Jan 20

Quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia

Reli hoje um pequeno texto que publiquei no “Diário de Notícias” há alguns anos. Fui uma das poucas vozes que publicamente apareceu a defender dois dos meus professores. Um já faleceu. O outro esqueceu-se. Aqui o republico, para que ele se relembre e para que eu não me arrependa de nele ter confiado. Apenas me esquecerei se ele continuar no reino da ignorância sobre os pormenores de certa trama. Saneei aqui as eventuais ligações não categoriais. Mas este texto está “on line”, e sempre esteve, na minha página profissional.

“Depois de séculos de pretenso santo ofício, remodelado sucessivamente pelos juízos de inconfidência, pelos moscas dos intendentes, pelos agentes do maneta, num modelo perpetuado pelos formigas brancas, pelos polícias de defesa do Estado e pelos comités de vigilância revolucionária, parece continuar em vigor entre nós aquele princípio do regimento da dita santa inquisição, segundo o qual a denúncia é um dos meios principais, mesmo com escritos não assignados e denunciações de ouvida.

Se já não há mesas do santo ofício, com as suas sessões de genealogia e in specie; se o denunciado não tem que temer os cárceres do dito, a morte civil ou outras afrontas, continua a bastar uma carta anónima remetida a duas ou três instituições públicas (incluindo o DIAP), desde que se encene uma fuga ao segredo de justiça, para certos órgãos de comunicação social tratarem de lançar alguém para o pelourinho da suspeita. O terrorismo nihilista que percorre os meandros de certa opinião publicada, se pode não afectar a opinião pública nem beliscar a opinião crítica, nem por isso deixa de arrastar alguns nomes para o pelourinho da suspeita, numa política de camartelo que vai unidimensionalizando quem ousa sair da fileira das modas estabelecidas e sabe que só é moda aquilo que passa de moda, que só é novo aquilo que se esqueceu.

Vem isto a propósito de uma parangona pseudo-jornalística que acusa de … dois catedráticos da … . Se os especialistas na matéria não estranharão tal processo, os incautos ledores das prosas publicada, onde a imaginação criadora do transmissor da notícia já vislumbra agentes da Polícia Judiciária na consulta de incunábulos e na denúncia dos novos piratas de autores medievos, poderão considerar que não há fumo sem fogo e, certamente, não terão paciência para aturar a resposta técnico-científica que os dois mestres já deram. Porque, como dizia Voltaire, menti, menti, que da mentira alguma coisa fica. Por outras palavras, o objectivo dos denunciantes já compensou a denúncia, porque o efeito do golpe, nunca pode ser remediado pela letra miúda da defesa da honra.

De qualquer modo, como seria estimulante sentir os nossos agentes de investigação penal correrem lestos pelos glosadores e comentadores e pedindo peritagem técnica aos eruditos mundiais na matéria, numa acção digna de um romance de Umberto Eco e quase tão estimulante como foi a cena da polícia política salazarista a interrogar os desvios filosóficos de Abel Salazar, recorrendo a Leonardo Coimbra, que saiu da polícia insultando os pobres agentes que o tentaram usar como mero intérprete. Tudo seria ridículo, se não fosse trágico e se, nos meandros do processo, não tivesse havido mentira e intenção de ofender a honra de quem por não dever, não deve temer.

Tristes são estes nossos tempos quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia, escondida sob o anonimato. Tristes de nós se continuarmos amarrados àqueles pretensos analisadores de notas de pé de página que preferem arrazoar sobre o sexo dos anjos de uma pequena folha ou de um pedaço de ramo, esquecendo a árvore e perdendo o sentido da floresta. Tristes são os tempos se dermos o nome de autores àqueles que não têm autoridade e se qualificamos como autoridades aqueles que não são autores.

Quanto apetece plagiar Camilo Castelo Branco, quando este, em 1852, falava numa época essencialmente analisadora, onde o nosso público é zelosamente empenhado em julgar os grandes e pequenos acontecimentos, desde a revoltosa queda de uma dinastia de quinze séculos até à demissão imprevista de um cabo de polícia. Também julga os grandes e pequenos homens, desde o heróis de cem batalhas até bagageiros inofensivos: desde César a João Fernandes.

O defeito continua quando se fotografa um homem de Estado em trajes menores, ao mesmo tempo que se conjectura sobre a moeda única, se elabora uma teoria sobre o erro crasso de um determinado árbitro num jogo de futebol ou se disserta sobre um qualquer jurista medieval.

