Em tempo de férias qualquer malandro diz sempre que este ano não tem direito a férias

Não somos uigures nem tibetanos, tchetchenos ou timores, somos afonsinos repostos em 1385 contra Castela, em 1640 contra os espanhóis e vivemos desse impulso. Aguentámos muito, mas ainda hoje temos o Cristiano Ronaldo, como tivemos o Figo e o Eusébio, tal como também é nosso o Zé Mourinho, os que efectivamente fazem a imagem de Portugal no mundo, como bem sabe o rei dos “twitters” paralamentares do PSD, o Hermínio Loureiro, o tal que nunca dá dicas em vão.
Um dos meus queridos mestres, Johann Baptist Metz, ensinou: “não é por acasoque a destruição de recordações é uma medida típica da dominação totalitária. A escavidão começa com o facto de lhe tirarem recordações. Toda a colonização tem aí o seu princípio. E toda a insurreição contra a opressão nutre-se da força subversiva do sofrimento recordado”. Era assim que eu começava um colóquio sobre Timor, em 1991…

 

E lá estive a ler o meu colóquio de 91. Acho que vou publicitá-lo, porque enfrentando o politicamente correcto do esquerdismo maubere e alfacinha da época, parece que chateia ainda mais os ditos intelectuais, hoje, dado que uns foram elevados a secretário de Estado, e os colegas em monopolistas da avença, do parecer e do relatório. Sem tal factura, não abririam um concursinho para o mesmo ex-sacristão de Estado?

 

Não somos uígures nem hondurenhos, mas somos sempre de uma qualquer categoria da servidão voluntária, desses que preferem torcer a quebrar e que procuram, como rolhíferos levezinhos, aproveitar a próxima onda. A tal que sem nos levar para lado algo nos pode permitir aguentar o lugarzinho de deputado, o carrinho da autarquia, a respeitabilidade das viagens que temos de fazer pela província para na capital nos não chamarem queda de anjo. É tempo de pré-campanha, aquecem os motores, senhores candidatos. Em tempo de férias qualquer malandro diz sempre que este ano não tem direito a férias.
À maneira da teologia da libertação, poderemos dizer que talvez tenha chegado a hora de repararmos que história não será sempre escrita pelos vencedores. E talvez sejam mais universais os que povos que reconhecem que foram derrotados e que a liberdade efectiva nasce sempre do sofrimento. Neste sentido, os portugueses e os europeus estão mais de acordo com a maioria do mundo e podem ajudar os nossos aliados norte-americanos a perderem um pouco desse orgulho nascido da ilusão da história ser sempre escrita pelos vencedores.

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