Apenas se confirmou que entrámos em contraciclo

Apenas se confirmou que entrámos em contraciclo face aos parceiros culturalmente mais próximos da União Europeia, nesta hipocrisia de termos dirigentes políticos mais esquerda do que os respectivos militantes e militantes mais à esquerda do que os respectivos votantes e simpatizantes, deixando o fiel da balança aos reformados, aposentados e subsidiodependentes que preferem o distributivismo da caixa estal, alimentada a impostos, do que o estímulo ao mérito e ao sentido de risco de políticos com uma ideia de obra. A esta esquerda estatizante e ultraconservadora do aparelho de poder a que chegámos, resta o bloqueio mental da ditadura do “statu quo”, obrigando os timoneiros à condução de uma jangada de pedra que nos vai conduzir a uma sociedade de comemorações e funerais das pretensas glórias de um passado imperfeito, onde a técnica da nacionalização dos prejuízos nos vai endividar pelos séculos e séculos. E não há político do PS, do PSD ou do CDS que não rezem para que o tempo passe e se atinja a inimputabilidade da prescrição. Isto é, somos cada vez mais um regime de usucapião, confirmando a previsão de Proudhon, segundo a qual toda a nossa propriedade é um roubo, aqui desenvolvido de cima para baixo, segundo o modelo do devorismo, onde, de facto, não há moralidade nem comem todos. Basta notar como anteontem teve que sair uma nota oficiosa justificativa do actual Presidente da República e como ontem apareceu mais uma nota para a imprensa do anterior ocupante de Belém, esta sobre o processo de atribuição de casas da autarquia lisbonense, onde, por falta de prescrição se detectaram vinte e dois alegados crimes de abuso de poder, por parte de quem logo declarou que tem a “consciência tranquila”. Infelizmente, ao contrário da democracia britânica, aqui não há a vergonha que levou em Londres cinco ministros à passagem ao estado de homens comuns. Basta uma arruada em Santa Catarina, com bombos, cabeçudos e espantalhos, chegados em carros públicos de alta cilindrada, porque também são públicos, indirectamente, os que estão afectos aos partidos de financiamento público, para que a ilusão de festa oculte a fome, a revolta, o azedume a e indiferença, quando valia a pena usarmos a arma do voto para um adequado golpe de Estado sem efusão de sangue, como tão bem definiu a democracia Karl Raimund Popper. Como disse Teixeira dos Santos para os depositantes de um banco em desespero e com contas congeladas: “vocês são vítimas de quem vos enganou e é a esses que têm de pedir responsabilidades”. Por mim, gostaria que nas próximas assembleias gerais de accionaista da República Portuguesa SARL, despedíssemos, sem indemnização, os gestores dos nossos depósitos de confiança pública.

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