Não quero entrar na polémica … a propósito dos fragmentos de casca árvore que a motivaram, nem sequer imaginar quem serão os inspiradores da falsa denúncia, certamente alguns mais alfarrabistas-historiadores do que historiadores de histórias de alfarrábios, mas não posso deixar de lastimar a lama que foi atirada a dois autores, a uma escola e a uma profunda tradição universitária portuguesa. …

O nihilismo inquisitorial, adepto da terra queimada pela intriga, instrumentalizando a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, não pode ser compensado pelo rigor da protecção coactiva de uma qualquer lei, nem pelos meios de defesa do poder judicial. Para além do direito, há a moral, aquele valer a pena estar de acordo consigo mesmo, mesmo que pareça estar-se em desacordo com todos os outros.

O velho provérbio de que os cães ladram, mas a caravana passa, não é reconfortante e pode não ser verdade, porque implica deserto, caravana, camelos e cães disponíveis para ladrar. Há quem não ande em caravanas, há sítios que não gostam de ser deserto e há os cães que obedecem sempre à voz do dono ou daqueles que os assanham. Talvez não valha a pena termos de escolher, do mal, o menos, isto é, entre o canino e o camélico, quando se prefere a terra dos homens, quando apetece caminhar e há tanto que fazer neste nosso tempo que já não é de vésperas, mas de insensível caminhada para um vazio de poder cultural, para onde correm lestos os iconoclastas dos novos camartelos colonizadores.

Neste tempo de globalização, de diluição das diferenças nos todos unidimensionais das modas culturais, só aqueles espaços culturais que estão cansados de autonomia se autoflagelam derribando as pedras vivas dos homens livres que vão plantando as macieiras do amanhã. Esses que no silêncio dos claustros semeiam, no longo prazo, o valer a pena continuarmos a autonomia cultural portuguesa”.

Jan 20

Uma república mestiça, feita por subscrição universal!

Lá assisti ao discurso de Obama. E, confesso, entusiasmei-me. Exactamente por aquilo que alguns imediatos críticos denunciaram: não trouxe nada de novo. Podia ser um discurso de há duzentos anos, repetindo palavras dos pais-fundadores da república norte-americana. Porque assim se confirma o que disse Hannah Arendt, repetindo Burke, sobre a revolução desse outro lado do Atlântico: foi uma revolução evitada, à boa maneira liberal. Logo, tanto não gerou uma contra-revolução, como não precisa de uma pós-revolução. Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda aquilo que passa de moda. Só há o verdadeiro fora do tempo, como diria Vieira.

As palavras básicas foram as de “nós, o povo”, confiança, felicidade, esperança, homens livres, imaginação, contra o poder sem convicções, contra a política sem princípios. Estava ali Montesquieu, estava ali Cícero, estava ali Péricles. E, ao fundo, uma arquitectura de edifícios neo-clássica, tentando imitar as formas da velha República Romana, diante de uma multidão simbolizando a praça pública, o “forum”, o “ágora”. Felizmente, a democracia norte-americana não tem a palavra Estado, herdeira do absolutismo, porque a respectiva modernidade sempre assentou nos fundamentos do velho consensualismo pré-absolutista e tudo se mobiliza pelas ideias de Comunidade e de Nação.

Por isso, o Professor Obama voltou a dizer que a América vai continuar a querer iluminar o mundo, em nome de uma ideia de Deus, entendida à maneira de Bento Espinosa. A América como uma república feita por subscrição universal e, portanto, mestiça, à imagem e semelhança do respectivo presidente de hoje. Uma espécie de regresso à terra prometida, cujo sonho gerou a comunidade política mais plural e mais liberal do mundo, naquele paradoxo criativo que a fez ser também a mais cristã e a mais maçónica de todas. Por outras palavras, foi o discurso de um velho liberal idealista, contra o pretenso realismo de neoconservadores e neoliberais. Por isso, também eu quero continuar a ter esperança e todos os que assim pensam e acreditam precisam de uma democracia norte-americana que abandone a treta dos neomaquiavélicos, pretensos defensores da liberdade, para quem eventuais bons fins justificariam os maus meios.

Nenhum dos grandes problemas do mundo pode ser resolvido em solidão por uma eventual república imperial. Mas nenhum desses grandes problemas tem solução sem a cooperação norte-americana, ou com um qualquer regresso ao isolacionismo. A luta contra os interesses, contra a corrupção, contra o poder sem convicções, precisa de aliados. O Ocidente precisa desta renovação do sonho norte-americano. E eu apenas recordo que, quando ele foi eleito, estava em Timor, no meio de mestiços, recordando que o embaixador norte-americano em Jakarta, no tempo da invasão autorizada por Kissinger, era um dos altos hierarcas de Bush. Não o esqueço. Nem deixarei de recordar que a libertação de Timor só foi possível com a presidência do marido da actual “secretária de Estado” de Washington. Que não me engane. A esperança volta a ser discurso e a imaginação pode acontecer, pela Santa Liberdade!

