A Ilha Verde e Vermelha de Timor e um ministro sidonista

E eis-te no fim do mundo,

Costa verde e vermelha de Timor!

Mas que divina, extraordinária cor,

A do teu céu, a do teu mar profundo!

É d’oiro a manhã de Dili.

(Alberto Osório de Castro)

Não foi por acaso que Ruy Cinatti dedicou Um Cancioneiro de Timor a quem editou,  em Dili, no ano de 1908, Flores de Coral. Ambos chegaram ao amor de Timor pela misteriosa capacidade de sentir e de amar a Terra, o Homem e Deus, como Jorge Dias disse do primeiro. Porque Alberto Osório de Castro, aqui magistrado no crepúsculo da monarquia e que até há-de ser ministro da justiça da República Portuguesa, no sidonismo, é mais do que as aparências de um título: A Ilha Verde e Vermelha de Timor, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1943. Basta assinalar que os primeiros versos desta publicação surgiram na revista Seara Nova, em 1928. É melhor lê-lo, integrando-o no seu tempo: de colega, e íntimo amigo, de Camilo Pessanha.

Na frescura das ribeiras.

Murmura perpetuamente

A verde sombra virente

Das gaboeiras

À contemplação da paisagem em Fahi-ten

Saudades são a lembrança

Dalgum bem que nos deixou

P’ra sempre, e sem esperança

De volta, o bem que passou.

E passa mesmo a lembrança

De todo o bem que findou

Depois de uma viagem de regresso Lahane

Alto vale de Lahane, ermo e divino,

No murmúrio das águas! Quantos dias

Por tuas sombras divaguei, absorto

Na beleza da vida morredoira,

Face do mundo misteriosa e vária…

A infinda noite opalescente

Sobe, arrebatadoramente,

A fugir de todo o olhar,

Céu tão claro, tão surpreendente,

Que sente a alma, longinquamente,

Como um voo do céu aflar.

A asa translúcida e nevada

Roça de leve a cumeada,

Adeja, e perde-se a alvejar

Na azulada noite doirada…

Presença alada enamorada

Da imensidade do luar.

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