Jan 09

Como não é possível mudar os portugueses que temos

Como não é possível mudar os portugueses que temos, através da engenharia totalitária, que tinha a ilusão de construir um homem novo, talvez seja melhor mudar a classe política através de uma profunda reforma que venha da sociedade para o Estado, com mais política e menos partidocracia.  O nosso problema não estar em repetirmos o velho “slogan” do “menos Estado, mais sociedade”, mas antes em termos um melhor Estado, em repolitizarmos o Estado, diminuindo a gordura muscular dos aparelhos, calcificando as respectivas estruturas ósseas e fazendo com que, nas articulações com a sociedade, seja eliminado o método da corrupção, ou compra de poder, e que, no plano da mobilização para o bem comum, se restaure a cidadania activa contra o indiferentismo, reinventando os laços tradicionais da vizinhança, do municipalismo, do regionalismo, do sindicalismo e do patriotismo, bem como apoiando a autonomia da sociedade civil, através da esquecida educação cívica e de uma autêntica revolução do sistema de ensino, liquidando a herança de Veiga Simão e dos compadres educacionólogos e avaliólogos, esses profissionais do reformismo burocrático que, com ele, andam a ser pagos vitaliciamente para nos continuarmos a derrotar em ministerialices pseudo-educativas que deveriam ser liminarmente extintas.  Para um cidadão que perfilha a democracia quase como uma religião secular, orgulho-me de viver politicamente como penso, para que os meus descendentes possam dizer que, na hora certa, não desisti de lutar pelas minhas crenças, mesmo que corra o risco de ter razão antes do tempo. Por enquanto, com uma teledemocracia, onde a tríade dominante é a “imagem, sondagem e sacanagem”, para citar Manuel Alegre, temos uma autêntica ditadura da incompetência dos poderes fácticos e do neocorporativismo, onde dominam as cabalas dos “pios brothers” e o deboche das “quintas das celebridades” que nos envergonham. Com este videopoder ao ritmo pimba, é natural que as estrelas politiqueiras desçam ao nível dos maus actores de tragicomédia que não sabem ser os autores da necessária regeneração nacional que nos liberte de séculos de colectivismo moral, entre o inquisitorialismo de má memória e o autoritarismo pidesco, ambos marcados pela mesma bufaria moral que, agora, posta ao serviço de ocultos “lobbies”, quer destruir a forma humana de vivermos, porque não parece que a natureza humana, marcada pelos laços da família, da vizinhança, da pátria e da humanidade, possa ser reinventada por certas idiossincrasias que, só por serem adoptadas por alguns líderes partidários e por certos ministros, não deixam de ser um normal anormal. Por outras palavras, não sendo um fiel catolaico, à maneira do Professor Rocco Buttiglione, mas antes um mero homem de boa vontade pouco dado à sacristia, comungo com alguns dos gritos de alma de certa postura conservadora, expressa pelo combate pelos valores, desencadeado por João Paulo II e em que coincidem muitos dos militantes do humanismo laico. A estupidez do nosso tempo está em logo qualificar esta sensibilidade, sociologicamente maioritária, como ultra-reaccionária, dado que o “politicamente correcto” impõe a cobardia de termos medo dos “lobbies gays”, onde actualmente se integram muitos destacados direitistas que só gostam de se dizer de direita quando invocam as ridicularias patriotorrecas e a defesa dos privilégios negocistas do capitalismo de faca na liga, mas que admitem chamar casamento às uniões entre homossexuais, que devem ser lícitas e estadualmente protegidas, e permitem que as mesmas possam praticar a adopção.