Jan 20

Quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia

Depois de séculos de pretenso santo ofício, remodelado sucessivamente pelos juízos de inconfidência, pelos moscas dos intendentes, pelos agentes do maneta, num modelo perpetuado pelos formigas brancas, pelos polícias de defesa do Estado e pelos comités de vigilância revolucionária, parece continuar em vigor entre nós aquele princípio do regimento da dita santa Inquisição, segundo o qual a denúncia é um dos meios principais, mesmo com escritos não assignados e denunciações de ouvida.  Se já não há mesas do santo ofício, com as suas sessões de genealogia e in specie; se o denunciado não tem que temer os cárceres do dito, a morte civil ou outras afrontas, continua a bastar uma carta anónima remetida a duas ou três instituições públicas (incluindo o DIAP), desde que se encene uma fuga ao segredo de justiça, para certos órgãos de comunicação social tratarem de lançar alguém para o pelourinho da suspeita. O terrorismo nihilista que percorre os meandros de certa opinião publicada, se pode não afectar a opinião pública nem beliscar a opinião crítica, nem por isso deixa de arrastar alguns nomes para o pelourinho da suspeita, numa política de camartelo que vai unidimensionalizando quem ousa sair da fileira das modas estabelecidas e sabe que só é moda aquilo que passa de moda, que só é novo aquilo que se esqueceu. Vem isto a propósito de uma parangona pseudo-jornalística que acusa de … dois catedráticos da … . Se os especialistas na matéria não estranharão tal processo, os incautos ledores das prosas publicada, onde a imaginação criadora do transmissor da notícia já vislumbra agentes da Polícia Judiciária na consulta de incunábulos e na denúncia dos novos piratas de autores medievos, poderão considerar que não há fumo sem fogo e, certamente, não terão paciência para aturar a resposta técnico-científica que os dois mestres já deram. Porque, como dizia Voltaire, menti, menti, que da mentira alguma coisa fica. Por outras palavras, o objectivo dos denunciantes já compensou a denúncia, porque o efeito do golpe, nunca pode ser remediado pela letra miúda da defesa da honra. De qualquer modo, como seria estimulante sentir os nossos agentes de investigação penal correrem lestos pelos glosadores e comentadores e pedindo peritagem técnica aos eruditos mundiais na matéria, numa acção digna de um romance de Umberto Eco e quase tão estimulante como foi a cena da polícia política salazarista a interrogar os desvios filosóficos de Abel Salazar , recorrendo a Leonardo Coimbra, que saiu da polícia insultando os pobres agentes que o tentaram usar como mero intérprete. Tudo seria ridículo, se não fosse trágico e se, nos meandros do processo, não tivesse havido mentira e intenção de ofender a honra de quem por não dever, não deve temer. Tristes são estes nossos tempos quando a coragem da polémica, do duelo de argumentos e do bom combate de ideias, cedem lugar ao cinzentismo da cobardia, escondida sob o anonimato. Tristes de nós se continuarmos amarrados àqueles pretensos analisadores de notas de pé de página que preferem arrazoar sobre o sexo dos anjos de uma pequena folha ou de um pedaço de ramo, esquecendo a árvore e perdendo o sentido da floresta. Tristes são os tempos se dermos o nome de autores àqueles que não têm autoridade e se qualificamos como autoridades aqueles que não são autores. Quanto apetece plagiar Camilo Castelo Branco, quando este, em 1852, falava numa época essencialmente analisadora, onde o nosso público é zelosamente empenhado em julgar os grandes e pequenos acontecimentos, desde a revoltosa queda de uma dinastia de quinze séculos até à demissão imprevista de um cabo de polícia. Também julga os grandes e pequenos homens, desde o heróis de cem batalhas até bagageiros inofensivos: desde César a João Fernandes.  O defeito continua quando se fotografa um homem de Estado em trajes menores, ao mesmo tempo que se conjectura sobre a moeda única, se elabora uma teoria sobre o erro crasso de um determinado árbitro num jogo de futebol ou se disserta sobre um qualquer jurista medieval. Não quero entrar na polémica … a propósito dos fragmentos de casca árvore que a motivaram, nem sequer imaginar quem serão os inspiradores da falsa denúncia, certamente alguns mais alfarrabistas-historiadores do que historiadores de histórias de alfarrábios, mas não posso deixar de lastimar a lama que foi atirada a dois autores, a uma escola e a uma profunda tradição universitária portuguesa. … O nihilismo inquisitorial, adepto da terra queimada pela intriga, instrumentalizando a liberdade de expressão e, sobretudo, a liberdade de imprensa, não pode ser compensado pelo rigor da protecção coactiva de uma qualquer lei, nem pelos meios de defesa do poder judicial. Para além do direito, há a moral, aquele valer a pena estar de acordo consigo mesmo, mesmo que pareça estar-se em desacordo com todos os outros.  O velho provérbio de que os cães ladram, mas a caravana passa, não é reconfortante e pode não ser verdade, porque implica deserto, caravana, camelos e cães disponíveis para ladrar. Há quem não ande em caravanas, há sítios que não gostam de ser deserto e há os cães que obedecem sempre à voz do dono ou daqueles que os assanham. Talvez não valha a pena termos de escolher, do mal, o menos, isto é, entre o canino e o camélico, quando se prefere a terra dos homens, quando apetece caminhar e há tanto que fazer neste nosso tempo que já não é de vésperas, mas de insensível caminhada para um vazio de poder cultural, para onde correm lestos os iconoclastas dos novos camartelos colonizadores. Neste tempo de globalização, de diluição das diferenças nos todos unidimensionais das modas culturais, só aqueles espaços culturais que estão cansados de autonomia se autoflagelam derribando as pedras vivas dos homens livres que vão plantando as macieiras do amanhã. Esses que no silêncio dos claustros semeiam, no longo prazo, o valer a pena continuarmos a autonomia cultural portuguesa”.

