Portugal em contraciclo

É muito complicado traduzir para o politiquês lusitano, sobretudo entre os que proclamaram o Europa é nossa, o modelo político europeu. Não há ninguém que aqui represente a terceira e a quarta das famílias políticas do Parlamento Europeu, isto é, os Liberais e os Verdes. Nem sequer a direita radical anti-europeia existe. Os três prováveis deputados do Bloco de Esquerda e os dois da CDU podem não conseguir ser a Primavera dos setecentos e trinta e seis. Apenas se confirma que mandamos 10 para o PPE (mais três, apesar de termos passado de 24 para 22) e 7 para o PSE. Primeiro, porque o PSD, que quis ser da Internacional Socialista e passou pelo grupo Liberal e Reformista, acabou, através de Francisco Lucas Pires, no PPE. Segundo, porque o CDS, que começou no PPE, com Diogo Freitas do Amaral, foi, depois, expulso, mas acabou por regressar à família. Os resultados eleitorais são meras consequências do paralelograma das forças vivas que nos pressionam, onde o estadão da partidocracia continua a desertificar a velha democracia da sociedade civil. Mas quem sair da endogamia partidocrática desta jangada de pedra e ousar compreender o todo da gestão de dependências e de interdependências, pode concluir que os principais factores de poder que a presente governação sem governo tem de gerir já não são maioritariamente domésticos. Entrámos definitivamente em contraciclo, não tanto por questões ideológicas, mas antes porque nos resignámos face ao instinto de crescimento do poder deste estado a que chegámos, a que a não-direita chama esquerda, e a que a não-esquerda justifica com o Keynesianismo de timbre salazarento, mas que, afinal, não passa de um um mero piloto automático que não nos deixa mudar de rota. Esta é a pesada herança de um capitalismo clientar e fidalgote que nos veio do mercantilismo, gerando-se esta economia privada que tem medo do risco e do mercado, enquanto prossegue a desinstitucionalização dos grandes corpos da democracia consociativa, que o discurso ministerialista chama de corporações. Falhando a imaginação e coragem da pilotagem do futuro, não é possível uma estratégia de patriotismo científico, capaz de nos fazer flexível estrada boiante, como eram as naus de outrora, as que fizeram de Portugal o porto de uma Europa que quis abraçar o mundo.

 

Comments are closed.