Ago 14

Nota bem metafísica em dia de morte e regeneração

O desaparecimento de um dos poucos amigos a quem confiaria a vida numa linha de combate, mesmo que estivesse do outro lado da barricada, fez-me reavivar que, no princípio, esta o fim. Metafisicamente, mais liberal do que conservador, porque assumo a clássica perspectiva da regeneração e o nascer de novo, também considero a morte como uma iniciação para a eternidade.

E todas as ordens humanas apenas são simples procuras da perfeição, através do esforço dos homens humildemente livres. Porque neste dealbar do novo milénio, temos de ir além dos ideais conjunturais de sociedade de outras eras. Desde o mais recente socialismo esquerdista, ou direitista, ao mais avoengo positivismo naturalista.

Porque Deus e os deuses se assumem das mais variadas formas, das tábuas de Moisés as epístolas de São Paulo, das palhinhas de Belém à azinheira da Cova de Iria. Porque Deus e os deuses se mostram através de muitas aparências e ate aparições, desde o milagre de Ourique aos três pastorinhos. Porque o transcendente, o mais além, só pelas nossas palavras e os nossos símbolos pode ser dito e aproximado.

Ja existia antes de Maomé, antes de Cristo, antes de Buda, antes de Confúcio. Ja existia no tempo ocidental da pluralidade dos divinos e dos mistérios clássicos, quando a poesia era mais verdadeira do que a história, nomeadamente dos catecismos, das sociedades de propaganda da fé e das cartilhas que nos querem mostrar o caminho, com listas de pecados, encíclicas, decretos de cardeais, confessionários, inquisidores, homilias, sermões ou simples artigos com “nihil obstat et imprimatur”.

Não, não vou por aí, não vou imitar fantasmagóricos inimigos da teoria da conspiração, nao vou converter-me a congreganismos; mesmo de sinal contrário. Continuo a seguir o mistério de meu povo espiritual, o tal que não pode continuar algemado pelos que, atraves de multisseculares aparelhos de controlo social, continuam a usufruir do monopólio do moral, do transcendente e do divino. Sim! Ontem foi dia de metafísica e fui religar-me aos mistérios da criação e do eterno. Homenageei o Tó Zé. Para que o mar sem fim continue português.