Mar 04

Entre gritos de badalhocas e fascistas do nosso lodo, à metafísica do asteróide, mais além é preciso

Quem teve a curiosidade de passar o video correspondente a esta imagem, prefere, sem dúvida, agradecer aos deuses o acaso de o asteróide DD45, com 30 a 40 metros de diâmetro, ter passado na segunda-feira a 60 mil quilómetros do sueste do Pacífico, sete vezes mais perto do que a Lua. Porque se houvesse um impacto com o planeta, esse poderia ser superior a mil bombas atómicas, como terá sucedido na Sibéria nos começos do século XX. Por cá e agora, neste reininho da esquizofrenia, entre apitos e filhos dos tios, tudo se acirra para fora do tempo e do lugar, embora ainda não tenham surgido fogueiras queimando um boneco representando Obama, como já nos transmitem as imagens vindas do Sudão.

 

Por isso, na aula de ontem, lá tentei comunicar aos alunos que a velha “polis” já não coincide com esse fantasma chamado Estado moderno, de marca soberanista, tal como se delineou a partir de Maquiavel e Bodin, sobretudo através de Hobbes. Pensando estruturalmente, a nível do médio prazo, recordei a existência de antigos jovens engenheiros sociais do mundo que colaboraram com a ideia de Sociedade das Nações do primeiro pós-guerra, conforme os esquemas delineados pelo presidente Wilson. Uns, na linha do Keynes, chegaram a Bretton-Woods, montando um sistema institucional a que falhou uma organização mundial de comércio, porque os norte-americanos preferiram o isolacionismo e nos obrigaram às pautas do GATT, tal como, mais recentemente, boicotaram o Tribunal Penal Internacional, coisa que Obama ainda não sufragou para que o Sudão entre nesta república universal de luta contra os crimes contra a humanidade, com lei, tribunal e polícia do todo. Outros, como Jean Monnet, acabaram por lançar as bases de um projecto supra-estatal europeu que está na base da actual união europeia, agora enredada nas ilusões neonapoleónicas das repúblicas-irmãs, segundo a hipocrisia jacobina que nos quis mandar para o Maneta.

 

Quem subscrever esses ideias históricos concretos do abraço armilar, essas anti-utopias que subvertem a realidade em nome de uma norma, tal como a democracia ou o Estado de Direito, essas essências que, através da consciência do homem concreto, com os pés no chão e os olhos nas estrelas, se tornam existências, têm que reparar, face à presente crise, como o combate pelo bem e pela polis melhor é global, sobretudo a nível do vazio de supra-estadual e de trans-estadual. Quem for realmente cosmopolita não o deve esquecer. Quem, nessa linha, se assumir como europeísta, deve continuar o sonho de derrubar o desespero do princípio da hierarquia das potências com que Talleyrand nos asfixia.

 

Porque é nesses tabuleiros multilaterais que se jogam os destinos de pátrias e políticos da dimensão de Portugal que precisam de um supra-estatal com normas para que o direito nos proteja dos poderios das potências. Sermos instrumentalizados por discursos demagógicos de partidos, como os nossos principais, quando eles se esquecem que também são meras secções nacionais de multinacionais partidárias europeias (casos do PS, do PSD e do CDS), é não compreendermos que assim agravamos a nossa impotência.

 

Impõe-se a mobilização de todas as nossas forças de influência internacional, para que não se perca a esperança da própria Europa, tal como se exige um adequado reforço da dimensão atlântica e lusófona, entre Bissau e Bruxelas. Por outras palavras, é através da política internacional, se tivermos uma ideia da função de Portugal no universo, que podemos superar os aparentes impasses domésticos. De outra maneira, na próxima cimeira, em vez de mandarmos um ajudante do primeiro-ministro, até podemos recorrer a um desses muitos assessores que fazem belos relatórios a partir de Bruxelas, mesmo que sejam espiões desempregados que brincam às informações da Internet. Prefiro provincianos cosmopolitas a tecnocratas apátridas, mesmo que sejam ministros. Foi isso que aprendi quando quase esotericamente fui seleccionado para assistir perto de Estrasburgo a uma reunião quase clandestina dos velhos activistas da Resistência para a comemoração dos encontros entre Adenauer e De Gaulle, acedendo àquele esoterismo da crença e do sonho sem o qual nunca existiria a Europa de Monnet ou do Centro de Estudos Germânicos da Universidade que devia ter o nome de Marc Bloch.

 

Nunca como hoje precisámos tanto de política europeia, sobretudo para garantirmos as nossas seculares franquias nacionais. Isto é, uma adequada teoria da política, fecundada pelas circunstâncias de tempo e de lugar, obrigam-nos a sair do paroquialismo e da endogamia, desta estúpida federação de forças vivas e de micro-autoritarismos sub-estatais em que nos vamos, neofeudalmente, enredando e definhando, porque muitos apenas querem ver aquilo que sabem e que não ultrapassa o horizonte dos campanários da sua baixa estatura mental, entre apitos da futebolítica que não reparam na hipótese do asteróide. Já chega de gritos de badalhocas e fascistas, entre frequentadores de bordéis, verbalizando pretensas lutas de classes com muita falsa consciência, à boa maneira prequiana.

 

PS: Agradeço ao neto de Camilo Castelo Branco a compreensão pela identidade do azul e branco a que permaneço fiel, mas farto dos talassas. Porque, às vezes, sente-se e pensa-se melhor Portugal fora do Portugalório do carreirismo mercenário, onde o apoio de um ex-ministro se compra com pareceres. Há discursos televisivos de nojo que custam milhares de euros mensais à mesa do orçamento. A transparência e a luta contra a corrupção exigem que todos eles sejam divulgados e tirados do saco azul da mão distribuidora dos subsídios que saem do meu bolso.