Mar 10

Nem Boulanger, nem João Franco e nada de tolices à Pimenta de Castro ou à Sidónio!

Antes de escrever este postal, revi, com cuidado, a entrevista de Medina Carreira a Mário Crespo, emitida ontem, no dia em que o rei fez anos, triste e preocupado, por não ter soluções para o país. O analítico foi demolidor: 48 milhões de euros por dia em endividamento; escolas, uma bandalheira; tribunais, quase na mesma; um governo que não é sensato, humilde nem competente; os partidos, casas de mulheres de má vida; etc. Foi até mostrado um quadro, onde víamos que a ditadura salazarista foi estatisticamente melhor que a presente e passada democracia. Porque, em números, voltámos ao crepúsculo da monarquia liberal.

 

Mas o ex-ministro de Soares disse bem dos primeiros anos do 25 de Abril, quando foi actor ministerial. Porque havia gente, ideias, país e esperança. Anunciou que este governo seria réu num futuro julgamento externo. Porque o dinheiro que vem de fora se esfuma, num ambiente onde os parvos são os que não ficam com dinheiro alheio. Porque estamos embebedados pela classe política. Porque os partidos querem ser um banco alimentar para se comer na manjedoura do Estado. Porque o voto não serve para nada. Porque em democracia não há soluções. Porque ninguém respeita os chefes hierárquicos na administração pública. Porque a colectividade não tem consciência dos problemas. Logo, viva o presidencialismo, à Pimenta de Castro e à Sidónio, um presidencialismo voluntário e democrático… chamando a isso Estados Unidos da América!

 

Ouvi. Mas ontem, na SIC, quase à mesma hora e em directo, quase com a mesma coincidência analítica nos subentendidos, não caía na tentação da pior emenda do que o soneto. Aliás, já fiz parte de uma casa partidária em projecto onde tudo se escangalhou por causa desse mesmo desespero de procura do presidencialismo. Até um ilustre catedrático fez um projecto de constituição nesse sentido, mas já largou a militância para fazer aquilo que que eu sei que ele sabe que eu sei, e que aqui não digo.

 

Quando o desespero nos invade, transformar o Boulanger em João Franco e confundir Washington com um major-professor, apenas nos adia o fim da política, quando chegar o intendente que suspende a praça pública e nos faz regressar à casa, dita “oikos” em grego. Onde há sempre um “oikos despote” e uma “oikos nomos”, a mera economia que se transforma na rainha das ciências sociais. Ou então, na versão latina, onde casa é “domus”, como um “dominus”, um dono. As questões política e económica têm a sua hierarquia, porque os problemas económicos apenas se resolvem com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas. Os problemas económicos são hierarquicamente inferiores aos problemas políticos e também precisam de soluções políticas. E nós inventámos a política para deixarmos de ter um dono…

 

A ilusão do cacete presidencial pode dar em Boulanger a fugir, ou em estação do Rossio em 1918, que é a repetição da esquina do terreiro do Paço de 1908, onde D. Carlos também caiu na esparrela de um presidencialismo de Primeiro Ministro e foi vítima da esquizofrenia que inadvertidamente provocou. Por outras palavras, a democracia tem que encontrar uma solução política dentro do actual quadro constitucional, com os péssimos partidos que temos, com as forças vivas de que dispomos, aliás, bem piores do que os partidos, e com uma colectividade que já tem um presidente actual, que apenas está preocupado, triste e sem soluções.

 

Por mim, não quero passar um cheque em branco a um qualquer presidencialismo, incluindo o de primeiro ministro, ou o daquele que também já foi primeiro ministro e até um dos principais causadores do actual situacionismo, quando, pela técnica do eucalipto, nos desertificou de política. A solução passa naturalmente pela “sensatez, humildade e competência” e pelo regresso àquele 25 de Abril, quando havia gente, havia país e havia esperança”. Qualquer analista com os pés no chão é capaz de vislumbrar no PS, no PSD, no CDS e no PS, dúzias de homens bons que podem trabalhar numa solução política para a presente encruzilhada.

 

E não será solução a habitual hiprocrisia dos rolhas e dos pescadores de águas profundas, batendo palmas aos chefes, mas sabendo que eles, um quarto de hora antes de perderem as eleições ainda estão vivos, como cadáveres adiados que vão fazendo discursos nos palanques do marketing. Por mim, embora lute, ainda acredito que o povão tem bom senso e mesmo que não faça a minha escolha, pode optar pela sabedoria “salus populi”. Basta que não dê maioria absoluta a nenhum partido e que obrigue todos os partidos a uma convergência, para um governo provisório emanado de um novo contrato social que liquide o sistema e regenere o regime. Não gritarei “viva a república honesta e abaixo os ladrões”, dando-lhes uma Bastilha imaginária, como na caricatura acima. Prefiro a realidade… para não ter que fugir, quando tiver que passar da teoria à prática!