O neocabralismo revisitado, face a novas propostas de estrela amarela, para que voltemos a ser a galhofa do Ocidente

Não foi por acaso que, ontem, ao ouvir, aqui em Dili, relatos autênticos, provindos de um violentado por certa grandiosa personalidade, pertencente a uma certa religião universal, me foi dado concluir que todas as grandes instituições universais se compõem de três elementos: um que é secreto, o da fé; o elemento caridoso, da filantropia, da fraternidade ou da solidariedade; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época reage, quanto à atitude social, diferentemente. Isto é, aquilo que o jesuíta Francisco Suárez concluiu quando deu mais Aristóteles e mais estoicismo à primeira versão restauracionista dos princípios greco-romanos de São Tomás de Aquino. Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito metafísico, cada ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade dos indivíduos, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa. Contudo, há uma entidade que gira, porém, em torno de uma só idéia – a “tolerância”; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Uma entidade que não tem uma doutrina. E tudo quanto se chama doutrina da coisa pública em causa são opiniões individuais dos membros da instituição, quer sobre a ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas. Mas, as suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a instituição nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos fundamentalistas, ou dos militantes de certas doutrinas e ideologias, consiste em tentar definir o espírito do que é metapolítica, em geral pelas afirmações de membros particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé. O segundo erro dos mesmos fundamentalistas, de todas as ideologias e de todas as religiões, consiste em não querer ver que a instituição, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua ação social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a instituição como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue daqui que nenhum ato político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da instituição em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a instituição não criou. As citações em cripto-escrita e metalinguagem fazem parte de um artigo que certo empregado de uma agência de publicidade enviou para um Diário de Lisboa, depois de um deputado lusitano,proponente da restauração da pena de morte, ter conseguido a aliança de alguns ilustres lentes de Direito e de alguns traidores, para emitir a primeira lei formal do regime derrubado em 1974. Por mim, continuo, como sempre, seguidor das perspectivas de meu mestre Fernando e julgo que a recente aquisição de algumas peças do respectivo espólio só foi possível devido a manobras de organizações secretas, como aquelas que levaram à fundação de uma escola onde autor do  ilustre postal que me serve de pretexto foi formado. Logo, deve o mesmo Fernando ser banido de todos os manuais escolares, juntamente com os textos de outros inimigos da humanidade como Goethe e Kant, propondo-se até que o um parque ajardinado onde está a Estufa Fria, em Lisboa, mude de nome, porque o dito cujo faz parte eterna da mesma ordem. Aliás, deveremos extinguir, em nome dos mesmos fundamentalismos, consequências que tanto irritam certas cabecinhas que confundem a nuvem com Juno, ou Mafoma com o toucinho,  como a república norte-americana,  a monarquia e a revolução inglesas, ou uma entidade política feita em torno de tais princípios diabólicos, um tal Brasil, que, por acaso, é o Estado mais católico do mundo. Infelizmente a destruição da monarquia liberal portuguesa impediu que Portugal, nesse âmbito da tolerância e da complexidade crescente, copiasse a grande esperança da pátria da língua portuguesa para o século XXI. Concordo plenamente com a recente proposta do reitor da universidade concordatária lusitana: a república a que chegámos deve pedir desculpa aos jesuítas, mas desde que os eclesiásticos católicos, nesta de perdão, façam como os mais recentes Papas fizeram face aos judeus e, no universo da história contemporânea lusitana, peçam deculpa aos liberais, no strictu sensu da palavra. Volta, José dos Santos Cabral, estás perdoado!  Porque já não há fogueira, nem autos ditos da fé, a estrela amarela, já! Mesmo para liberais à antiga, de sempre, e para sempre, militantes conservadores, de mal com os progressistas por serem do nacionalismo místico, e de mal com os reaccionários por serem tradicionalistas. O pior dos que se pensam sabedores de segredos, confundindo o nome com a coisa nomeada,  é não saberem que o verdadeiro segredo está em não haver segredo, a não ser para a metapolítica, a metalinguagem e o amor. Só não é segredo nenhum que mesmo entre os portugueses alguns traidores houve, algumas vezes…

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