei a pensar numa frase de Teilhard sobre a matéria: Les races humaines ne sont pas égales mais différentes etcomplémentaires comme les enfants d’une même famille. C’est la complexité qui engendre les différences (ainsi que les libertés). Plus les unions complexifient le milieu, moins on peut y introduire de catégories valables, de critères de sélection et de différenciation maniables : il n’y a plus troupeau ou masse ou classes mais des personnes de plus en plus singulières, irremplaçables, indéfinissables.

E compreendi Jacques Maritain: Comme en 1789, c’est l’homme qui légifère : il ne suit pas laconception chrétienne, il n’accepte pas ce qui est en dehors de lui. Ildécrète. Il décrète à son gré ce qu’il pourra à son gré changer ; et il changera tôt ou tard parce que, en décrétant ainsi, il se trompe intrinsèquement.

Leiam, senhores, esse pequeno artigo. Espreitem o que diz um islâmico como Humayun Kabir (1906-1969): Quels que soient ces droits, en théorie, ils ne sont bien souvent reconnus, en pratique, qu’aux seuls Européens, et parfois même à certains Européens seulement. Notem o conselho dado pelo indiano S. V. Puntambekar: Il n’existe plus d’êtres humains dans le monde : rien que des hommes soumis aux préjugés de religion et de race, de caste ou de groupe. [...] Le monde est aujourd’hui en proie à la folie ; il se précipite vers la destruction et le despotisme, il aspire à tout conquérir et à tout dominer, à tout piller et à tout dépouiller.

E tudo me foi provocado, quando ontem, ao sair da universidade, mesmo diante do Parlamento Nacional, a rua estar cortada, cheia de polícias, num dos raros espectáculos de securitário que aqui me foi dado assistir. Logo me deram a explicação: o Presidente José Ramos Horta estava no plenário a comemorar o sexagésimo aniversário da declaração. Vim para casa, acabei de ler e anotar o Luna de Oliveira, o René Pélissier e o Geoffrey C. Gunn e a perceber a razão da SAPT ainda ter permanecido na família do governador Celestino. Alguns desses livros jaziam na minha biblioteca em Lisboa, mas só os consegui compreender, sentindo, aqui, o ambiente de ir comprar café nos pátios do complexo agrofabril do BNU, onde hoje se situa a Ensul e que bem podia ser um belo museu do nosso bancoburocrático do rotativismo, do republicanismo e do estadonovismo, com os dentes e os lábios vermelhos de betel.

Porque só sentindo o pensamento se atinge a razão inteira que é a razão complexa. Continuo convicto na minha identidade do só sei que nada sei, do penso, logo existo, e do “in God we trust”, onde Deus podem ser deuses e Deus é o mesmo do que o mundo, à boa maneira de Espinosa e de todos os heréticos não agnósticos que dele descendem. Como eu. Que também cito São Tomás de Aquino, Francisco Suárez, Jacques Maritain e Teilhard de Chardin. Vou continuar a pensar o sentimento, sobretudo quando tenho o privilégio de ser despertado pelo sentir do pensamento. Sonho, logo sou.

Dez 10

homem livre! Azul e branco ou verde e amarelo…sonho, logo sou…

Herculano, Cortesão, Garrett, Burke,  Pacoaes, Kant, Agostinho, Pessoa, Churchill, Neto Paiva… bolas! Noventa por cento dos meus mestres, assinados, públicos e notórios, de há muito, de há décadas, são do profundo azul e branco e da  cruz templária que me deu pátria e liberdade. Este segredo que de mão a mão nos une em corrente livre de algemas, mas plena de união na diversidade. De direita ou de esquerda, da tradição ou do progresso, realistas ou republicanos, mas sempre contra o fanatismo, a ignorância e a intolerância, pela santa liberdade!.. Eis minha resposta a um comentário anónimo de um blogue pleno de fascistas folclóricos e de informações à velha maneira pidesca… os tais que pensam que têm o monopólio de pátria, só porque esta foi averbetada pelos sargentos, ao mesmo tempo que confundem a sacristia com o espírito. E também um aviso para os que pensam que é por oportunismo que se proclamam convicções liberais, à antiga, da lusitana antiga liberdade, de Velasco Gouveia a Luís da Silva Mousinho de Albuquerque.  Há sangue demais, exílio demais, prisões demais, para que me possa esquecer que a liberdade é uma conquista. Apenas registo mais este rol de decadentismos, sem dizer teias da conspiração e estupidez vingativa da persiganga, agremiando generais solitários com alferes auxiliares, sargentos verbeteiros e uns donzéis ambiciosos e carreiristas. Já disse tudo e quero regressar assim com a razão posta em discurso. Basta notar como uma simples faúlha incendiou a muita palha do parceiro grego. Basta ter ouvido os avisos que ontem lançaram ilustres economistas que, para leigo, disseram que não podemos continuar a viver acima daquilo que produzimos, porque o gnosticismo da integração europeia e da globalização, nestes domínios, é coisa que já era e nunca, na verdade, foi. Porque há altos serventuários do estadão que se assumem como de primeira, especialmente quando pensam que as outras gentes do Puto são todas de segunda, esquecendo que há quem não goste de ser tratado como gado corrupto, como mais um escravo que se pode adquirir no mercado da concorrência desleal, só porque estamos sujeitos a claustrofobia. Mesmo quando me dizem que o mosquito do dengue ataca apenas a horas de meio dia, temo confundi-lo com as melgas que gostam do crepúsculo. Por mim,  não tenho aquela potência absoluta que permita manejar a classificação do bem e do mal, onde tanto há bestas que passam a bestiais, como bestiais que passam a bestas, conforme os caprichos e a birras do déspota mimado. Eu sei que a noite desceu sobre a cidade, mas vivo, ainda assim na outra metade do mundo. E não posso esquecer, não sei esquecer. Porque algumas vezes me viajei assim por dentro, vibrando sobre as pequenas colinas que vislumbrei, além dos farrapos que me encobriam o dia. E já nem sei se o que aconteceu foi em verdade ou foi em sonho, quando olhei de mim, longe de mim, outros sinais.