Jan 20

Uma república mestiça, feita por subscrição universal!

Lá assisti ao discurso de Obama. E, confesso, entusiasmei-me. Exactamente por aquilo que alguns imediatos críticos denunciaram: não trouxe nada de novo. Podia ser um discurso de há duzentos anos, repetindo palavras dos pais-fundadores da república norte-americana. Porque assim se confirma o que disse Hannah Arendt, repetindo Burke, sobre a revolução desse outro lado do Atlântico: foi uma revolução evitada, à boa maneira liberal. Logo, tanto não gerou uma contra-revolução, como não precisa de uma pós-revolução. Só é novo aquilo que se esqueceu. Só é moda aquilo que passa de moda. Só há o verdadeiro fora do tempo, como diria Vieira. As palavras básicas foram as de “nós, o povo”, confiança, felicidade, esperança, homens livres, imaginação, contra o poder sem convicções, contra a política sem princípios. Estava ali Montesquieu, estava ali Cícero, estava ali Péricles. E, ao fundo, uma arquitectura de edifícios neo-clássica, tentando imitar as formas da velha República Romana, diante de uma multidão simbolizando a praça pública, o “forum”, o “ágora”. Felizmente, a democracia norte-americana não tem a palavra Estado, herdeira do absolutismo, porque a respectiva modernidade sempre assentou nos fundamentos do velho consensualismo pré-absolutista e tudo se mobiliza pelas ideias de Comunidade e de Nação. Por isso, o Professor Obama voltou a dizer que a América vai continuar a querer iluminar o mundo, em nome de uma ideia de Deus, entendida à maneira de Bento Espinosa. A América como uma república feita por subscrição universal e, portanto, mestiça, à imagem e semelhança do respectivo presidente de hoje. Uma espécie de regresso à terra prometida, cujo sonho gerou a comunidade política mais plural e mais liberal do mundo, naquele paradoxo criativo que a fez ser também a mais cristã e a mais maçónica de todas. Por outras palavras, foi o discurso de um velho liberal idealista, contra o pretenso realismo de neoconservadores e neoliberais. Por isso, também eu quero continuar a ter esperança e todos os que assim pensam e acreditam precisam de uma democracia norte-americana que abandone a treta dos neomaquiavélicos, pretensos defensores da liberdade, para quem eventuais bons fins justificariam os maus meios. Nenhum dos grandes problemas do mundo pode ser resolvido em solidão por uma eventual república imperial. Mas nenhum desses grandes problemas tem solução sem a cooperação norte-americana, ou com um qualquer regresso ao isolacionismo. A luta contra os interesses, contra a corrupção, contra o poder sem convicções, precisa de aliados. O Ocidente precisa desta renovação do sonho norte-americano. E eu apenas recordo que, quando ele foi eleito, estava em Timor, no meio de mestiços, recordando que o embaixador norte-americano em Jakarta, no tempo da invasão autorizada por Kissinger, era um dos altos hierarcas de Bush. Não o esqueço. Nem deixarei de recordar que a libertação de Timor só foi possível com a presidência do marido da actual “secretária de Estado” de Washington. Que não me engane. A esperança volta a ser discurso e a imaginação pode acontecer, pela Santa Liberdade!