A grande crise-macro da partidocracia deriva precisamente de ela se ter enredado no federativismo de micro-patifarias

O partido sistémico português com maior número de dissidentes “per capita” é, sem dúvida, o eterno mais pequeno de todos eles e, do qual, infeliz e envergonhadamente, fiz parte, no estreito espaço que teve como a quo o dia em que dele saiu, em suspensão de militância, o formal fundador, depois feito ministro dos estrangeiros de Sócrates. Contudo, foi breve o ad quem,  porque logo, dele, me pus a andar quando o dito cujo voltou, antes de, novamente, dar às vilas Diogo, onde o acaso do nome coincide, sem ser por mera coincidência.

Aliás, quando decidi dissidir, ainda tive a tentação de, com isso, fazer estrondo, através de uma carta da qual me esmerasse, através de programada fuga de informação, mas tive o bom senso de preferir a amargura do silêncio, para nunca mais ter de os aturar. Aliás, ainda foi tudo antes da queda do Muro de Berlim.

Acresce que, só anos depois de eu ter saído, é que Portas entrou, pelo que, deste, e dos respectivos opositores, me sinto totalmente indiferente, não porque deteste a vida partidária, dado ter sido fundador de dois falhados partidos e de mais dois ou três movimentos cívicos, mas porque não admito que, na vida das instituições, nos imponham um padrão comportamental que nunca admitiríamos aos nossos filhos, aos nossos pais, aos nossos amigos e aos nossos íntimos.

Aliás, a falta de espinha de tal grupelho é directamente proporcional aos discursos morais contra a falta de espinha que costumam ser proferidos pelos seus antigos presidentes e altos dirigentes, dos quais eu quero excluir tanto um Adelino Amaro da Costa como um Francisco Lucas Pires. Dos outros, reza a história que todos, à excepção do Monteiro e do Zé Ribeiro e Castro, dele quiseram servir-se e até utilizaram o carimbo histórico de terem sido líderes de tal instituição, para subirem a relação colaboracionista com instituição adversa que, a seguir, os prebendou, chame-se PSD ou PS.  Logo, se estes e eles continuarem a ser a direita, eu continuarei a ser da extrema-esquerda.

Ainda hoje me rio de certas lembranças, nomeadamente quando, um dia, jantando com os presidentes da JSD e da JP, na presença de Portas e Manuela Ferreira Leite, numa dessas universidades de Verão de uma das jotas, ter tido uma delicada altercação com Portas, dado que este se referia a um período da vida do CDS em que eu era máximo dirigente da coisa e ele, colaborador formal do cavaquismo partidário. Ele, que nada podia saber de tal história, dizia que o que estava a dizer lhe tinha sido dito pelo presidente do partido de então. Eu apenas lhe disse que o referido não passava do primeiro dos mentirosos, em nome da razão de Estado dita cristã, mas efectivamente talleyrandesca. E mais não disse. Mostrei as provas. E com Portas, nisso e depois disso, tudo correu em delicada e bem educada relação, porque o tipo é, de facto, alguém de encantadora inteligência e de finíssimo trato. Aliás, posso dizê-lo porque nunca pertenci, em simultâneo, a qualquer partido de que ele também fosse militante.

Quanto à outra estória, basta, um dia, questionarem o Vítor Constâncio e o Eanes, para que ele expliquem a razão pela qual o governo de maioria relativa de Cavaco teve pernas para andar, graças à opção de Soares.

O mal não está na partidocracia, mas na lógica neomaquiavélica que marca todo o ritmo participativo no Portugal da decadência, onde se contam votos e onde impera a lógica do homem de sucesso, do ter razão quem vence. Até um dia lhes acontecer o fim do período de ascensão e rebentar a queda, à maneira dos presidentes de clubes de futebol, ou de bancários feitos banqueiros pela engenharia da cunhocracia.  Feliz ou infelizmente, fui educado para não ter que suportar patifes desse jaez, como alguns desses travestizados de padreca que, um dia, comigo, se cruzaram institucionalmente.

Um deles chegou a visitar os meandros da prisão preventiva, mas era todo poderoso enquanto mandava e acumulava sinais distintivos de riqueza. O outro ainda continua a ir de vitória em vitória, julgando que não chegará a derrota final, pelos mesmos ferros com quem tentou matar os outros. Os dois podiam ter o mesmo nome, porque são feitos da mesma massa moluscular, para quem a política se reduz a comprar os adversários e a ameaçar os dissidentes ou opositores com os “casse têtes” do neopidismo e da traição. A grande crise-macro da partidocracia deriva precisamente de ela se ter enredado no federativismo de micropatifarias. O principal problema político é, afinal, um problema moral.

Leio aqui a explicação: Aos Judeus de Villadiego foi concedido, pelo rei Fernando III da Castela, o direito de não serem perseguidos. Havia, no entanto, uma contrapartida: tinham que usar calças (os castelhanos usavam calção), calças essas que nunca abandonavam, para garantirem os seus privilégios. Os Judeus de Burgos ou de Toledo não tinham tais privilégios e, logo que perseguidos, abandonavam tudo o que tinham e fugiam para Villadiego. Nesta localidade, ofereciam-lhes umas calças para escaparem aos perseguidores, mas com um preço: eram forçados a pagar um tributo aos Judeus locais. Em suma, tinham que continuar com as calças na mão para o resto da vida. Daqui vem também a expressão que se utiliza em Espanha e em algumas regiões portuguesas junto à fronteira espanhola.

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