Uma tempestade, não tanto de copo de água, mas de pantanosos tabus, plenos de trapalhadas

Pouco a pouco, os sinais de verdade começam a aparecer à superfície desta tempestade, não tanto de copo de água, mas de pantanosos tabus, plenos de trapalhadas. Sobre o caso que nos empolga e encharca, por mim, com os dados disponíveis, julgo já ter dito e escrito todas as frases, menos as que não tenho. Tentei não confundir a folha de árvore com a floresta, tentei não alinhar na onda do impulso e, se ilibei alguma coisa de Sócrates no plano pessoal, mantive o meu juízo de cidadão sobre a presente governação. Continuo a considerá-la tão negativa quanto aquela que a antecedeu.
É evidente que o PS, que comandou o situacionismo em dez dos últimos treze anos, é tão responsável quanto o PSD do cavaquismo, de quem recebemos a pesada herança de uma oportunidade perdida. PS e PSD, mesmo que se vistam e revistam de canhotos ou endireitas, não conseguiram livrar-se do cinzentismo bonzo das respectivas teias clientelares e nepotistas, bem como da consequenteditadura da incompetência, dado que não praticaram a meritocracia.
Quase um quarto de século de bloco central de interesses é tempo demais e quem tem culpa é o povão que acaba por escolher os governos que assim merecemos. Mesmo assim, torna-se urgente a mudança, no sentido de um novo contrato social que, mantendo o regime, remeta este situacionismo partidocrático para os tempos daquilo que chamávamos a outra senhora. Por mim, sem acreditar em falsos providencialismos, incluindo a pretensa república de polícias e magistrados, ou em pretensas ideologias salvíficas, resta-me pedir uma coisa bem mais simples.
As lideranças partidocráticas que temos deveriam pedir ao presidente da república um programa mínimo de regeneração política, social e moral do Portugal que resta, para que possamos, em consenso, lutar contra o indiferentismo e a corrupção que estão a minar a democracia e a confiança pública. É imprescindível que a comunidade, ou república, volte a penetrar pelo civismo nas cúpulas capitaleiras dos aparelhos de poder do estado a que chegámos.
Se continuarmos a lavar as mãos como Pilatos ou carpideiras hipócritas, tecendo loas à licitude formal do Estado de Legalidade, tanto o direito como a políticas perderão o norte, tal como a democracia pode perder o povo, para que a partidocracia continue a apodrecer pelo estadão. Por mim, não quero um Estado sem coisa pública, sem república, ou comunidade e, muito menos, uma democracia usurpada, longe do povo e, eventualmente, contra o povo.
As agências de propagandismo governamentalistas e as contras-agências de bota abaixo apenas nos ajudam a afundar, quando precisávamos de uma rota para um qualquer porto-seguro e não de uma qualquer ilha da utopia. E os pormenores da trapalhada vão aumentando, entre datas, comunicados de tios, não confirmação da prima como secretária, etc., conforme a irritação provocada por Mário Crespo ao ministro Silva Pereira, invocando questões insultuosas.
Ai de nós se o caso Freeport tivesse, para Sócrates, a dimensão de responsabilidade dos casos Isaltino ou Fátima Felgueiras… Seria o fim do regime, decretado pela cooperação judiciária europeia. Não comparo os dados, mas comparo o mesmo subsolo de um sistema que está a amarfanhar o regime, onde, à maneira de Guizot, conforme a descrição de Victor Hugo, há incorruptíveis que gerem corruptos. E até acrescento, há desonestos que recrutam ajudantes honestos, para que a confusão faça com que o justo pague pelo pecador.

O Presidente da República não pode ser o justiceiro inconsequente, mas a respectiva actuação de poder moderador deveria ser solicitada pelos principais partidos portugueses, para que todos eles não sejam, mas mesmo todos eles, os coveiros do regime. Deveríamos virar de página e impedir que gente honesta que há, maioritariamente, na governança e na oposição, possa servir a república, sem pisar terreno lodoso…

Comments are closed.