O interregno, para continuarmos a procurar Portugal fora de Portugal e sermos verdadeiramente universais

Ontem, foi doloroso dia de discursos metapolíticos para rasteiras interpretações politiqueiras. Mais uma vez se confirmou que, aos portugueses, falta Portugal, ideia de obra que não pode receber adequadas manifestações de comunhão por parte dos chamados portugueses. Porque os únicos portugueses que restam, mesmo estando cá, já não são de cá, dado que, atingindo o universal pela diferença, não correspondem ao paradigma sociológico dominante. São tão do contra que nem pela oposição conseguem ser mobilizados, achando absolutamente desinteressante qualquer preocupção quanto ao destino dos actuais depositantes dos poderes públicos. Quem passou os olhos sobre a cerimónia dos penduricalhos, com que se fizeram ontem as viagens na minha terra ao ritmo pimba, compreendeu que os portugueses oficiais estão entalados entre a comenda dada a um ministro educativo de Cavaco e a outro de Guterres, esses sinais da presente luminosidade reformista, cuja sínteses estava batendo palmas na primeira fila. Isto é, Rui Belo, Jorge de Sena, Almeida Garrett e Fernando Pessoa, depois de mortos, foram instrumentalizados no mau sentido. E o discurso inconformista de António Barreto soou a falsete, porque, na prática, a teoria foi outra. Se calhar, os melhores portugueses não podem ser mesmo portugueses. Têm que ser reconhecidos no exílio, externo ou interno, quando decidiram mesmo ser Portugal e tiveram que procurar Portugal fora daquele Portugal que elevou a primeiro condecorado um ex-ministro dito o petroleiro, porque o cacilheiro já deve ter recebido a sua carica. O discurso presidencial viaja pela super-estrutura da metapolítica, com exercícios de retórica sobre o dever-ser, apenas confirmou que há uma espécie de suspensão da confiança pública nos actuais donos do poder. Porque, se os mecanismos dos aparelhos governamentais e parlamentares continuam em plena legalidade, têm apenas legitimidade de título, mas já não a de exercício. Porque a legitimidade é algo que não se decreta, dado que vem de baixo para cima. Aliás, um governo legítimo é aquele que, além de deixar de inspirar medo aos súbditos, actua predominantemente pela persuasão, não recorrendo aos espaços do autoritarismo ministerialista, do ideologismo, da propaganda e da manha.

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